Artistas curitibanos protestam pela liberdade de músico

A prisão do baixista Wallace Jordan no último sábado é interpretada como a gota d’água da política conservadora do prefeito Rafael Greca

Por Gabriel Muxfeldt

Ontem, terça-feira 29, cerca de 30 pessoas se concentraram na esquina próxima ao Centro de Audiências de Custódia da capital paranaense para demonstrar apoio à Wallace Jordan. O baixista da banda Comboio Saci foi detido na noite de sábado e permaneceu desde então no 1° D.P de Curitiba junto à outros três indivíduos também encaminhados durante o ocorrido. Através das redes sociais, foram organizadas duas manifestações pela liberdade do músico, uma no domingo e outra na segunda-feira.

A movimentação começou em frente à banca de jornais da esquina da Casa de Custódia. Estavam presentes músicos, artistas, jovens universitários, amigos de Wallace, entre outros simpatizantes da causa. Foto: Gabriel Muxfeldt

A confusão teve início por volta das 21h30 do último dia 25 na Rua Trajano Reis, nas proximidades do bar Vila Bambu. A banda de Wallace realizava uma apresentação que contava com cerca de 50 espectadores e tudo corria bem até a chegada da Polícia Militar do Paraná. Segundo os policiais, vizinhos teriam reclamado do barulho excessivo, pedindo a interrupção do som. Segundo relatos de testemunhas, os músicos atenderam de pronto o pedido e, mesmo assim, tiveram a caixa de som apreendida pelos PMs. Ao tentar argumentar sobre a  incoerência da ação, Wallace foi imobilizado e agredido com um chute ao entrar na viatura.

Indignados com a violência dos agentes, populares começaram a xingar e atirar objetos nos policiais. Alguns presentes revoltaram-se e partiram para cima dos PMs que responderam com socos, chutes e cassetetes, agredindo até pessoas que nada tinham a ver com a confusão. Pouco depois, chegaram mais algumas viaturas com o reforço do Bope (Batalhão de Operações Especiais), que distribuiu bombas de efeito moral e mais violência. Ao menos dois feridos foram encaminhados ao hospital Cajuru. Igor Moura é produtor cultural e estava presente no que classificou como “show de horrores”. Segundo ele, a PM agiu de forma agressiva, intimidadora e com violência desproporcional desde o momento da abordagem.

Alguns levaram cartazes contra a violência e a opressão, em defesa de Wallace e da liberdade artística. Foto: Gabriel Muxfeldt

A PM afirmou que o integrante da banda resistiu a prisão e incitou quem estava no local a ir contra a patrulha, causando o conflito. A polícia acrescentou que foi hostilizada e agredida, tendo três agentes “feridos levemente”.

Junto com o baixista, foram encaminhados à mesma delegacia o estudante José Carlos Ozilieri Júnior, o pedreiro Paulo Henrique Teixeira Linhares da Rocha e o poeta Edson de Vulcanis, de 60 anos, conhecido popularmente como “Aranha”. Pesam sobre eles principalmente as acusações de resistência à prisão, desacato à autoridade, lesão corporal e perturbação do sossego. A soma das contravenções foi o argumento utilizado para mantê-los em cárcere até o dia de hoje, mesmo que fossem réus primários e já tivessem se passado 48 horas do ocorrido. Segundo Cristiano Bezerra, cunhado do músico detido, em nenhum momento ele teve o direito de ser visitado ou falar com alguém além do advogado.

A audiência de custódia que definiria sobre a resposta dos processos em liberdade foi marcada para às 16 horas de ontem (28). Por volta das 17h30, o juiz Rubens dos Santos Júnior decidiu sobre a liberação dos acusados sob o pagamento de fiança, estipuladas individualmente em valores entre 300 e 1400 reais. A fiança de Wallace foi a mais cara, pois no entendimento de Santos Júnior, o baixista teria incitado a multidão a agredir os policiais – fato desmentido por diversas testemunhas oculares.

