Paranaense cria plataforma que integra realidade virtual e planejamento urbano

A empreendedora é pioneira em nível mundial no uso dessa tecnologia na criação de soluções para o desenvolvimento saudável das cidades

Texto e fotografia de Cássia Ferreira

Bruna Paese é uma consultora de negócios ligada no 220V. Há cerca de um ano, ela foi desafiada por uma arquiteta a atrelar a tecnologia ao ramo imobiliário. Foi então que ela viu na Realidade Virtual, VR, uma nova oportunidade de negócios. A ideia surgiu como um serviço para vender apartamentos, algo parecido com o jogo The Sims, e acabou se transformando numa plataforma que integra urbanismo e gestão pública e privada no melhor estilo hightech: a Citse. 

Do serviço à plataforma, a ideia evoluiu durante o Hackathon da IBM, uma maratona de programação. O desafio era criar cidades do futuro que interagissem com o presente. Pensando nisso, o planejamento urbano tomou uma dimensão mais cívica e interativa, incluindo a transparência nas obras públicas e o papel de fiscalização dos cidadãos numa dinâmica de games. Bruna trouxe a ideia para sua empresa, a Art2City, e começou a pôr em prática os seus planos mirabolantes, em conjunto com mais quatro desenvolvedores. 

O usuário entra no jogo a partir do próprio site da Citse, sem necessidade de baixar um aplicativo. Equipado com o óculos de realidade virtual, ele entra na cidade escolhida e se depara com diversos desafios. Ao cumprir esses desafios, acumula pontos e produz dados que podem ser usados por órgãos públicos e privados no desenvolvimento saudável da cidade.

Para entender um pouco mais sobre essa ideia inovadora e pioneira que mistura Realidade Virtual e planejamento urbano num futuro nem tão distante, conversamos com a Bruna Paese. A Citse deve ser lançada para testes ainda este mês, e até o final do ano chegará a sete cidades paranaenses, incluindo Cascavel, cidade natal da empreendedora. Como ela mesma se descreve, Bruna é uma evangelizadora da realidade virtual e acredita nas soluções tecnológicas em prol da cidadania.

 

Jornal Comunicação (JC): Como vai funcionar a plataforma?

Bruna Paese (BP): A cidade é projetada em 3D, para criar essa experiência em realidade virtual, e funciona como uma espécie de jogo. A Citse é uma plataforma para motivar a população a interagir e participar do desenvolvimento da cidade. As pessoas têm desafios dentro do jogo, e ganham pontos que podem ser trocados por prêmios. Hoje, o maior problema de transparência que temos com poder público são as obras. Por que tem tanto desvio? 84% delas sofrem atraso, tanto as públicas como as privadas. E quando a gente fala de extrapolar o orçamento, esse número é ainda maior. É muito desperdício. A gente não tem ideia do quanto poderia ser melhor, mais rápido e mais eficiente. Então, a gente resolveu trazer essa dor por dentro da plataforma. É uma forma de incentivar um sentimento cívico, por ajudar a encontrar esses pontos falhos da administração pública.

 

JC: E por que usar a Realidade Virtual?

BP: É uma aposta difícil. Eu sou evangelizadora da VR no Brasil, e acredito que é um caminho sem volta. Todo nosso pensamento é focado em urbanismo e no mercado imobiliário, planejamento urbano e tudo mais. Por exemplo, podemos ajudar a reconstruir cidades destruídas por catástrofes ou guerras, como é o caso da Síria. Então, com a realidade virtual, além de você ter essa sensação de estar em Alepo, por exemplo, você ainda tema possibilidade de fazer reuniões lá. Por exemplo, você é uma arquiteta do Chile, nunca esteve em Alepo, como vai ajudar a reconstruir a cidade sem nem conhecer? Você consegue por meio da imersão da RV: coloca os óculos e de repente está conversando com outros arquitetos e urbanistas dentro de Alepo.

 

JC: Você pode dar um exemplo de como vão funcionar os desafios?

