As duas faces dos livros de youtubers

O mercado editorial aposta nos influenciadores digitais para atrair leitores, mas o conteúdo desses livros é alvo de polêmica 

Texto e fotos de Janyne Leonardi de Carvalho

Enquanto a televisão é ligada com cada vez menos frequência, canais no Youtube recebem milhares de visualizações todos os dias. Tornou-se comum encontrar vídeos de comemoração a cada milhão de inscrições conquistado. Essa febre pelos produtores de conteúdo também ultrapassou a esfera online e está presente em diversos outros meios. Até mesmo quem nunca assistiu a um vídeo pode reconhecer os nomes mais famosos da plataforma, porque eles estão estampando cartazes de cinema, agendas de teatros e, principalmente, capas de livros.

No mercado editorial, mais de 70 livros escritos por youtubers já foram publicados até o início de 2017. E o assunto abordado pelos escritores varia pouco. Seja sobre como criou o canal, como superou dificuldades, lidou com o bullying, deu o primeiro beijo. Poucos influenciadores digitais aproveitam para escrever crônicas ou ficção. As editoras gastaram suas fichas nessas personalidades para que os números de visualizações se transformassem em números de vendas, e para que essa nova geração de pré-adolescentes, que não tiveram contato direto com Harry Potter, por exemplo, pudessem ter uma iniciação à literatura contemporânea infanto-juvenil. E a iniciativa parece ter dado certo. “Quando eu ingressei no mercado, seis meses atrás, a procura estava fortíssima. Principalmente pelos livros da Kéfera, do Christian Figueiredo e do AuthenticGames. Os jovens vinham à procura apenas desses livros”, conta Márcio, gestor da livraria Sebo Novo. Além disso, de acordo com o PublishNews, “O Diário de Larissa Manoela” ficou em 4º lugar na lista de mais vendidos no Brasil em 2016, ultrapassando até mesmo o novo livro da escritora J. K. Rowling, “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”.

Entretanto, essa explosão de vendas vem dividindo opiniões. Em uma enquete, 70% das pessoas na faixa de 12 a 23 anos não recomenda a leitura de livros escritos por youtubers. E a opinião das mães é ainda mais forte. Márcio conta que algumas mães ficam felizes quando não tem o livro escrito por um youtuber que o filho está procurando, e aproveitam a oportunidade para oferecer alternativas de leitura ‘que tenha história’, segundo elas. Mesmo assim, eles costumam ser resolutos. Por outro lado, muitas pessoas concordam que é uma boa forma de iniciar o contato das crianças com a literatura. “A MTV costumava desligar a programação e colocar na tela ‘Desligue a TV e vá ler um livro’ por cerca de meia hora. E eu acho que tem tudo a ver. As pessoas passam menos tempo na televisão e no computador assistindo a essas pessoas para ler o que elas têm a dizer”, diz o gestor da Sebo Novo.

De qualquer forma, a dúvida que fica na cabeça de todos e tira o sono das editoras é a mesma: será que essa moda vai durar? Sabemos que, diariamente, muitas pessoas ligam uma câmera e começam a gravar o mundo ao seu redor para compartilhar e buscar o estrelato que esses influenciadores possuem, mas o interesse permanecerá ao longo das próximas gerações de adolescentes? Um dos entrevistados na enquete disse: “É um novo tipo de literatura. Quer as pessoas gostem ou não, é algo que vai ficar marcado na história da literatura do Brasil”. Para Márcio, a curva desse movimento já foi ultrapassada: “Nós não estamos mais investindo nesse tipo de literatura, porque a procura já não é mais a mesma de antes. Nos resta aguardar e ver quais serão as próximas cartas lançadas pelo mercado editorial”.

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