Cirurgia dos famosos segue ganhando adeptos anônimos

Foram realizadas 4.200 bichectomias por cirurgiões plásticos no Brasil em 2016, estatística engrossada por quem busca um rosto mais fino

Por Raisa Toledo

A cirurgia de diminuição das bochechas por motivações estéticas ou funcionais apareceu como prática nos anos 80, e tem se tornado mais popular no Brasil depois de 2015. Conhecido como bichectomia, o procedimento consiste na extração de duas bolsas de gordura localizadas nas bochechas  —  as bolas de bichat —  e já foi realizado por famosos como Kim Kardashian, Angelina Jolie, Megan Fox, Gloria Pires,Tom Cruise e o cantor Buchecha.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), cerca de 30 bichectomias são realizadas por mês no país, número que triplicou em relação a 2014. A  maioria das pessoas que procura um especialista para realizar a operação tem reclamações quanto a largura de seus rostos e tamanho das bochechas, mas a cirurgia também pode ser uma forma de harmonizar a expressão facial ou passar uma impressão de rejuvenescimento.

O antes e depois da bichectomia da socialite Kim Kardashian (Foto: Getty Images)

O incômodo com o próprio rosto pode ter origem estética ou relação com a falta de espaço no interior da boca, que resulta em dificuldades no cotidiano ou constantes mordidas na parte interna das bochechas. Era o caso da publicitária Clara Miliani, que se submeteu à cirurgia há quatro meses e conta que hoje, além da autoestima renovada, tem mais facilidade para comer e falar e está livre das mordidas involuntárias.

Apesar de um receio inicial, Clara optou por seguir em frente: “sempre tive muito medo de cirurgia, mas acompanhei relatos de outras pessoas que haviam feito e resolvi me consultar com uma cirurgiã dentista. Senti tanta confiança com a doutora que marquei logo para não voltar atrás”, conta.

De acordo com a cirurgiã dentista Adriana Pereira, morder constantemente o interior das bochechas provoca, além do desconforto, a descamação das células da mucosa. “Essas células acabam ficando na cavidade oral e servindo de alimento para bactérias responsáveis pela geração de mau hálito e doença gengival. Em pacientes com este histórico, pode haver uma predisposição para doenças periodontais”, explica a especialista.

A publicitária Clara Milani fez um vídeo para compartilhar sua experiência e ajudar indecisos

O procedimento

A bichectomia dura cerca de 40 minutos e é comparada à cirurgia de extração dos sisos em níveis de complexidade e dificuldade de recuperação. As incisões, na parte interna das bochechas, têm de um a três centímetros, o suficiente para que o cirurgião possa puxar e retirar parte da bolsa de gordura.

Passado o período inicial de inchaço, cerca de uma semana, as mudanças começam a se tornar visíveis, mas o resultado final só pode ser considerado depois de seis meses da cirurgia. O esperado é o afinamento da face do paciente na área do contorno, o que ressalta as maçãs do rosto e a linha da mandíbula.

O preço é um dos fatores que impossibilita para muitas pessoas o sonho das bochechas mais finas e reforça a impressão de que a bichectomia seja uma cirurgia para celebridades. A operação pode chegar a 10 mil reais. Locais nos quais são ministrados cursos de especialização para cirurgiões geralmente oferecem cirurgias como essa por preços mais acessíveis, e têm se tornado uma alternativa. Realizá-la em consultórios odontológicos com anestesia local e o aumento do número de profissionais dentistas com capacitação para tal  contribuem para uma redução do preço, de acordo com Adriana Pereira.

O supervisor de informática Marcio Barros optou por fazer o procedimento aos 48 anos, após encontrar um lugar cujo preço cabia em seu orçamento. “Se não fosse isso, eu teria que me conformar em ser bochechudo mesmo”, conta Marcio, que considerou a cirurgia e o pós operatório tranquilos, e relatou um ganho de auto estima considerável.

Quem pode fazer?

A redução das bochechas não é recomendada para todos que querem um rosto mais fino. Em alguns casos, como o de Marcio, é necessário o tratamento associado com lipoaspiração facial ou o procedimento conhecido como lifting, para levantar a expressão.

Quando a insatisfação do paciente é com as maçãs do rosto também não há necessidade da bichectomia, que interfere apenas na parte lateral das bochechas. Ela também não é indicada nos casos em que a largura do rosto é originada pelo músculo masseter, responsável pela mastigação.

Ação da gravidade

O medo de ficar com a expressão caída ao envelhecer paira sobre quem hesita em fazer ou não a bichectomia. De modo geral, especialistas defendem que a ausência ou diminuição das bolas de Bichat não desempenham papel significativo no envelhecimento da face.

As bolsas de gordura das bochechas não passam por alterações de tamanho durante a vida, e não têm função estrutural ou de sustentação. Assim, fatores como a genética, hábitos de vida, perda das propriedades do colágeno da pele e da tonicidade muscular comuns com a passagem dos anos formam um conjunto de agravantes maior do que a retirada das bolsas.

 

Antes de optar pela bichectomia, é recomendável consultar um especialista para avaliar a necessidade e tirar dúvidas. Nesse processo, assim como antes de qualquer cirurgia, são pedidos exames que avaliam as condições de saúde do paciente e determinam a possibilidade de realizar o procedimento.

É o que está fazendo a operadora de telemarketing Andreia Marques, que está em fase de pesquisa de possíveis cirurgiões. Suas motivações são as mesmas que as de Clara e Marcio: as bochechas grandes e as consequentes mordidas acidentais. Ela tem combatido a insegurança com a busca por informações. “Estou avaliando se o local é um centro especializado e se tem estrutura para a cirurgia, por mais simples que seja, além das questões de custo e resultado”, explica.

 

 

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