Atividade física durante a gestação: quais são os limites?

Reportagem por Mariana Wiedmer Fachini

O número de grávidas presentes em academias e centros esportivos é cada vez maior, e muito disso se dá pela fama que ganharam as “mamães fitness” nos últimos anos. Campeãs em número de seguidores e admiradores, elas têm suas fotos compartilhadas por todos os lados e incentivam outras grávidas a manterem-se ativas. Mas no meio de toda esta fama, surge o questionamento: praticar atividade física durante a gestação é realmente saudável para a mulher e o bebê?

A verdade é que não há motivo para tanta preocupação, se a gestante estiver seguindo as orientações médicas. Segundo a professora do Departamento de Educação Física da UFPR, Neiva Leite, são poucos os riscos em comparação aos benefícios. Estes últimos podem ser sentidos desde os primeiros meses até a recuperação pós-parto, por facilitar que a gestante volte a realizar as atividades rotineiras com autonomia.

Para Neiva, a melhora da autoimagem e o aumento equilibrado do peso são os principais pontos positivos, além da redução de dores comuns às grávidas, como a da lombar. Atividades como pilates e hidroginástica são indicadas, principalmente para gestantes que desejam o parto natural, pois os exercícios ainda fortalecem os músculos internos e estimulam o trabalho de parto.

Mikaela Peixoto e o marido, Douglas, durante a segunda gestação. (Foto: arquivo pessoal)
Mikaela Peixoto e o marido, Douglas, durante a segunda gestação. (Foto: arquivo pessoal)

A professora Mikaela Peixoto, bailarina por hobby, fez ballet até a 31ª semana de sua primeira gestação. Já na segunda, não teve todo esse fôlego, mas continuou a se exercitar com corridas leves e pilates. Para ela, os principais benefícios foram sentidos no pós-parto. “A dança e o pilates tiveram um papel fundamental, eu consegui voltar ao meu peso muito rápido”, comenta. Segundo Mikaela, a atividade física também auxiliou na recuperação da diástase abdominal – uma separação dos músculos do abdômen – que teve após a segunda gestação.

Érico Tiemann, sócio fundador do Instituto Besser – Pilates para Gestantes, trabalha com foco específico neste público há seis anos. Para ele, o maior problema se encontra na falta de acompanhamento individualizado para a gestante, e não na própria atividade. Nas academias comuns, onde os profissionais geralmente ficam responsáveis por atender um grupo muito grande de pessoas, a gestante pode não ter a orientação correta de acordo com suas limitações. “Como é um público muito delicado e específico, existe a necessidade de um acompanhamento na mesma proporção, exclusivo”, complementa Érico.

Outro fator também deve ser observado: nem toda gestante é aconselhada a praticar exercícios. Em alguns casos, a recomendação médica é de repouso absoluto. Até mesmo o quadro clínico da mulher antes da gravidez pode levar à contraindicação de algumas atividades. A maior cautela deve ser tomada por mulheres que têm hipertensão, por exemplo.

Não existem grandes restrições quanto ao tipo de atividade física, mas o cuidado deve existir de acordo com a prática escolhida. Entre as mais procuradas, e também mais indicadas, estão yoga, pilates e hidroginástica, de intensidade leve e moderada. Algumas gestantes apostam ainda em atividades mais pesadas para manter a forma, como musculação, crossfit e treino funcional. Estas, apesar de serem vistas com certo receio, podem ser praticadas se permitidas pelo obstetra.

Contudo, ainda existem riscos. Segundo a professora Neiva, o maior problema está nos esportes de contato, que envolvem possibilidade de queda e trauma, como o basquete e o futebol. Mas mesmo com o alto risco de impacto, não são necessariamente proibidas, desde que com orientação médica e acompanhamento profissional.

A americana Meghan Umphres continuou a rotina de treinos até o dia do parto. (Foto: Reprodução)
A americana Meghan Umphres faz parte do time de “grávidas fitness” e continuou a rotina de treinos até o dia do parto. (Foto: Reprodução)

Outra dúvida bastante comum entre gestantes diz respeito aos períodos da gravidez próprios para praticar exercícios. Como explica Érico, no primeiro trimestre há um risco maior de aborto espontâneo porque a placenta e o embrião ainda podem não estar totalmente fixados. Tudo depende da condição clínica da gestante. “Muitas vezes a mulher nem sabe que está grávida e faz alguma atividade simples que pode acabar comprometendo a gestação”, esclarece. Nos casos em que a mulher já praticava atividade física regular antes, não há necessidade de interromper, apenas reduzir a intensidade.

Outro momento crítico da gestação é o terceiro trimestre. Neste período, há um risco maior de pré-eclâmpsia, complicação relacionada ao aumento da pressão arterial, que pode ser agravada com a atividade física inadequada. Mesmo as gestantes que não tiveram hipertensão durante a gravidez devem dobrar os cuidados e prestar mais atenção em seu corpo. Mas não significa que há um período limite para se exercitar. Assim como a atividade física recomendada, a hora de parar varia de mulher para mulher. Enquanto a gestante estiver sentindo-se segura e com disposição, não há problema algum. Inclusive, são comuns os casos de gestantes que praticam atividades leves, como pilates e hidroginástica, até o dia do parto.

Apesar dos benefícios, vale lembrar que a moderação e o acompanhamento profissional são indispensáveis. “A gestação não é o momento de virar atleta e se dedicar excessivamente a um exercício”, afirma a professora Neiva.

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