Após impeachment, Brasil cria clima de inimizade com países da América Latina

Em entrevista ao Jornal Comunicação, o analista de Relações Internacionais Gustavo Blum contou sobre o impacto que o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff provocou em questões políticas e econômicas da região

Por Júlia Ledur

As decisões e discursos da nova gestão do governo brasileiro, bem como do Ministério das Relações Exteriores, geram clima inóspito com os demais países que compõem a América Latina. Em especial após o afastamento definitivo da ex-presidente da República, Dilma Rousseff, e a posse do presidente interino Michel Temer. É o que afirma o analista de Relações Internacionais e Política Internacional Contemporânea, Gustavo Blum.

Segundo ele, as reações ásperas do Itamaraty às discordâncias de países da região com relação ao processo de impeachment, além da intenção do governo brasileiro de firmar laços comerciais prioritários com Estados Unidos e Europa, são ações prejudiciais para a imagem do Brasil e que também acirram a competição entre os países do Mercosul. Confira a entrevista completa do Jornal Comunicação com o especialista:

Jornal Comunicação: Em que posição o Brasil se encontrava politicamente na América Latina durante o governo Dilma? Era um país de liderança? Alinhava-se ou distanciava-se dos demais países do bloco?

Gustavo Blum: Há um certo consenso de que o governo Dilma não levou muito em consideração a política externa. O foco era o desenvolvimento interno do país e a resolução de problemas. Isso traz algumas dificuldades para nós, porque uma certa liderança do Brasil na América Latina acaba perdendo força, justamente pela diminuição do impacto da política externa. E isso fez com que a ação da América Latina também enfraquecesse. Apesar disso, no governo Lula havia um foco maior na política externa, que visou estabelecer parcerias principalmente com os países em desenvolvimento.

JC: O que muda com a ascensão do governo Temer?

GB: Bom, há algumas mudanças importantes já visíveis. Primeiro, uma volta à orientação política de um grupo que teve muito impacto na política externa do Fernando Henrique Cardoso. O que nós vemos é uma certa preferência não pelos países em desenvolvimento, mas sim pelos países desenvolvidos. Essa é uma mudança forte após os últimos treze anos de governo do PT, que priorizava o que nós chamávamos de Sul Global, que são os países mais pobres. O José Serra [Ministro das Relações Exteriores] e o Temer já demonstraram que esse não será o foco. Eles chamam essa ação do PT de “política ideologizada”, mas na verdade eles também têm uma ideologia própria de desenvolvimento da política externa para o livre comércio. Para esses governantes, a única chance de o Brasil inserir-se no mundo seria através da abertura do mercado brasileiro e da assinatura de acordos bilaterais.

JC: A pretensão da gestão Temer de intensificar as relações econômicas e políticas com os Estados Unidos e os países europeus reposiciona o país no âmbito da América Latina? De que maneira?

GB: Eu acho que nós estamos vendo um certo movimento ao longo da América Latina, não só no Brasil, de realinhamento de alguns governos, sobretudo no Paraguai e em Honduras, que surgiram de processos muito parecidos com o que estamos vivendo no Brasil. Esses processos levaram ao poder uma equipe ideologicamente muito diferente daquela que ganhou nas urnas. Isso acaba levantando alguns problemas. A ênfase do Brasil no governo Lula era uma governança da América Latina coletiva. Já as direitas que estão subindo ao poder agora na América do Sul querem ser as “meninas-dos-olhos” dos Estados Unidos. E então acirra-se uma competição que pode ser prejudicial para o Mercosul. São os países cedendo cada vez mais à pressão americana.

JC: Honduras, Paraguai e Argentina apresentam uma virada recente ao neoliberalismo. Os recentes protestos em Caracas mostram que a Venezuela segue o mesmo caminho. Isso é positivo para a gestão Temer?

GB: Eu acho que isso é um grande desafio. Pode ser bom, assim como pode ser prejudicial. Pode ser bom porque de repente encontra-se uma certa afinação entre esses governos em questão de política externa. Porém, todos eles dão muita ênfase para a negociação direta com a China e com os Estados Unidos, em termos de questões comerciais e econômicas. O problema é que isso ocasiona uma certa desintegração e uma competição cada vez mais acirrada com relação à tensão dessas economias globais. Ou seja, por serem neoliberais talvez não haja cooperação. Justamente por isso, e por conta dos tratados bilaterais negociados pelas potências, é que nós veremos um ciclo vicioso de conflito entre essas gestões.

JC: Do ponto de vista econômico, o novo governo tende a acompanhar os processos do Mercosul e da Unasul, ou dá indícios contrários?

GB: Eu não vejo essa indicação, inclusive porque com a ascensão desse novo governo aqui no Brasil a tendência é se acirrar uma competição com a Argentina.

JC: Países como Cuba, Bolívia, Equador, Nicarágua, Chile, Uruguai, Venezuela e El Salvador, além de organizações como a Organização dos Estados americanos (OEA) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), criticaram e repudiaram o processo de impeachment e o novo governo. Inclusive, El Salvador e Venezuela chegaram a convocar seus embaixadores. Qual o significado dessas ações? Como isso pode influenciar o contexto político da América Latina?

GB: Eu acredito que isso é muito prejudicial para a América Latina, mas sobretudo para o Brasil. Isso porque muitos desses países compõem a ALBA, a Aliança Bolivariana para a América Latina, que é uma organização que reuniu durante muito tempo os governos mais voltados para uma esquerda bolivariana, da Venezuela, do Equador. Os países da ALBA viam no [Hugo] Chávez uma liderança contra-hegemônica na região. Esses países eram muito próximos dos governos de esquerda, tanto dos Kirchner quanto do Lula e da Dilma, o que levou a uma integração interessante. O grande problema é que a partir do momento em que o governo Temer sinaliza que depois do impeachment vai haver cada vez menos alianças com esses países, são levantadas dúvidas sobre as parcerias.

JC: Em um dos comunicados, o Ministério das Relações Exteriores diz rejeitar “enfaticamente” as declarações destes governos, inclusive da Unasul. Esta reação do governo brasileiro pode criar um clima de inimizade na região?

GB: É extremamente prejudicial, na minha leitura. Em primeiro lugar, essa chancelaria apresenta algumas dificuldades, porque nós vemos uma mudança muito forte, até mesmo nas redes sociais, por parte do Itamaraty, com relação a vários temas que representam a intenção do Brasil de se posicionar de forma mais subalterna aos interesses dos Estados Unidos e da Europa em assuntos de política externa. Nós vimos algumas notas que foram bem estranhas e uma tentativa muito enfática sempre de tentar enfrentar os que eram contra o impeachment, uma tática que não é tradicional do Itamaraty. Eu vejo com preocupação essas declarações muito fervorosas, porque podem levar a crises diplomáticas sim, sobretudo com grandes parceiros, e justamente em um momento em que o Brasil se torna o líder da América Latina nos últimos dez anos. Quando uma nova chancelaria começa a desafiar de uma maneira tão agressiva e dizer que esses governos são desimportantes, nós temos um problema porque isso acaba minando a questão moral e imagética do Brasil como um líder.

Gustavo Blum é graduado em Relações Internacionais, mestre em Geografia, analista de Relações Internacionais e Política Internacional Contemporânea e professor das disciplinas de Geografia Política e Política Internacional Contemporânea na UNICURITIBA.

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