A libido do Cine Lido

Que algum grau de astigmatismo não carregue aquela culpa daltônica da profusão das cores do cine Lido. Por fora, algo como lilás choque ou coisa que o valha. Pelo menos destaca o suntuoso edifício à margem direita da Ermelino de Leão, enquanto da Cândido Lopes apenas se observa o tímido letreiro. É assim, quase na esquina dos desejos, um íngreme lance de escadas diz com todas as letras no bom e velho neon que ali, a poucos degraus de esforço, o Éden revela-se aos amantes do prazer isento de contrapesos, que ficam do lado de fora à espreita do sol curitibano.  

Assim como o tempo dos cinemas, junto às vias públicas, governa apenas as recordações, são de lembranças que o Cinema Lido olha para o passado das bilheterias à procura de títulos, digamos, mais convencionais. Tudo saía em primeira mão. A guinada ao gênero pornô aconteceu há 11 anos. A direção da casa fica nas mãos de uma dupla de gerentes, mas ainda conta com dois faxineiros, um auxiliar de gerente e um barman  – esse último tem a cara da casa.

O vermelho sensual e o piscar das luzes trazem um clima aconchegante e picante. (Foto: Plínio Lopes)

Ambiente diversificado

“Divertido”. Essa é a imagem de marca que Alexandre, tipo de curitibano nascido em Guarapuava há 42 anos, leva do público que frequenta as duas casas. Isso mesmo. Uma mais outra – breve parêntesis para a pequena e mais modesta morada do Cine Lido 2, na Travessa Tobias de Macedo, antes de cruzar a Riachuelo ou a Alfredo Bufren mais adiante. Bem escondidinha e menor que o Lido 1, com menos frequentadores também..

Ele começou frequentando a casa, há cerca de 10 anos e, depois, passou a trabalhar no seu lugar de diversão. Todo esse tempo rendeu várias amizades. “Nossa, eu tenho muitos amigos aqui”, relata Alexandre em meio aos apetites e fantasias que atiçam a imaginação dos clientes.

Ainda há espaço para um bate papo do que quer que seja. Se para muitos a premissa de evitar assuntos de política, futebol e religião é cláusula pétrea no convívio entre comuns, é porque não tomaram conhecimento do Lido. Se goza e também se joga conversa fora quando o fôlego dá uma trégua. Feita a devida exceção ao “pega pra capar”, a casa é tranquila. Por 15 reais, os maiores de 18 anos acessam “um lugar fácil de conseguir o que você quer”, chancela Alexandre.

Enquanto o Cine 1 tem 12 horas de atividade, das dez da manhã às dez da noite, de segunda à sábado, e domingos das 13h30 às 22h, o Cine 2 é mais restrito: das 10h às 18h nos dias úteis, e no sábado, das 12h às 18h.  Um filme de relação heterossexual é exibido por semana em cada casa. Muitos dos frequentadores não vem na casa necessariamente por conta dos filmes, mas existem reclamações sobre isso. ‘’Se você vem mais de uma vez por semana é obrigado a assistir o mesmo filme duas vezes’’, reclama Eros, frequentador da casa há mais de 12 anos. Porém, ele admite que nem sempre o filme faz a diferença. ‘’A gente vem pra se divertir com as pessoas também, né’’, confessa. É de sua autoria a sugestão para, com todas as letras, informar que este estabelecimento se trata de um cinema pornográfico. “É melhor que seja aqui em cima o cinema, pois lá embaixo estava escrito só cinema, mas tinha que estar pornô:  tem que estar escrito que é cinema pornô – senão criança entra”, conta. “Assim, as crianças não vinham, mas os pais delas sim”, complementa Eros.  

Esse rastilho de pólvora a acender os ânimos da carne é acompanhado pela presença de garotas de programa. São pelo menos 7 todos os dias que trafegam pelos Lidos num total de 12. “Tem até gente que se veste de Cross Dresser, um rapaz se veste de mulher e fica uma semana satisfazendo os desejos na casa”, revela Alexandre, fazendo questão de afirmar que o cinema não ganha sobre os programas das meninas, que pagam somente a entrada como todo mundo.

Porém, não é de garotas de programa que o cinema sobrevive. De acordo com todos os entrevistados, cerca de 90% da clientela é homossexual. Dentro desse recorte, temos homens, mulheres, travestis e transsexuais. O naipe dos frequentadores varia como o clima em Curitiba. “Tem juiz federal aposentado, delegado, um mendigo que vem à tarde e fica à noite (…) Um percussionista da Preta Gil ficou um sábado com as meninas e tal”, emenda Alexandre. O Cine Lido é uma república plural.

Se não houvesse a crise, é bem capaz que o fluxo diário de frequentadores se mantivesse na cota habitual dos 190 a 200 pessoas/dia. Dada a quebradeira nos bolsos, a queda chega aos 40%, mas a máxima de Alexandre “para comida e putaria, sempre tem dinheiro, sempre tem procura”, é comprovada por empirismo à medida que a bilheteria registra a entrada de mais um consumidor disposto a fazer a “bagunça dele”, prosseguindo nos termos do gerente.

Obrigado, e volte sempre. (Foto: Plínio Lopes)

Almas de carne e osso

A vida no Lido admite tantas outras que se conhecem, que trocam experiências e sensações, confidências e gargalhadas. Cláudio é o barman da casa. Lá dentro, chama todo mundo pelo nome. Na venda da rifa de final de ano em que os vencedores serão premiados com panos de prato natalinos assinados pela tia, ele garante a venda dos nomes restantes na base do carisma esculpido pela vida. Sai um drinque, depois um nome, dois reais pra cá, alguns quebrados para lá. Tudo isso regado a enredos cabeludos narrados na primeira pessoa. Esse já é um curitibano metido à capixaba que vive de corpo e alma o ambiente da casa. Poucos são os instantes em que não curta com a cara dos outros, sempre tirando a maior onda.

E quando a transsexual Renata, uma das meninas que faz programas no Lido, se juntou ao falatório, foi o que bastou para disparar das suas. “Você é a celebridade aqui hein! Cobra aí a entrevista…”, emendou Cláudio. “Eu atendo de tudo…homem, mulher, casal…”, explicava Renata, seguida da réplica que tomou forma. “Ela é ‘flex’ – diz Cláudio. “Álcool e gasolina. Álcool pega na cana, gasolina põe no tanque”, brincou.

Renata tem um verdadeiro acervo de histórias que se equivale às preferências da clientela . A diversidade por aqui é imperativo categórico. Antes de ser ela, quando ainda fazia as vezes como ele, trabalhou em uma grande multinacional do varejo, chegando a atuar em grandes cidades como Recife e Vitória. “Eu tenho dois filhos e a minha filha termina a faculdade ano que vem”, relata.  

O Cine Lido também pode ser melhor compreendido pela fuga de estereótipos. Se o Lido é uma república que não faz distinção de gêneros, credos, etnias e, sobretudo, de sabores sexuais, é porque carrega na expressão do desejo a força da sua tolerância.   

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