Com 222 alunos estrangeiros, Curitiba busca alternativas para o ensino da língua portuguesa

Crianças haitianas representam 12,6% das matriculas, atrás apenas das japonesas (13,5%)

O número de crianças haitianas nas escolas municipais mais que dobrou em apenas um ano: de 11 em 2014 para 28 em 2015. Foto: Gustavo Queiroz
O número de crianças haitianas nas escolas municipais mais que dobrou em apenas um ano: de 11 em 2014 para 28 em 2015. Foto: Gustavo Queiroz

“Meu filho, que tem 10 anos de idade, conta que o professor dele é muito paciente”, começa José Alexis. “Às vezes, o professor escreve algo no caderno dele, e eu aprendo também”, confidencia o haitiano de 31 anos de idade, que deixou sua terra natal em 2014 para viver no Brasil, junto de Yolanda, com quem é casado. A família Alexis tem duas crianças: Jovens, com 10 anos de idade, e Joselanda, 5. Hoje eles moram no Butiatuvinha, uma bairro na fronteira de Curitiba com o município de Campo Magro.

Foi a Escola Municipal Vereador João Stival, no Butiatuvinha, que acolheu as crianças haitianas. Elas “ainda escutam mais do que falam, mas já conseguem compreender um pouco do que o professor ensina”. Em Curitiba, segundo dados da Secretaria Municipal da Educação (SME), 222 estudantes de 28 diferentes nacionalidades foram matriculados em 2015 nas escolas mantidas pela prefeitura. São os imigrantes japoneses que mais procuram o serviço, respondendo por 13,5% das vagas. Os haitianos, logo atrás, são 12,6% — mas há também argentinos, belgas, chineses, colombianos, espanhóis e franceses, por exemplo.

O número de crianças haitianas nas escolas municipais mais que dobrou em apenas um ano: eram 11 em 2014, depois 28 em 2015 (154%). No mesmo período, as matrículas de japoneses caíram de 41 para 30. Jovens e Joselanda Alexis são parte desses números e de outro mais: integram os 8 mil haitianos que vieram viver no Brasil, 4 mil deles só em Curitiba, segundo estimativas da Casa Latino Americana (Casla). O bairro onde a família Alexis vive hoje, o Butiatuvinha, onde metade dos refugiados fixou resdiência, já é chamado de “Pequeno Haiti” pela comunidade — antes reduto dos italianos emigrados para o Paraná. O maior desafio, e nisso concordam os pais e os funcionários da SME ouvidos pela reportagem, é a adaptação à língua portuguesa.

Acolhida às crianças estrangeiras

No Paraná, a inserção dos alunos estrangeiros na rede pública está amparada pela deliberação 9/2001 do Conselho Estadual de Educação. É mais fácil para os estudantes que emigram de países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai), cujo currículo é submetido a um processo de equivalência de disciplinas e, quando necessário, os alunos cursam matérias adicionais para complementar a formação. Já para estudantes dos demais países é feita análise caso a caso.

José Alexis disse para a reportagem que matricular os filhos na escola não foi um processo complicado. Auxiliado pela Pastoral do Migrante, foi encaminhado à Escola Municipal Vereador João Stival. A diretora da unidade de ensino, Denise Rutkoski, salienta que a maior dificuldade nesta etapa está, na verdade, na comunicação com a família estrangeira, que ainda não domina por completo a língua portuguesa.

Segundo Marcos Davel, coordenador do Departamento de Línguas Estrangeiras da SME, toda família estrangeira que procurar uma escola municipal para matricular seu filho, será acolhida. As secretarias dos colégios têm autonomia para dar continuidade ao processo. Ele informa que esse atendimento está divido em três momentos: a acolhida, a adaptação ao novo ambiente e a avaliação. Mas para Davel, a acolhida é o maior desafio. “Professores e educadores devem ter sensibilidade”, reforça, pois os costumes precisam ser conhecidos caso a caso, da língua à religião.

A diretora da Escola João Stival contou que eles tomam cuidados especiais, voltados para a socialização da criança estrangeira. Denise Rutkoski, por exemplo, coloca os novos alunos para sentar perto de crianças mais solidárias. O pai José Alexis conta que não tem medo de os filhos sofrerem preconceito dentro do colégio. “Os dois gostam muito de ir, jogam bola, brincam com os colegas. Para eles, é como no Haiti, a única diferença é que ainda não falam português direito”.