Momento em que a mãe de Wallace é avisada sobre a soltura do filho. Foto: Gabriel Muxfeldt

A Ordem dos Músicos do Brasil se manifestou solidária à causa e irá custear parte da fiança do baixista. A outra parte será arrecadada através de doações e vaquinhas. Embora o pagamento da fiança tenha sido efetuado momentos depois da decisão judicial, o alvará de soltura só foi fornecido perto das 23h30, depois de muita pressão de amigos e conhecidos de Wallace. Devido ao horário, o músico e os outros 3 acusados ficaram presos por mais uma noite. Eles foram então transferidos para o 11º D.P, no CIC – apenas Aranha permaneceu no primeiro DP – com a alegação de que a cela que se encontrava estaria em péssimas condições. Após anunciar a liberação em diversos horários pela manhã, a Polícia Militar do Paraná só liberou os acusados por volta do meio dia, pois não havia impressora na delegacia.

Censura recorrente

Juliana Pegoraro, 31, é artista de rua e há dois anos trabalha na rua XV de Novembro com performances que envolvem bolhas de sabão e na venda de brinquedos artesanais feitos por ela. Segundo Juliana, dos lugares em que já trabalhou, Curitiba é o que apresenta maiores dificuldades na regulamentação da arte de rua. A artista possui alvarás para exercer suas funções em cidades de São Paulo, Rio Grande do Sul e do litoral catarinense, mas enxerga aqui diversos impeditivos burocráticos para as atuações artísticas nas ruas.

A artesã relata que na última quarta-feira (22) foi abordada por fiscais do urbanismo que pediram que saísse do local, pois suas bolhas de sabão estariam chamando mais atenção do que a inauguração da decoração natalina que seria realizada naquele dia. Quando Juliana questionou a legitimidade da ação, os agentes chamaram a polícia que a coagiu com ameaças a se retirar.

Prejuízos para a cidade

Ainda segundo Igor Moura, tal postura da polícia e o posicionamento político do prefeito Rafael Greca, apenas trazem prejuízos para a cidade como um todo. Para o produtor cultural, os eventos e intervenções artísticos trazem uma nova dinâmica para os locais mais marginalizados da cidade. Onde ocorrem estas ações, tem-se uma diminuição da violência, cria-se um espaço de convivência e de circulação de pessoas, além de movimentar o comércio e a economia locais. Moura acredita que a política higienista de Greca atinge apenas as classes e lugares menos prestigiados da cidade e que seriam justamente os que mais necessitam de tais intervenções.

 

3 thoughts on “Artistas curitibanos protestam pela liberdade de músico

  1. Capricharam na matéria colocando estes baderneiros como inocentes, não é nada disso que aconteceu é claro que todos que estavam participando do evento vão se manifestar contra a ação da policia, Por que não peguntam a opinião dos moradores e de outros comerciantes que não sejam bares
    para falem o que acham destes eventos que realizam aqui neste trecho da Trajano Reis, principalmente na frente deste antro de perdição que é este VILLA BAMBU onde toda noite tomam conta da rua , que ideia e esta de falar que é uma rua dos pobres, claro que é dos pobres, pobres coitados que vem aqui para se divertir e se viciar em drogas e cachaças. Pelo amor de Deus senhor produtor Igor Moura , arte é algo do bem , não se pode considerar arte o que vocês fazem que não tem o minimo de respeito aos vizinhos, a minha mãe é uma senhora de mais de 80 anos e esta doente por não mais conseguir dormir. Parabéns a policia militar e ao prefeito Rafael Grega que atendeu o apelo dos moradores. E esta artesã Juliana ai que esta reclamando da ordem em Curitiba que ela volte para o Rio que lá é o lugar dela. no meio daqueles baderneiros que não respeitam ninguém e que transformaram a cidade num campo de guerra.

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