A conflituosa relação entre professores e o governo paranaense

Faltas, descontos de salário e violência física marcam o embate entre a gestão Beto Richa e os professores

Por Natalie Campos

A APP Sindicato incentiva que os professores vão às manifestações, mesmo com as faltas (Foto: Natalie Campos)

 

O dia 30 de agosto de 1988 marcou a história paranaense. Em manifestação na curitibana Praça Nossa Senhora de Salette, docentes que protestavam por seus direitos foram impactados por bombas de efeito moral, cães e cavalos, atirados por policiais militares sob gestão do governador Álvaro Dias.

O resultado foi uma dezena de feridos e cinco manifestantes presos. Uma violência que se equipara, em pequena escala, à que ocorreu na capital paranaense em 2015, quando mais de duzentos professores foram feridos sob gestão do governador Beto Richa (PSDB).

Neste fim de agosto, a manifestação em memória a tais violências foi ameaçada pelo governo do estado. O chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni, anunciou que o Comitê de Política Salarial (CPS) do Governo, descontaria o salário dos professores que participassem do evento. A decisão foi mal-vista pela APP Sindicato (Associação de Professores do Paraná – Sindicato), que a descreveu como ilegal e instaurou um debate com o governo, que ainda pondera sobre a oficialização do desconto.

Essa não é a primeira vez que o governo do Paraná entra em conflito com o direito de manifestação dos servidores públicos. O Jornal Comunicação reuniu os principais argumentos em torno de tais confrontos. Confira:

 

 

Hermes Leão explica que o problema ultrapassa a questão financeira. A instituição de faltas pelo governo do Paraná, além do prejuízo pelo desconto salarial, dificulta o avanço na carreira. “As chances do docente diminuem até mesmo em concursos de remoção”, afirma o presidente, que considera a medida uma violência com o intuito de desmobilizar a categoria. De qualquer forma, a orientação do sindicato continua a mesma: é necessário ir às ruas e lutar por seus direitos para não perdê-los.

Ainda não foi decidido se as faltas e o desconto de salário serão ou não aplicados. Mas, caso sejam, não será a primeira vez.

 

No dia 29 de abril de 2016, em ato para relembrar a violência sofrida por por mais de duzentos professores no ano anterior, os docentes que participaram sofreram faltas. Leão opina que as mobilizações incomodam o governo de plantão, ainda mais quando reforçam as lembranças de sua violência.

 

 

Outra paralisação que resultou em faltas aconteceu em março deste ano. Professores da rede municipal e estadual estenderam a greve do Dia Nacional de Paralisação, 15 de março, parando suas atividades também nos dias 16 e 17.

 

 

Hermes Leão toma partido de que os servidores do Paraná em geral são muito atacados pelo governo, sejam professores, agentes penitenciários ou policiais militares. Para o presidente da APP Sindicato, a gestão de Rafael Greca se assemelha à de Beto Richa. “É governo de estado mínimo, com ideologia voltada para o mercado. Um exemplo disso é a terceirização de escolas infantis. Terceirizar é voltar para o mercado: empresas visam lucro em primeiro lugar”, explica o presidente, recém reeleito pela APP Sindicato.

O presidente também noticiou outras faltas, tais como a atribuída aos docentes que participaram da Greve Geral de 30 de junho de 2017, contra as reformas e a favor de eleições diretas. Leão as categoriza como práticas antissindicais, que criminalizam as greves.

Opinião do especialista

O sociólogo especialista em poder local, Ricardo Costa de Oliveira, considera tais penalidades violências do governo contra seus servidores, tendo seu exemplo máximo no 29 de abril de 2015. “Desde então, o governo Beto Richa vem pregando formas de violência física e simbólica contra os movimentos sociais e educadores”, justifica Oliveira.

O pesquisador vê similaridades na gestão municipal, citando como exemplo a transferência da votação do pacotaço para a Ópera de Arame. Para ele, tais políticas são inefetivas e impopulares: “Todas as pesquisas de opinião revelam que tanto Beto Richa como Rafael Greca estão pessimamente avaliados. Esse é o reflexo do uso de violência contra a democracia”.

Mas, apesar de tudo, Oliveira acredita que a estratégia do governo não funcionou: a desmobilização da categoria teria tido uma eficácia menor que a pretendida pelo governo do Paraná. Allan Araujo, professor de história e filosofia e assessor de Hermes Leão, compartilhou sua opinião sobre o assunto com o Jornal Comunicação:

 

 

Ainda não há nenhuma informação sobre a decisão de atribuir ou não faltas àqueles que participaram do último ato em memória ao 30 de agosto.

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