Adaptação demora 1 ano

Segundo dados de um relatório da Política de Acompanhamento de Alunos Estrangeiros nas Escolas da SME, dos 222 alunos de 2015, 38 não entendem ou entendem com dificuldade o português. E, disseram os especialistas, esse processo de adaptação pode levar de 2 a 14 meses — dependendo da resposta da criança ao processo de letramento. Para facilitar, Davel explica que utilizam “uma estratégia de imersão, com o aprendizado da língua junto às demais matérias curriculares”.

Uma das estratégias utilizadas, conta o coordenador do Departamento de Línguas Estrangeiras da SME o é colocar etiquetas nos objetos da sala de aula, além da classe ser ministrada fazendo uso máximo de gestos e imagens. “No começo, o aluno entrega a tarefa em branco. Depois, entrega desenhada. Na próxima, copiado de algum colega. Até que, por fim, consegue produzir as próprias respostas”, ele explica.

Projeto Haiti

Um projeto que auxilia o domínio da língua portuguesa também dentro de casa é o Projeto Haiti. Oferecido pela Secretaria Municipal da Educação, o projeto é responsável por ofertar curso instrumental de língua portuguesa para estrangeiros escolarizados, adultos, com carga horária de 60 horas e acompanhamento pedagógico.

O projeto surgiu em agosto de 2013, devido a uma demanda da Casa Latino Americana, que não tinha estrutura para ensinar português a tantos haitianos que chegavam a Curitiba. Atualmente, o curso conta com 79 alunos distribuídos em quatro turmas, concentrados, em sua maioria, na Escola Municipal Germano Paciornick com 55 estudantes. “Como estrangeiro, o importante é conseguir se comunicar”, aponta a coordenadora do projeto, Ciomara Amorelli.

José Alexis não teve oportunidade de participar do projeto, mas hoje se comunica com facilidade. “Aprendo guardando na cabeça as palavras que você fala”, explica. Hoje, depois de trabalhar na construção civil, está desempregado. Na semana em que a reportagem foi feita, ele tinha entrevista marcada numa empresa de serviços gerais — ramo em que Yolanda já trabalha. O Projeto Haiti, além de facilitar a língua portuguesa, ajuda na entrada do mercado de trabalho.

Uma olhada mais cuidadosa no perfil do curso também ajuda a compreender essa migração, cada vez mais feminina. Em 2013, o Projeto Haiti atendia duas mulheres. Já em 2014 foram 36. Contudo, o número ainda é baixo. “Infelizmente a prospecção é muito difícil, não temos orçamento ou estrutura nem mesmo para ampliar a divulgação”, explica Ciomara Amorelli.

Chegada no Brasil

A República do Haiti, com seus 10 milhões de habitantes distribuídos em um território do tamanho de Alagoas, tem quase 20% da população vivendo na capital, Porto Príncipe. É uma hiper concentração demográfica, com duas vezes mais habitantes por km² que a cidade de São Paulo. Além de uma expectativa de vida 14 anos menor que a brasileira e uma taxa de mortalidade infantil quatro vezes maior.

Desde 2010, o Haiti enfrenta uma grande crise migratória, resultante de fatores políticos, econômicos e sociais complicados. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Brasil emitiu, até julho de 2015, 26 mil vistos humanitários para imigrantes de lá. A família Alexis chegou no Brasil pelo Amazonas. “Estava em Manaus, mas meus amigos falaram que o salário aqui era R$ 300 reais. Vim na hora”, afirma. Em 2015, segundo o Ministério da Justiça, o Brasil emitiu mais 48 mil carteiras de trabalho para imigrantes, 40% delas para haitianos.

Mesmo com o salário melhor, José afirma que as condições de vida para os haitianos na capital paranaense não são boas. “O aluguel de uma casa custa mais caro para um haitiano que para um brasileiro. O custo de vida aumentou muito e está ficando difícil morar no Brasil”, ressalta. Ainda assim, não se vê voltando ao país de origem. “Quase fui embora [do Brasil] semana passada, tem muitos haitianos indo morar no Chile agora. Mas voltar pro Haiti não é uma opção”, conclui.

Para a diretora da Escola Municipal Vereador João Stival, é importante destacar também os ganhos que têm a escola com a presença de pessoas de outros países, com a vibração cultural que o estrangeiro desperta. “As crianças são sempre muito curiosas. Até mesmo os penteados que as mães haitianas fazem nas crianças estimulam a vontade em outros de fazer também”, conclui Denise Rutkoski.

A família Alexis não quis posar para a fotografia que ilustraria essa reportagem — e nós respeitamos isso.

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