Concerto “Todas as manhãs do mundo” resgata a essência da música barroca

O período barroco, marcado pela extravagância e complexidade no âmbito das artes, assim foi nomeado como uma espécie de crítica dos neoclassicistas aos excessos cometidos nas obras do século XVII — o termo tem origem no vocábulo português que significa pérola irregular. Na música, contrapontos e tons dissonantes caracterizam o estilo que deu à música instrumental a relevância que apenas o vocal possuía.

Com o tempo, porém, a música erudita trilhou outros rumos: “O romantismo do século XIX contaminou os ouvidos atuais com uma outra abordagem”, é o que afirma Silvana Scarinci, professora do Departamento de Artes da UFPR e estudiosa de música do século XVII, que apresentou na última semana o espetáculo de música barroca “Todas as manhãs do mundo”, na Capela Santa Maria.

Um espetáculo multimídia

O título remete ao livro de Pascal Quignard, “Tous les matins du monde”, que originou o filme homônimo e trata da relação do músico Senhor de Sainte-Colombe e seu discípulo Marin Marais, compositor e gambista do século XVII — personagens reais que fizeram história na música barroca. A apresentação, idealizada por Silvana Scarinci e Mario Sagayama, pesquisador de Literatura, juntou a performance de músicas do filme com a narração de “O nome na ponta da língua”, conto de Pascal Quignard, além de um toque multimídia: barras de led coloridas que ajudaram a narrar a história, tão cheia de imagens.

“Um pouco da nossa preocupação é que podia ser uma coisa muito maçante, um concerto desses com leitura de texto tradicional”, diz Matheus Leston músico, artista e produtor musical responsável pela iluminação. "A ideia também era de que a ligação entre a música e o texto ficaria um pouco perdida se não tivesse nada ajudando a fazer essa relação”, completa. (Créditos: Monique Portela)
“Um pouco da nossa preocupação é que podia ser uma coisa muito maçante, um concerto desses com leitura de texto tradicional”, diz Matheus Leston músico, artista e produtor musical responsável pela iluminação. “A ideia também era de que a ligação entre a música e o texto ficaria um pouco perdida se não tivesse nada ajudando a fazer essa relação”, completa. (Foto: Monique Portela)

A proposta de resgatar a música barroca em um contexto já tão contaminado pelas características do período romântico, em especial o virtuosismo, é exatamente retomar a ideia de que o artista está em função da música, e não o contrário. “Até meados do século XX se fazia música barroca com esse espírito do gênio, do grande virtuose”, explica Scarinci. “Agora a gente tem que limpar esse lixo mental para conseguir tocar como se acredita que se tocava na época, quando o artista era um mero veículo para passar ao público toda a emoção que está na música”, completa a musicista, que na apresentação toca teorba ao lado de Hans Twitchell (viola da gamba) e Luiz Henrique Fiaminghi (violino barroco).

Na magnitude da Capela Santa Maria, a música somou-se perfeitamente à história e à iluminação — as pouquíssimas pessoas que participaram do ensaio aberto ocorrido na tarde do dia 28 de abril, puderam contemplar uma apresentação exclusiva. No palco, viu-se o verdadeiro espírito da música barroca: os três músicos dividiram o espaço com uma caixa de som, posicionada em uma cadeira como se fosse um dos músicos, evidenciando que o foco está na música e não no artista. Da caixa era narrada, nas vozes de Leda Cartum e Mario Sagayama, a história da jovem bordadeira que, para casar-se com o homem que ama, faz um pacto com o diabo: Heidebic de Hel, nome que não deveria ser esquecido pela jovem durante um ano — caso contrário, ela teria de casar-se com ele.

“A música do barroco não tinha essa função de expor, não era uma música confessional da intimidade do intérprete. Era a música acima do intérprete”, diz Scarinci. (Créditos: Monique Portela)
“A música do barroco não tinha essa função de expor, não era uma música confessional da intimidade do intérprete. Era a música acima do intérprete”, diz Scarinci. (Foto: Monique Portela)

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