BP: Com a cidade mapeada em 3D, eu consigo fazer um desafio e chamar a população para resolver. Nós vamos abrir a Citse para que desenvolvedores de jogos do mundo inteiro criem desafios, como para achar focos de dengue e controlar o desmatamento. Além de estar ajudando a cidade, os jogadores podem ganhar prêmios. O jogador precisa do óculos de VR, o cardboard, que nós vamos distribuir. Esse cardboard é de papelão. Você coloca seu celular dentro e entra na Citse pela página da web mesmo, não precisa baixar aplicativo. Quando você abre a página, já pode ver a cidade, brincar e participar.

 

JC: E como vai funcionar a fiscalização?

BP: Dentro do processo de obras, tem vários fatores que causam atraso, como questões técnicas e orçamentárias. Mas muitas vezes o gestor de obra e a Prefeitura não conversam. E a gente entende que a população não tem o hábito de fiscalizar, porque não tem tanto acesso. Quantas vezes a gente vai lá no site da prefeitura para ver o que está acontecendo? A nossa proposta é fazer a população ter um engajamento maior. Então o jogador vai identificar esses problemas e nós vamos enviar uma mensagem para o gestor da obra perguntando por que isso está acontecendo. Como nossa plataforma não é só para a população, mas também para o gestor público, ele consegue ter esse contato. Nós queremos que todos recebam essa informação e que esse processo seja mais ágil e mais econômico.

 

JC: Como é feito o mapeamento da cidade?

BP: Tem algumas formas de fazer isso. Tem uma empresa que faz com drone, em 20 dias você tem toda a cidade mapeada. Tem também o Google Earth, em 3D, e o Google Street View, que é em foto. Uma das tecnologias que a gente está desenvolvendo lê a imagem e transforma ela em 3D, por meio da fotogrametria.

 

JC: Qual o valor do projeto? Vocês receberam algum tipo de apoio financeiro para colocar esse projeto em prática?

BP: O custo de implementação por cidade é 100 mil reais, já contemplando o envio do cardboard para algumas pessoas. Quem paga essa conta não é a cidade. Existem empresas interessadas nos benefícios da Citse, como a fiscalização de obras, e assim conseguimos juntar o bem público com o privado. Mas nesse início, a gente faz boostrapping, onde as próprias pessoas investem o seu tempo e seu dinheiro na execução. É mais difícil, mas é possível. E a gente também pretende fechar muitas parcerias.

 

JC: É uma parceria público-privado?

BP:  A ideia é que os players possam entrar em todas as obras públicas pelo menos. Obras privadas também vão poder usar a plataforma para divulgar seus trabalhos, mas é um desafio à parte. Mas a gente está incentivando uma parceria público-privada, porque funciona em muitos lugares do mundo. No fim das contas quem executa são empresas privadas, então não é só responsabilidade do governo.  

 

JC: De onde vem esse teu fascínio pela Realidade Virtual?

BP: Eu estou sendo muito questionada se estou apaixonada pela VR. Dizem que é um problema você ser apaixonado pela tecnologia, porque você fica cego naquilo.  Eu naturalmente sou uma pessoa apaixonada, eu me enfio de cabeça em tudo. Mas eu vi na realidade virtual uma possibilidade de melhorar o mundo que temos hoje. Nada mais do que isso. A gente testa novos mundos para melhorar o nosso. É por isso que eu sou tão encantada pela tecnologia.

 

JC: Você acha que podem surgir outras iniciativas parecidas com a Citse?

BP: Eu acredito que vão surgir muitas outras nessa linha sim. Por isso temos essa vontade de sermos pioneiros. Mas já temos novos lançamentos planejados, novas tecnologias, para que a Citse fique sempre à frente. Estamos querendo antecipar tendências. Então, sim, vão surgir várias. Mas a maioria das pessoas está pensando como aplicação. Por exemplo, estão fazendo muita campanha de vacinação para hospitais, campanha para vender um produto, e isso é prestação de serviço. O que nos difere na maioria das pessoas que fazem VR, principalmente no Brasil, é que estamos pensando na realidade virtual com plataforma, para que ela cresça sempre e inspire novos players a usarem a nossa cidade virtual.

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