Atômica | Além das Bond girls

O longa é resultado de uma direção racional e de uma atriz talentosa, contra tropeços do roteiro

Por Milena Alves

Fonte: Divulgação/ Universal Pictures

 

Filmes de ação têm um problema recorrente: personagens femininas mal concebidas. Na categoria “filmes de espionagem”, então, prevalecem os estereótipos de Bond girls: mulheres extremamente bonitas que servem de distração romântica para o protagonista, sendo mocinhas indefesas, capangas do vilão ou agentes aliadas. A característica principal, se não a única, é a sensualidade. Assim, é uma boa surpresa perceber que a protagonista do filme, interpretada por Charlize Theron (também creditada como produtora do longa), é muito mais complexa do que as “partes iguais de sensualidade e selvageria”, como sugere a sinopse do estúdio.

O filme se passa em 1989 e é baseado nos quadrinhos “The Coldest City”, de Antony Johnston e Sam Hart. Na trama, Lorraine Broughton (Theron, de “Mad Max: A Estrada da Fúria”) é uma agente da MI6 enviada a uma Berlim ainda dividida entre o lado oriental e o ocidental, com a missão de recuperar um documento que pode destruir as negociações do fim da Guerra Fria. Para isso, ela conta com a ajuda possivelmente desastrosa de David Percival (James McAvoy, de “X-Men: dias de um futuro esquecido”), outro agente da MI6 estabelecido na capital alemã. A estrutura do filme mescla a busca de Broughton pelo documento perdido com o interrogatório a que ela é submetida dias depois, já que o resultado da missão não agrada seus superiores da MI6 nem os aliados da CIA.

David Leitch está iniciando sua carreira como diretor, mas está há anos na indústria cinematográfica, atuando principalmente como dublê e coordenador de cenas de ação. Em “Atômica”, o diretor deixa claro que soube aproveitar as experiências anteriores e traz um filme com uma direção consciente, em que nenhum detalhe foi negligenciado.

A fotografia dessaturada contrasta com as cores fortes dos créditos iniciais e as cenas do quarto de hotel em que Broughton está hospedada, iluminados por cafonas luzes de neon, e da boate em que a agente se encontra com a espiã francesa Delphine (Sofia Boutella, de “A Múmia”). Estas são as ocasiões em que Lorraine baixa a guarda. Nos minutos finais também há uma mudança na fotografia e a imagem ganha mais cor e calor.

O uso da trilha sonora é inteligente. Aparelhos de rádio são ligados em diferentes momentos, com suas músicas dos anos 1980 servindo como um inusitado plano de fundo para cenas de luta. Assim como as músicas, o figurino também é usado para ambientar a época e a situação política, e é sempre divertido ver o exagero das roupas e penteados. Curiosamente, o figurino de Lorraine é o único não datado, adequado tanto para a Alemanha Ocidental, Oriental ou uma coleção outono/inverno 2017.

As cenas de ação são muito bem executadas e a violência nelas é incômoda. Uma em particular se desenvolve quase em plano sequência, e expõe ao mesmo tempo as habilidades de Broughton e sua vulnerabilidade. Indo contra o clichê do herói invencível, vemos a espiã se esforçando para aguentar os golpes e continuar em combate. E a ausência de uma trilha sonora contribui para aumentar a tensão da cena.

 

Fonte: Divulgação/ Universal Pictures

Mas a direção cuidadosa não é suficiente para compensar o roteiro confuso. As habituais reviravoltas das histórias de espionagem podem ser difíceis de acompanhar aqui, principalmente nas cenas finais. Há muita coisa acontecendo e os personagens são sempre dúbios, o que dificulta compreender suas motivações. Como aconselha o chefe “C” (James Faulkner), “não confie em ninguém”.

O grande mérito de “Atômica” é mesmo a protagonista. Em sua primeira cena, Lorraine aparece completamente nua, mas sem evocar sensualidade. Mergulhada em uma banheira cheia de gelo e repleta de hematomas, a primeira impressão é de fragilidade. Charlize Theron desenvolve bem as nuances da personagem, com uma postura sempre fria e profissional, quase arrogante, mas que deixa transparecer emoções mais humanas nos momentos certos

James McAvoy também é competente ao encarnar David Percival como um ser tão caótico como a cidade à sua volta. É impossível saber a quem pertence a lealdade do agente, assim como não há como dizer se ele é incompetente para seu posto ou mais esperto do que aparenta. Já Sofia Boutella apresenta Delphine Lasalle como um personagem mais inconsistente. A cena de sexo entre a personagem e Broughton decepciona por servir mais como fetiche para agradar parte do público do que no desenvolvimento da história.

Apesar do roteiro pouco inspirado, “Atômica” é uma boa estreia para Leitch na cadeira de diretor e mais uma excelente atuação para o currículo de Theron. O gênero “ação” só tem a ganhar com personagens bem construídos.

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