A competência de um metalúrgico

O exército de Lula contra Sérgio Moro

Por Cássia Ferreira

Do que nos é sensível na política, as manifestações públicas são as que mais comovem. O dia 10 de maio em Curitiba esteve repleto dessa comoção. Mais de 50 mil pessoas, segundo os organizadores, vieram de todas as regiões do Brasil em um ato de solidariedade ao ex-presidente Lula, durante seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Um exército de seguidores que o apoiam mesmo durante os questionamentos da justiça e a aparente perseguição do juiz. No discurso na Praça Santos Andrade, logo após o interrogatório, Lula declarou: “Haverá um momento em que a história irá mostrar que nunca antes nesse país alguém foi tão perseguido e massacrado como eu estou sendo nestes últimos anos”.

Com certeza, vai ficar na história, também, que nunca um ex-presidente teve tanto apoio do povo como desta vez. Um acampamento organizado pelo MST e outras frentes de movimentos sociais foi montado num terreno atrás da rodoviária. A preocupação com a liminar da juíza Diele Denardin Zydek, da 5ª Vara da Fazenda Pública, que proibia acampamento nas ruas e praças de Curitiba, caiu por terra, pois o terreno escolhido pelo MST era de concessão Federal, ou seja, fora das restrições municipais.

No lado de fora, fileiras de ônibus das mais diversas cidades, de onde as pessoas tiraram colchões e panelas para se alojarem debaixo de lonas e barracas por pelo menos dois dias. Uma cozinha comunitária foi montada para as refeições coletivas. Um carro de som no meio do campo atualizava o contexto político para aqueles que permaneciam acampados enquanto outros protestavam na praça, e assim iam se revezando. A organização ficava por conta de pessoas do próprio grupo que vestiam coletes identificando “Disciplina”, que coordenavam todas as operações do local e garantiam “os limites” da manifestação, segundo o relato de um dos trabalhadores, que não quis se identificar, por orientações do próprio movimento. Talvez, por medo de hostilização da própria mídia, ninguém no acampamento podia dar entrevista.

O acampamento organizado pelo MST foi instalado atrás da rodoferroviária de Curitiba e abrigou manifestantes vindos de todo país. (Foto: Cássia Ferreira)

Os atos foram pacíficos, mas as hostilizações ainda aconteciam esporadicamente por parte de algumas pessoas que, talvez, não compreendessem a indignação de uma classe que só se viu reconhecida durante o governo de Lula. Um trabalhador do movimento MST contou que enquanto ele caminhava pelas ruas da cidade em direção a praça, ouviu de uma varanda xingamentos como “vagabundos” e “desocupados”. Ele respondera dizendo “tá vendo essas mãos calejadas aqui? São de trabalhar na roça para pôr comida na sua mesa”, em referência aos muitos produtos que são produzidos e comercializados por organizações do MST e em defesa da sua posição de trabalho. “A gente está aqui porque não aceita injustiça, ninguém é vagabundo”, complementou o trabalhador. Uma outra ocorrência dos manifestantes, foi na noite de terça para quarta quando um rojão lançado de fora atingiu uma barraca dentro do acampamento, mas ainda não se conhece a autoria do ato.

A mobilização das frentes dos movimentos sociais é de sensibilizar toda a esquerda brasileira. E por que não a direita também? Comparados em tamanho e teor ideológico, as discrepâncias são muitas. Hostilidades existem em ambos os lados. Mas também há luta pelos valores de uma democracia e pela liberdade de expressão. O que se viu do 10 de maio foi a expressão de um povo indignado não só com a perseguição a Lula, mas, principalmente, com a aparente perseguição da esquerda, com a desintegração do Estado de Bem-Estar Social e a instituição de um Estado Mínimo, de contenção de gastos públicos.

