A decisão de viver do mundo das artes

Escolher por uma graduação artística é um ato de coragem, mas atores, artistas e bailarinos têm conseguido sobreviver nesse meio apesar das dificuldades

Por Anelize Visin

Foto destaque: Talento e amor nem sempre são suficientes, a graduação é importantíssima para desenvolver técnicas, sensos críticos e estéticos e conhecimento teórico (Pixabay)

Escolher uma carreira não é tarefa fácil, a pressão e as expectativas pessoais e familiares são altas. Geralmente, muito maiores quando o curso escolhido não está entre os tradicionais: Medicina, Direito ou Engenharia. A escolha de carreiras como artes visuais, música, dança ou teatro requer coragem e muito amor. Os amantes das artes garantem que a atividade é gratificante e compensadora, mas será que é possível sobreviver exclusivamente da arte no Brasil?

A professora de artes plásticas Adriana de Paula Herrera, formada em Educação Artística e graduanda em Direito, defende que viver de arte no Brasil é difícil, porém não é impossível. Segundo Herrera, o que acontece é um “banho de água fria”, ao sair da faculdade e se deparar com o mercado de trabalho. “Saímos da faculdade pensando em produção artística e nos deparamos com um país que mal investe em educação de qualidade e apoia indiretamente a alienação cultural”, conta. Adriana, que já trabalhou como monitora cultural na Casa da Cultura, e hoje é professora de artes do ensino regular, afirma que é difícil encontrar suporte dentro dos próprios órgãos responsáveis e que a produção se reduz a projetos pessoais, já que a visibilidade nessa área ainda não é prioridade.

Atualmente, além de exercer a primeira profissão, Adriana também é aluna do curso de Direito e pretende se formar em 2019. Mas, garante que não pretende largar o que pra ela é realmente gratificante: as artes. Segundo a professora, a estabilidade financeira nessa área é difícil e acaba por vir da atuação em sala de aula, que acaba sendo muitas vezes frustrante devido às condições do educador no Brasil.  “Conhecimento e estudo nunca são demais, e atuar em uma área não significa abandonar a outra, apenas ampliar horizontes e possibilidades”, conclui a artista.

“Uma questão de propósito, de vocação, um desafio, um chamado. Viver de arte vai muito além de simplesmente ter trabalho, é acreditar que o que se faz tem uma utilidade e que há poder de mudança” (Adalberto Hoch). 

Já para Adalberto Hoch, Bacharel em Teatro pela PUCPR e graduando em Licenciatura de Teatro pela UNESPAR, a arte é “uma questão de propósito, de vocação, um desafio, um chamado. Viver de arte vai muito além de simplesmente ter trabalho, é acreditar que o que se faz tem uma utilidade e que há poder de mudança”. Adalberto escolheu a área, já sabendo das dificuldades financeiras que poderia enfrentar e diz que um grande problema é a sociedade que desmotiva os artistas. Segundo ele, as maiores dificuldades estão na extrema instabilidade da carreira, criada pelo Estado, que retira a garantia de artistas em sobreviver pelo fundo da cultura e subsídios do governo. 

Adalberto é também fundador da Companhia de Teatro Trupe ReAção, criada oficialmente em 2016. O objetivo é modificar a condição de artistas profissionais iniciantes no mercado de trabalho e, também, para dar continuidade em pesquisas que se iniciaram  no campo universitário. Atualmente a Trupe busca se manter através de suas apresentações, como a estreia no Festival de Teatro de Curitiba, e com patrocínios ou apoio privado.

As graduações em áreas artísticas variam entre música, dança, artes cênicas, artes visuais e
plásticas, moda, fotografia, entre muitas outras (Pixabay)

Para Bruna Luiza Palazzin de Lima, formada em bacharel e licenciatura em Dança e atualmente trabalhando na Prefeitura Municipal de Pinhais, a área artística tem o mesmo mercado saturado de outras áreas e o diferencial é ter especializações.  Para ela, a maior dificuldade está nas oportunidades, por exemplo, são abertos pouquíssimos concursos nessa área e com poucas vagas. A professora ainda aponta que a maior dificuldade na dança, é a valorização do profissional capacitado e graduado, além da falta de mobilização que busque pelos direitos específicos da categoria.

Segundo Bruna, a realização pessoal em sua carreira é muito além do que só a dança, é sobre benefícios aplicados em todos os aspectos da vida. “ Quando meus alunos entendem sobre foco e persistência, a sensação é de dever cumprido. É nesse momento que percebo que vale a pena ensinar, não apenas a dança, mas tudo o que a dança ensina”, completa a professora.

O ramo artístico não é o mais fácil de sobrevivência, porém é um meio de amor e gratificação, apesar da desconfiança e instabilidade sobre o futuro. A falta de valorização do profissional tem dificultado a vida dos artistas, mas quando a arte te escolhe, é difícil abandonar.

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