A arte no percorrer das linhas

Se você buscar no Google pelos termos “cantores em ônibus”, aparecem no mínimo seis resultados (em vídeo), que podem lembrar você de algo que, provavelmente, viu acontecer em algum ônibus biarticulado essa semana.  Se esses resultados são sérios e válidos, não sei. A verdade é que não achei nenhuma matéria sobre essa profissão, pelo menos não nas duas páginas iniciais do Google, o que me faz pensar que realmente não existe.

O roteiro é sempre o mesmo: escolher uma linha de ônibus, entrar nele, cantar algumas músicas selecionadas e descer no próximo tubo, para então iniciar o ciclo outra vez. Gabriel D Omiciano e Monique Gonçalves aceitaram que eu os acompanhasse em uma de suas tardes de trabalho no transporte coletivo.

Gabriel e Monique no Terminal do Cabral
Gabriel e Monique no Terminal do Cabral. Foto: Gabriel Dietrich

Era uma sexta-feira. Fazia quase 30 graus e o sol brilhava bonito em Curitiba, coisa rara, principalmente no inverno.  Encontro Gabriel e Monique às 14h na Estação Central; eles escolheram a linha Santa Cândida/Capão Raso indo em direção ao Terminal do Cabral a princípio, iniciando sua tarde de trabalho que se estenderia até próximo das 18h.

O primeiro contato com os passageiros inicia com um “boa tarde!” dito em uníssono. As reações são as mais diversas; alguns fingem que não ouviram nada, outros respondem um sonoro “boa tarde” e vários olhares de curiosidade são percebidos de imediato. Não é para menos: Gabriel carrega seu violão e veste uma camisa com estampa étnica, tão colorida que lembra a cultura peruana, e Monique veste uma saia indiana e um chapéu, o que já é suficiente pra chamar bastante atenção ao entrar no ônibus.

São poucos os que respondem ao “boa tarde” inicial, e as táticas para combater isso já estão pré-estabelecidas. “Vamos tentar de novo pessoal”, exclama Gabriel, que tem essa reação em quase todos os ônibus que entramos pela tarde.

“Vamos lá, não evitemos o contato humano, pois somos todos farinha do mesmo saco!”. Essa frase tem sempre o mesmo objetivo: quebrar o gelo e gerar empatia – algo como “veja bem, eu sei que é estranho me cumprimentar. Se eu estivesse no seu lugar, também estaria acanhado, mas dê uma chance pra eu te mostrar o que sei fazer “ –  e assim a chance acontece. O ônibus percorre dois tubos, embalado ao som de “Amor, I Love You” da Marisa Monte e “Gostava Tanto de Você” de Tim Maia. A música não para.

As reações são muitas. Principalmente sorrisos. Foto: Gabriel Dietrich
As reações são muitas. Principalmente sorrisos. Foto: Gabriel Dietrich

A escolha das canções não é ao acaso.  A maior parte do público do ônibus conhece as letras, e pode acompanha–las se sentirem-se à vontade.  Muitas pessoas se emocionam. A música é capaz de transportar a mente para além do ônibus. Lembranças de momentos bons ou ruins, amores que sobreviveram ao tempo ou que se foram. Monique e Gabriel garantem que muitas pessoas já se emocionaram ao ouvi-los cantar.  

Observei as reações ao longo dos ônibus que passamos. Presenciei pessoas animadas com a possibilidade de ter uma música para se distrair em meio ao caos do dia corrido que estão vivendo. Desde a uma senhorinha – que parecia extremamente feliz de estar onde estava – até o bebê, que sem nem compreender o que se passava, teve sua atenção presa aos cantores.

No meio da tarde, trocamos de linha. Segundo a dupla, a linha Santa Cândida/Capão Raso não tem reações tão interessantes quanto a Centenário/Campo Comprido. Isso ocorre porque, na linha do Santa Cândida, é muito comum  encontrar artistas cantando e tocando, e em linhas menos centrais isso não é tão comum, o que surpreende e impacta mais o público.  Passamos a percorrer os tubos da linha Centenário em direção ao Terminal do Campina do Siqueira. E, como previsto, as reações foram mais calorosas e amáveis.

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Embarcando no Centenário/Campo Comprido. Foto: Gabriel Dietrich

Mas essa vida de “maluco beleza” não é feita “apenas de flores”.  A profissão, em teoria, é proibida dentro dos ônibus, o que garante algumas emoções no trajeto do trabalho.  Quanto à fiscalização, a dupla afirma que a relação com os fiscais costuma ser tranquila. “A maior parte dos fiscais respeita nosso trabalho, porque sabe que isso é um alento para a correria do dia a dia dos passageiros, só pediram para pararmos duas vezes, e aí paramos”.

Porém algumas pessoas que não aceitam bem o trabalho dos dois. “Já fomos tratados meio mal, por algumas pessoas que não curtiram nosso trabalho, mas em grande parte das vezes outras pessoas nos defendem, por curtirem e respeitarem o que fazemos”, conta Gabriel.

O objetivo deles é, além de trabalhar com arte, transformar o dia das pessoas, muitas vezes estressadas no caminho para seu destino. Para os dois, o respeito é o principal: “Se algum dos passageiros pedir pra gente parar, com respeito e motivos, nós paramos. Uma vez, uma senhora disse que estava com muita dor de cabeça, e nós paramos de tocar na hora. Nosso objetivo não é ser um incomodo para ninguém”.

Monique passa o chapéu enquanto canta. Foto: Gabriel Dietrich
Monique passa o chapéu enquanto canta. Foto: Gabriel Dietrich

 A causa da dupla é nobre: alegrar a vida das pessoas e viver de arte. Assim, concluo com uma frase de autoria de ambos, que é dita em conjunto, como quase todas: “Esperamos que essa canção não tenha atrapalhado, mas sim alegrado”.

 

Confira a galeria de fotos, pela lente de Gabriel Dietrich:

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