Conheça Nanci, mulher de riso fácil, professora de cálculo e pesquisadora de gênero

A professora saiu da zona rural para se tornar destaque na área de pesquisa em gênero, trabalho, ciência e tecnologia

Texto de Rebeca Bembem | Fotos de Daniel Kei Namise

Cheia de sorrisos é a melhor forma de descrever a professora da UTFPR, Nanci Stancki da Luz (Foto: Daniel Kei Namise).

Nanci Stancki da Luz, de 51 anos, é professora há mais de 30. Formada em Matemática pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), hoje dá aula de cálculo diferencial e integral na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), onde atua desde 1992. No entanto, suas habilidades vão muito além das ciências exatas: ela também cursou direito e é pesquisadora das questões de gênero e de suas relações com o trabalho, a ciência e a tecnologia. A inteligência de Nanci transita entre áreas muito diferentes com facilidade. “Faço muitas coisas ao mesmo tempo”, ela diz, com uma leve risada.

Nanci é visivelmente apaixonada pelo que faz. Já poderia estar aposentada depois de 30 anos de magistério, mas prefere continuar trabalhando, porque sua profissão é uma das muitas coisas que a fazem feliz. “Eu trabalho e não sofro”, desabafa. Ela é alegre, receptiva e determinada, além de muito ocupada. Sua lista de atribuições incluem a coordenação do Programa de Pós-graduação em Tecnologia e Sociedade da UTFPR (PPGTE), participação na Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a coordenação do Núcleo de Gênero e Tecnologia da UTFPR,  e muitas outras atividades que ela realiza com desenvoltura e prazer.

Dedicação é uma das palavras que definem o trabalho de Nanci (Foto: Daniel Kei Namise).

As unhas bem feitas e pintadas de nude de Nanci apresentam uma mulher vaidosa, mas não extravagante. Ela mexe as mãos enquanto fala e parece separar seu pensamento em blocos esquematizados, como uma perfeita matemática. A escolha de Nanci pelos números veio pelo desejo de ser professora. “Eu gostava muito e me saía bem”, confessa. Ela foi a primeira da família a ingressar no ensino superior. Veio da “roça”, como ela mesma coloca: da zona rural de São João do Triunfo, no interior do Paraná. Sua família foi uma das fundadoras de Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba, para onde ela se mudou quando tinha 3 anos de idade. Vive lá até hoje, e guarda na memória a alegria de seus pais por ter conseguido estudar, já que eles mal tiveram essa oportunidade.

As conquistas de Nanci são todas dela. Desde o ensino médio, ela já trabalhava em um período e estudava em outro: precisava do dinheiro e não abria mão do estudo de jeito nenhum. Começou como caixa de loja e logo já estava no setor de custos de uma empresa maior – os números não eram problema. Durante o curso superior de Matemática, surgiram oportunidades de trabalhar como professora, ofício que ela nunca mais largou. Passou por escolas estaduais, privadas e pela prefeitura de Piraquara até chegar à UTFPR, que tem a sorte de abrigar seu conhecimento atualmente.

Ao ver Nanci escrevendo na lousa, fica evidente a paixão pela profissão (Foto: Daniel Kei Namise).

O interesse de Nanci pelos estudos de gênero veio inicialmente por conta de sua militância política, que ela nunca abandonou. Participou do Movimento Popular de Mulheres do Paraná, na década de 1980, foi da Pastoral Operária e duas vezes presidente da Seção Sindical dos Docentes da UTFPR (SINDUTF). Em 2016, foi a primeira mulher a se candidatar reitora na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Não ganhou, mas levou um número de votos muito próximo ao do vencedor.

Perceber que as pessoas acreditaram nas suas propostas foi mais um motivo de felicidade para uma mulher que não precisa de muito para se alegrar. Nanci se sente realizada quando percebe que contribuiu para aquilo em que acredita. Isso inclui as atividades sindicais bem sucedidas, mas também os estudos sobre divisão sexual do trabalho.

Carinho é o que se sente ao ver mãe e filho juntos. Na foto, a professora Nanci Stancki e Rodolfo Stancki (Foto: Daniel Kei Namise).

