Cantoras curitibanas entre os prazeres e os desafios de ser mulher no meio musical

Elas estão lutando cada vez mais para conquistar espaço e destaque em meio a casos de assédio e preconceito por conta do gênero

Por Mariana Toy

Não se pode mais imaginar a indústria da música sem as protagonistas femininas. As mulheres sempre lutaram contra o machismo nesse meio e agora não é diferente. No ano passado, 22 músicas interpretadas por mulheres entraram no ranking das 100 mais executadas no país. Os dados são da Crowley, empresa que monitora rádios do país para a indústria fonográfica. Apesar dos avanços, ainda existem preconceitos a serem derrubados para que as mulheres deixem de ser apenas musas inspiradora e conquistem espaço como cantoras e compositoras.

No início do ano, a cantora italiana Emma Marrone foi assediada no programa de televisão Amici di Maria de Filippi, do Canale 5, e a emissora tratou o caso como uma brincadeira. Alguns veículos de mídia chegaram a culpar a vítima por ter “reagido mal” à pegadinha. Há algumas semanas, a cantora americana Taylor Swift ganhou o processo que moveu contra o DJ David Mueller, também por assédio sexual. Em 2013, durante um encontro de Swift com os fãs, Mueller colocou a mão por baixo da saia da cantora, que o expulsou do local na mesma hora. Depois de perder o emprego que tinha em uma rádio, o DJ resolveu processar Taylor Swift  por ter prejudicado sua vida profissional. Ao final do processo, a cantora recebeu o pagamento de 1 dólar, valor simbólico pedido por Swift.

Taylor Swift afirmou que o DJ David Mueller estava levemente alcoolizado durante o encontro (foto: TMZ)

Mas a luta pelos direitos não é algo distante. A banda curitibana Mulamba utiliza letras intensas e temas importantes para expor seus ideais. Amanda Pacífico, Carla de Sá, Carolina Pisco, Fernanda Koppe, Natália Fragoso e Naíra Debértolis procuram dar espaço às vozes caladas. Com o sucesso do clipe da música P.U.T.A, que tem mais de 800 mil visualizações no YouTube, o grupo formado apenas por mulheres percebeu que muitas pessoas precisavam ser ouvidas. É isso que elas procuram fazer com suas composições: “falamos do feminino, do encorajamento, do amor como forma de resistência e o que mais surgir pelo caminho querendo ir pro mundo”.

As integrantes da banda contaram que os desafios na música são gigantes e que convivem com a falta de confiança nos bastidores, apenas por serem mulheres. A vontade das artistas é de mudar o pensamento retrógrado e preconceituoso, para fazer com que as mulheres recebam o reconhecimento que merecem. “Já tivemos que ouvir deboches do tipo ‘toca mais alto pra sair o som’, mas estamos lutando por mudanças. Somos mulheres, sim, e conseguimos fazer o que quisermos”, afirmam. Segundo o grupo, muitas mulheres procuram a Mulamba para falar sobre a importância de ter uma voz que as represente. “Essas mulheres se calaram por muito tempo, mas agora enxergaram a possibilidade de contar isso pra alguém e encontraram força para denunciar o assédio ou abuso que sofreram”, declaram.

A cantora Jade Farah, integrante da dupla curitibana Folkears, também utiliza a música para contar histórias e compartilhar pensamentos. Em 2015, a jovem começou sua parceria com Rafael Dauer e juntos estão gravando seu primeiro EP. Apesar de não se considerar uma militante do feminismo, Jade confirma que existe discriminação de gênero no meio musical. “Muitas vezes sou subestimada e minha opinião não é considerada, então preciso ficar provando que sei sobre o assunto para ser ouvida. É cansativo”, contou. Além disso, a cantora comenta o perfil de mulher que a indústria musical procura: “cante bem, seja linda e não exponha seu pensamento crítico”.

Mesmo com a desvalorização das artistas femininas, Jade encontra na música o prazer e sua forma de expressão. Ela aconselha que as mulheres que desejam investir na música procurem trabalhar a autoconfiança para enfrentar os desafios dessa profissão. “Não deixem que alguém as deprecie. Mas, se não conseguirem evitar, transformem esse momento em música, pois ela nos fortalece”, afirmou. A jovem cantora ainda está no início de sua carreira, mas convive com a música desde pequena. Seus pais e a maior parte de seus familiares cantam, compõem ou tocam algum instrumento musical. Nestes anos de convivência, Jade aprendeu que a música envolve muito mais do que subir ao palco e se apresentar. Existe um preparo nos bastidores que exige um conhecimento muito mais amplo da área. Por isso, ela recomenda às mulheres que escrevam, aprendam a tocar instrumentos e estudem, pois “o estudo é independência”.

Foi o que fez Lia Kapp, estudante de Música da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que deixou o curso de Psicologia para ir atrás do que realmente gostava de fazer. A estudante já possui um EP lançado, chamado “Conflito”, mas ainda precisa lidar com pessoas que veem seu trabalho como brincadeira e até desconfiam que ela seja a compositora de suas músicas. Com apenas 20 anos, Lia já passou por assédios no meio musical ao tentar promover seu trabalho. “Fui atrás de divulgação e a pessoa disse que faria por um preço mais barato porque sou ‘bonitinha’”, conta.

A jovem começou a investir em seu conhecimento musical a partir dos 15 anos, quando fez aulas de piano e violão, além de iniciar as aulas de canto dois anos depois. Apesar dos desafios, Lia ainda espera poder viver de música no futuro. Ela já se apresenta esporadicamente com o acompanhamento do amigo Gustavo Mazuroski, que toca guitarra. A maioria das músicas que canta nos shows são de sua autoria e ela pretende lançar, até o final do ano, seu primeiro álbum “Metamorphösis”.

Premiação para mulheres na música

Com o objetivo de destacar a participação e promover a inclusão de mulheres no mercado da música, a jornalista Claudia Assef e a produtora cultural Monique Dardenne criaram o Women’s Music Event (WME). A plataforma reúne música, negócios e tecnologia a partir de uma perspectiva feminina, fornecendo conteúdos atualizados, agenda com os principais eventos femininos espalhados pelo mundo e o destaque: uma ferramenta que cadastra profissionais da música do mundo todo. Funcionando como um banco de dados, o portal busca alimentar a indústria musical com mulheres de diferentes setores, de artistas a produtoras e pesquisadoras.

O WME, em parceria com a VEVO Brasil, vai promover o Women’s Music Event Awards by VEVO, primeiro prêmio de música brasileiro focado nas mulheres. O evento acontece em São Paulo, no dia 28 de novembro, e tem três frentes: homenageadas pelo conjunto da obra, voto técnico e voto popular. Neste último, o público escolherá a vencedora por meio de uma votação no site da Women’s Music Event, a partir de outubro.

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