Além do batuque e das festas: atléticas da UFPR promovem a cidadania através do esporte

Por Ian Batista

 

Nas escadarias da Praça Santos Andrade os recém aprovados no vestibular da Universidade Federal do Paraná têm o primeiro contato com as atléticas de seus respectivos cursos. Todo início de ano elas recepcionam os novos calouros no dia da matrícula com muito barulho, empolgação e tinta para o trote.

Presença garantida nos torneios universitários organizados entre os estudantes, o maior desafio das atléticas atualmente é desmontar a ideia de que suas prioridades como instituições são as festas. As celebrações tradicionalmente marcadas pela presença de bebidas alcoólicas, entretanto, desempenham importante tarefa no funcionamento dessas organizações.

“O principal é a renda para investir nos esportes”, afirma Andressa de Oliveira, diretora de esportes na Atlética de Sociais Aplicadas (ASA) da UFPR. A estudante de Ciências Contábeis revela que, ao contrário do que muitos pensam, os eventos promovidos são justamente a fonte financeira que mantém as entidades. “Através das festas ou produtos vendidos, juntamos dinheiro para materiais, inscrições em campeonatos e uniformes”, completa.

Integração entre os estudantes é uma das marcas dos torneios universitários. (Foto: Reprodução/Facebook AACOS)

 

As atléticas da Federal do Paraná possuem estrutura semelhante à de uma empresa comum. Compreendendo todos os cursos do setor de Artes, Comunicação e Design, a Associação Atlética de Comunicação Social (AACOS) funciona com cargos que vão da presidência, passam pelo setor financeiro e comunicacional, até as diretorias de esportes e bateria.

Responsável pela representação da atlética frente à Universidade, a presidente da AACOS Rhaiany Leicy declara que o propósito de integração é a diretriz seguida pelo grupo para chamar novos interessados que nunca tiveram contato com o mundo esportivo. “A gente sempre procura focar nos benefícios que a prática de exercícios traz para a saúde, e que não é necessário ser expert no esporte para fazer parte”, revela. “Eu mesma nunca fui uma ‘uau’ atleta, mas gosto da ideia de encontrar uma galera, praticar esporte e fugir do sedentarismo”, explica Rhaiany.

Para João Ricardo, fundador da Lenhadores, a questão esportiva é apenas uma das vertentes possíveis dentro dessa proposta de integração. Na opinião do criador da atlética representante do curso de Engenharia Florestal e Industrial Madeireira, o viés social deve orientar esse espaço. “O ponto chave de uma Associação Atlética é a gestão de pessoas com pensamentos, educações, crenças e experiências diferentes, criando nelas um laço de união, que possibilite a todos trabalharem em prol de um objetivo único”, destaca o ex-aluno de engenharia.

João, formado recentemente em Engenharia Florestal pela Universidade, salienta o trabalho voltado à cidadania que sua atlética executa, citando ações sociais como doação de sangue, de chocolate para crianças especiais e arrecadação de brinquedos, por exemplo. Para o engenheiro, o desenvolvimento como ser humano é o ponto mais gratificante de ser executado. “A maior importância, independente de paixão pelo esporte ou não, é o crescimento pessoal, explorando todas as áreas de conhecimento como a gestão de pessoas, administração de recursos financeiros, marketing, comunicação, entre outros”, exemplifica.

 

Relação com a UFPR

Embora financeiramente independentes da UFPR, as atléticas ainda precisam da Universidade para a concessão de um espaço viável para treinamentos ao longo do ano. Além de contarem com uma estrutura muitas vezes limitada em recursos, os ambientes propícios à preparação encontram na grande demanda de alunos outro empecilho para que todos possam utilizar as áreas da maneira ideal. “As atléticas ainda têm muito pouco reconhecimento dentro da Universidade e encontram muita burocracia para o mínimo de acesso à estrutura que temos. Com o ‘boom’ das atléticas hoje na Universidade, os espaços que temos para prática esportiva acabam sendo limitados para atender a todos”, analisa Andressa.

Destaque na Lenhadores, o time de vôlei costuma treinar semanalmente nas dependências da Universidade.
(Foto: Reprodução/Facebook Lenhadores)

 

A diretora de esportes da ASA, entretanto, mostrou boa expectativa a respeito do rumo que a relação atlético-universitária está tomando com a melhoria da reputação do grupo. Para a estudante de 27 anos, levar o nome da UFPR pelo Brasil nas competições é uma das atitudes que favorecem esse desenvolvimento. “No nosso setor temos um apoio muito grande da nossa diretora, que já nos ajudou em muitas dificuldades que tivemos e vê nosso trabalho realmente como construtivo na nossa formação acadêmica. A consciência da importância da prática esportiva e a representatividade da UFPR através das atléticas em diversos campeonatos está caminhando para que haja uma assistência maior”, conta.

Na opinião de João, o suporte da Universidade às atléticas poderia ser mais amplo, apesar de ter melhorado significativamente de 2013 para cá, segundo o ex-estudante. Caminhando a passos lentos, o vínculo estabelecido entre as duas entidades ainda é cercado de burocracias e proibições sem fundamentos aos olhos dos alunos. “As baterias são projetos dentro das atléticas. Promovem o desenvolvimento cultural e apoiam as equipes em quadra, e recentemente a Universidade proibiu os ensaios dentro da suas dependências. Ao meu ver, essa atitude é dar um passo para trás nessa relação entre Universidade e atléticas. O apoio às atléticas tem que existir em todo projeto, seja esportivo, cultural, musical ou qualquer outro”, opina.

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