Ao contrário da ideologia esquerdista, em que o Estado deve ser o responsável pelas políticas públicas que salvaguardem os direitos da população, o governo que tirou Dilma do poder – e, consequentemente, a esquerda – tem flexibilizado os direitos civis e trabalhistas, em função do liberalismo do livre mercado, mascarado pelo apelo à recuperação econômica, mas que pode provocar ainda mais desigualdades sociais. Como as reformas que vêm sendo feitas às pressas: a Reforma Trabalhista, da Previdência, do Ensino Médio, a PEC do Teto dos Gastos Públicos em Saúde e Educação, além da extinção de alguns ministérios importantes como o da Agricultura Familiar, as ameaças à FUNAI, entre outras medidas impopulares que levam o país ao Estado Mínimo. Dilma afirmou em discurso que: “Nem na ditadura militar ousaram retirar tantos direitos dos trabalhadores”. É perceptível, assim, um embate de classes.

Dilma criticou a arbitrariedade da justiça brasileira, principalmente a do juiz Sérgio Moro. (Foto: Cássia Ferreira)

E, neste ponto de vista, o que faz o povo defender Lula é essencialmente o que ele fez pelo Brasil, principalmente pelas classes menos favorecidas. No palco da praça, durante a tarde, foi apresentada uma releitura do famoso power-point das “convicções” que acusavam Lula de envolvimento em várias operações de corrupção na Lava Jato. Na releitura, o novo power-point apresentava grandes feitos do ex-presidente, como: O ProUni, que permitiu a milhares de jovens serem a primeira geração de suas famílias a frequentar uma universidade – desde o início do programa, em 2005, foram mais de dois milhões de bolsas distribuídas -; ou como o programa Luz para Todos, que beneficiou mais de um milhão de famílias que vivem, principalmente, nas regiões rurais do Norte e Nordeste; ou ainda o Bolsa Família e o Fome Zero, que tiraram mais de cinco milhões de brasileiros da pobreza. Dentre outros fatores atrelados ao maior crescimento econômico e a maior taxa de empregabilidade (14 milhões) da história do Brasil, uma relação direta com o poder de consumo do cidadão.

São essas ações que fazem de Lula um verdadeiro “herói” para um povo que conseguiu ascender, no mínimo economicamente, durante seu período de governo. A confiança que os manifestantes de 10 de maio depositam no ex-presidente os fizeram viajar por dias de ônibus, vindos dos mais diversos cantos do Brasil, para demonstrar a força dos movimentos sociais e do apoio a Lula. A esperança é de uma possível volta dele ao governo em 2018, que, na opinião deles, não pode ser barrada por Sérgio Moro, para que pelo menos as conquistas dos trabalhadores não sejam perdidas. São essas convicções que entoaram os cantos da multidão como “Lula, eu te amo”, “Lula eu confio” e “Lula / guerreiro / do povo brasileiro”.

Não só militantes e movimentos populares se dispuseram a favor da Lula. No ato também compareceram ao palco para falar a favor de Lula alguns políticos do PCdoB e PCO, os senadores Gleisi Hosffman e Lindemberg Farias, e o vereador Eduardo Suplicy, do PT.  A secundarista Ana Júlia Ribeiro, que teve destaque no ano passado por seu discurso de protesto à Reforma do Ensino Médio, na Câmara dos Deputados do Paraná, também discursou no evento e teve sua filiação ao PT anunciada por Lula, e respondeu dizendo: “é uma honra imensa para mim estar ao lado de quem mais construiu universidades públicas nesse país”.

A secundarista Ana Júlia, teve sua filiação ao PT anunciada por Lula. (Foto: Cássia Ferreira)
Jandira Feghali (PCdoB), deputada federal defendeu Lula e os direitos das mulheres em discurso. Jandira foi relatora da Lei Maria da Penha. (Foto: Cássia Ferreira)

Em discurso, Lula disse estar se preparando para concorrer novamente à presidência no próximo ano e reforçou o caráter de compromisso com a multidão que o ouvia. “A minha relação com vocês não é de político com eleitor, é de companheiro de luta e de projeto de país, de condução de uma sociedade civilizada”, declarou emocionado. E desafiou: “Se a elite brasileira não tem competência para consertar esse país, um metalúrgico vai provar que é possível”.

Confira abaixo mais registros do dia 10 de maio:

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