Alergias alimentares interferem na rotina de estudantes universitários

Problemas como intolerância à lactose e ao glúten necessitam de atenção especial no dia a dia

Por Daniel Tozzi Mendes

Foto por Vinicius Moschen 

Em meio a correria da vida universitária, um número significativo de estudantes ainda têm que lidar com problemas que afetam diretamente seu dia-a-dia: as alergias alimentares. Embora consideradas como uma deficiência não tão grave do ponto de vista clínico, essas alergias são mais frequentes do que o senso comum supõe. A intolerância à lactose, por exemplo, faz parte da realidade de 70% dos brasileiros que, em diferentes graus, sofrem com tal problema. Esta deficiência torna o organismo incapaz de produzir uma enzima chamada lactase que é responsável por digerir a lactose (tipo de açúcar presente no leite e seus derivados) fato que acaba ocasionando problemas no sistema digestório, como distensão abdominal, cólica e diarreia.

Neste sentido, alunos que dependem dos Restaurantes Universitários para se alimentarem podem ter algumas dificuldades. Os cardápios dos RUs da UFPR, são feitos pensando-se no padrão alimentar da população em geral, e, por questões financeiras e de logística, seria impossível atender a todas as particularidades que estão sujeitas as pessoas que sofrem com alergia alimentar. No entanto, a nutricionista responsável por coordenar os Restaurantes Universitários da UFPR, Lucyanne Correia, lembra que em todos os cardápios existem informações sobre quais alimentos contêm substâncias como glúten e lactose. Ela também afirma que, em situações onde há um acompanhamento específico, como um molho de carne que contenha lactose, o aluno pode solicitar que lhe seja servido uma porção de comida sem esse acompanhamento.

Para a estudante de publicidade da UFPR, Cristianne Kamimoto, que sofre com intolerância à lactose, a deficiência não é tão preponderante no seu dia-a-dia. “A intolerância não me atrapalha tanto porque eu sempre ando com um remédio na bolsa”, diz ela, ao se referir ao Lactosil, enzima que atua na quebra da lactose dos alimentos e ajuda na digestão. Cristianne também relata que, como adquiriu a intolerância somente aos 18 anos, não passou por nenhuma dificuldade quando estava em fase de crescimento, e precisava consumir alimentos mais ricos em cálcio, como o leite.

Mas sofrer com intolerância à lactose foi uma experiência bem ruim para Matheus Castro, estudante de música da UFPR, muito por conta de ter desenvolvido a deficiência durante a adolescência, “em uma época de muito estresse”, como o próprio afirma. “O psicológico me afetou muito. Antes eu comia bastante queijo, chocolate e leite. Tive que readaptar minha dieta”, pondera o estudante que, atualmente, consegue conviver normalmente com a intolerância. Apesar de consumir lactose algumas vezes por semana, acredita que o melhor a se fazer é cortar ao máximo esses alimentos: “Hoje não sinto falta de nada. Costumo comer em lugares ‘normais’. Minha dica é que a pessoa deve se adaptar e criar o hábito de se alimentar sem lactose”, conclui.

A estudante de Design da PUCPR, Laís Carinato, sofre com um transtorno autoimune chamado de “doença celíaca”, causado pelo consumo da proteína do glúten. Segundo ela, “a possibilidade de comer fora de casa quando necessário, não existe mais”, por conta da falta de estabelecimentos confiáveis. Para ela, todas as suas refeições devem ser bastante planejadas, fato que acaba influenciando também em sua rotina. “Sair para socializar se tornou uma atividade um pouco difícil, e os convites também pararam de chegar, pois as pessoas se sentem desconfortáveis com a presença do ‘intolerante chato’ que não pode comer nada”, lamenta a estudante.

Visando melhorar as condições de pessoas que sofrem com algum tipo de intolerância alimentar, Laís desenvolveu, em um projeto da faculdade, uma linha de embalagens específicas para alimentos sem lactose e glúten. De acordo com a estudante, a ideia surgiu após ela ter constatado a dificuldade de se encontrar opções de alimentos seguras para intolerantes alimentares em lugares de grande circulação de pessoas. Desta forma, a linha de embalagens serviria para que o intolerante pudesse escolher e pedir um produto com mais facilidade, sem se preocupar com as contaminações por lactose ou glúten.

No entanto, Laís afirma que a maior dificuldade do trabalho foi encontrar profissionais das áreas de comunicação e design que tivessem um entendimento mais abrangente sobre intolerâncias alimentares para orientá-la no desenvolvimento do projeto. De fato, problemas de saúde como esses merecem uma atenção especial, principalmente porque tais deficiências influenciam diretamente na rotina de milhares de pessoas que precisam conciliar seus afazeres cotidianos com uma série de restrições na hora de se alimentar.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *