A Forma da Água – a metáfora do amor

por Robinson Samulak

O que aconteceria se Kay se apaixona-se pela terrível criatura em “O Monstro da Lagoa Negra”? E por que é a criatura da lagoa o vilão da história? Um dos grandes clássicos da fase de monstros da Universal, o filme de 1954 se sustenta na convenção de clichês que assume que o ser humano, o invasor, é a vítima. Já a criatura local, tida como um deus pelos nativos, assume a alcunha de vilão. Mas, e se alguém olhasse a história por outro ângulo?

É o que faz Guillermo Del Toro (“A Colina Escarlate”) em “A Forma da Água”. No filme, a faxineira Elisa (Sally Hawkins, “Blue Jasmine”), é funcionária de um laboratório (desses com classificação top secret) do governo dos Estados Unidos. Ali, ela conhece a tal criatura, mas diferente dos demais, Elisa vê mais do que um monstro num aquário.

Ao recusar conceitos e explicações óbvias, Del Toro consegue realizar uma narrativa em diversas camadas, cabendo ao público captá-las e/ou sentir-se contemplado. Na essência o filme é um romance, na estética é uma fábula. Porém, ao contrário do que a convenção dos gêneros nos faz acreditar, esta obra é sobre os excluídos. Não à toa Elisa é muda. Ela – tal qual os marginalizados – não tem voz na sociedade em que vive. Isso não significa, porém, que ela não seja como qualquer outra pessoa, com seus desejos e vontades, algo que o roteiro trabalha de forma sutil e elegante, logo na apresentação da personagem. Por sua vez, Sally Hawkins complementa através de sua expressão. Falta-lhe a voz, porém seu olhar é objetivo, contemplativo ou impetuoso, conforme o momento pede.

Da mesma forma, a construção de um vilão não é feita de maneira gratuita, apenas para entregar um clímax. Michael Shannon (“Animais Noturnos”) da vida a um ambíguo Richard, chefe do laboratório. A ele apenas falta a tatuagem na testa de “sonho americano”. Criado a imagem e semelhança de um período (Guerra Fria), ele é a soma dos estereótipos de um vilão clássico. Ao mesmo tempo, sua família contrapõe seu status quo, numa tentativa de humanizá-lo, algo que se perde ao longo do filme. Richard é construído como uma pessoa arrogante, machista e racista, mas Del Toro sabe inverter a posição de superioridade dele através de plongées e contra-plongées durante alguns diálogos.  

E entre alegorias e camadas, o filme entrega sutilezas genuínas sobre cada uma das personagens. Da carismática Zelda (Octavia Spencer de “Um Laço de Amor”) em sua rotina exaustiva de faxineira e dona de casa (além de mulher negra) ao simpático Giles (Richard Jenkins de “Kong: A Ilha da Caveira”), que transita entre o artista em busca de inspiração e o homem gay em busca de uma paixão (algo que lhe é negado e o coloca na mesma condição de silêncio de Elisa). Suas histórias existem de maneira isolada, o que as torna mais genuínas e verdadeiras. Del Toro as explora apenas até o ponto que nos cabe compreender e invadir a vida privada de cada um.

E no meio de toda a alegoria, há ainda o clássico conto de fadas sobre a história de amor entre criatura e a princesa. História essa que não se sustenta nas convenções do gênero, mas as extrapola e procura se ancorar no banal. Assim, toda a construção e o desenvolvimento da relação entre o monstro e Elisa são feitos com leves insinuações, seja no olhar através de um vidro ou em enxergar a humanidade numa criatura tão diferente (algo que retorna aos excluídos). E a ideia é complementada através do que está além do relacionamento entre os dois. Seja nas tentativas de Giles em manifestar seus desejos, na aparência forçada do casamento de Richard ou no afastamento espontâneo entre Zelda e seu marido. Todos vivem infelizes em seus relacionamentos (ou na ausência de um). Enquanto à Elisa, ao não enxergar um monstro na criatura, lhe é permitida a felicidade.

Poucos diretores sabem trabalhar com o conceito de mitologia e fábula como Guillermo Del Toro. “A Forma da Água” é certamente um de seus trabalhos mais consciente e maduro. É um romance não convencional, mas que sabe aproveitar as convenções e extrapolá-las, sem parecer forçado ou irreal. É também a visão romântica de que os monstros que nós criamos são expressões de nossos próprios problemas e conflitos, com a diferença de que a eles é permitido o direito de falhar e de ser imperfeito. Assim, Del Toro nos aproxima novamente de suas criaturas.

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