Para Nanci, o objetivo maior de suas pesquisas é contribuir para a felicidade das pessoas que podem se beneficiar delas. A professora cursou direito entre 2006 e 2010, mas seus estudos nas questões de gênero são bem anteriores e foram aprofundados em seu mestrado e doutorado. No primeiro, ela estudou a desigualdade entre homens e mulheres dentro dos cursos de formação superior. Já no segundo, seu foco foram as diferenças sexuais no trabalho. Nanci conta que buscou entender – e o faz até hoje – como funcionam os mecanismos de desigualdade de gênero e como eles acabam se naturalizando. Além de, é claro, como interferir nessa situação.

A trajetória de vida de Nanci tem muito a dizer sobre o assunto: ela se casou muito jovem e, no último ano de faculdade, teve um filho. Rodou por todas as creches da cidade e não conseguiu uma vaga para o pequeno. Como não podia deixar de trabalhar nem de estudar, contava com a ajuda da mãe e da sogra para cuidar da criança. Ela diz que foi difícil conciliar tudo com a maternidade, e ressalta que esse é um desafio pelo qual passam muitas mulheres, que ainda são sobrecarregadas pelas tarefas domésticas. Trazer a discussão sobre os direitos dessas mulheres e melhorar suas condições de vida é o que motiva o trabalho da professora.

“Descobri que chamavam esses bancos de ‘queijinhos’ em uma conversa com meus alunos”, recorda Nanci (Foto: Daniel Kei Namise).

A profissão dela faz parte de sua identidade: ela é mulher, mãe, pesquisadora e professora. Hoje, com o filho já casado, ela diz viver do trabalho, que é, além de seu sustento, uma realização pessoal. Nanci se define como educadora, porque é assim que se vê e quer ser vista. Ela diz ser feliz por muitas coisas: gosta de aprender algo novo, se superar, viajar, conversar. É também feliz por ter construído uma família onde pode acolher e ser acolhida.

Sobre sua personalidade no trabalho e em casa, Nanci diz que é melhor conversar com quem convive com ela. O filho, Rodolfo Stancki, esclarece: é uma mãe muito carinhosa, brava quando precisa e, como não poderia deixar de ser, trabalha muito. A Nanci mãe e vovó deixou marcas na professora. Como esposa, também não deixa de lado o que lhe é caro: ela e o marido discutem sobre quem vai lavar a louça. Apesar de sustentar que um grande desafio de ser professora é não levar trabalho para casa, ela abre uma exceção para as pesquisas que faz sobre desigualdade de gênero.

Até nas conversas sérias Nanci não perde o bom humor. É difícil não ser contagiado pela alegria dela (Foto: Daniel Kei Namise).

No dia 3 de maio, Nanci lançou, em parceria com uma colega, uma série de quatro livros sobre “Gênero e diversidades”. Os livros são fruto de discussões realizadas em um projeto de extensão da UTFPR e têm o objetivo de democratizar o conhecimento produzido nesse espaço e permitir o acesso da sociedade às pesquisas de gênero desenvolvidas na universidade. Os livros foram produzidos pela editora universitária e estão sendo distribuídos gratuitamente. Nanci espera, com seus estudos, fazer a diferença na vida de pessoas que vivem em fragilidade: “essas reflexões deveriam contribuir para que as pessoas repensassem”, pondera.

Segundo a professora, a participação feminina na pesquisa científica melhorou nos últimos anos, mas o problema está nas áreas em que as mulheres se situam, que ainda são restritas. “Embora pareça que a igualdade foi atingida, ainda é preciso trabalhar muito para que todos e todas tenham acesso às mesmas coisas”, ela diz. “Se as mulheres são a maior parte no ensino superior, as mulheres negras não são, as mulheres pobres talvez não sejam”, argumenta. Para ela, houve avanços, mas ainda há muito a ser feito. Nanci sustenta que as políticas afirmativas são essenciais, mas dependem de representação feminina na política, que ainda é muito pequena.

Nanci Stancki da Luz é uma mulher que empenha todas as suas energias para construir um mundo melhor. Cheia de esperança e força de vontade, ela se multiplica para dar conta de tudo que deseja transformar. Não reclama, mas sempre agradece – tira facilmente um sorriso de quem quer que passe por ela. A professora é daquelas pessoas que inspiram quem tem a sorte de conviver com ela, dentro ou fora da sala de aula. Se o objetivo de seus esforços é contribuir para a felicidade dos outros, Nanci com certeza já o alcançou, e ainda alcançará muitas outras vezes.

Existem muitas coisas que a fazem feliz, o pequeno jardim da UTFPR é uma delas (Foto: Daniel Kei Namise).

 

 

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