Cuidar da própria vida inclui poder optar pelo fim dela?

Nem sempre suicídio é motivado por bullying ou distúrbios psicológicos: em casos de suicídio assistido, a decisão é avaliada e planejada previamente

Por Mariana Toy

Com o sucesso da série 13 Reasons Why, da Netflix, e o polêmico jogo da Baleia Azul, o suicídio voltou a ser um tema bastante discutido em todo o mundo. Ambos alavancaram uma discussão sobre como identificar pensamentos suicidas e impedir que alguém tire a própria vida. Por outro lado, existe o suicídio assistido, processo em que, além de a própria pessoa optar por encerrar sua vida, a decisão é analisada e aprovada por psicólogos, psiquiatras e médicos. Dessa forma, torna-se um episódio pré-planejado e já esperado por familiares e amigos.

A realização do processo, bem como as condições para que ele ocorra, varia de acordo com o país. Dentre os países onde é permitido optar pelo suicídio, os mais conhecidos são a Suíça, a Holanda e a Bélgica. O Brasil, país altamente religioso, proíbe o ato de “induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça”, segundo o artigo 122 do Código Penal. No último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 64,6% da população brasileira afirmou ser católica e 22,2% evangélica. De acordo com os princípios dessas religiões, somente Deus tem o poder de fazer morrer ou fazer viver. Direta ou indiretamente, é um fato que influencia a não-permissão do suicídio assistido no Brasil.

A organização privada Exit é a mais conhecida por realizar o suicídio assistido na Suíça (foto Creative Commons)

No entanto, a religião não é o único fator decisivo para a proibição do processo no Brasil. Existe um enorme debate acerca do assunto. De um lado, há aqueles que apoiam a decisão de permitir que cada um decida o rumo da própria vida. Do outro, acredita-se ser um ato egoísta e, muitas vezes, covarde. É irônico julgar essa escolha como egoísta, pois, na maioria das vezes, o argumento é: “pense na tristeza da família e dos amigos que serão deixados para trás”. Dessa forma, os entes queridos acabam pensando apenas em si mesmos quando afirmam que alguém deveria continuar lutando penosamente contra uma dor por existirem pessoas que o amam.

Como funciona o processo

Suicídio assistido não é uma decisão tomada de um dia para o outro e não pode ser realizado por motivos superficiais. Apesar de variar conforme a legislação de cada país, geralmente é preciso que o indivíduo possua uma doença terminal, invalidez por idade ou condição crônica, na qual possui dores e incômodos contínuos e sem cura. O paciente passa por exames médicos e psicológicos para classificá-lo como apto para tomar a decisão. A adolescente suíça Ursula Renggli afirma que, em seu país, discute-se o assunto nas escolas assim que os jovens entram no ensino médio, não sendo um tabu entre a maior parte dos adultos. “A ideia do suicídio assistido é bem vista na Suíça, pois significa que alguém que está sofrendo muito, poderá acabar com a dor de forma tranquila e controlada”, conta a jovem.

Possuir uma condição de vida na qual a existência depende de máquinas ou auxílio contínuo de terceiros é doloroso. O indivíduo praticamente não vive mais, apenas sobrevive. Permitir que a decisão do suicídio assistido seja levada em frente é, de certa forma, uma demonstração de amor e respeito. Mariel Heyboer é holandesa e conta ao Jornal Comunicação que sua avó paterna, que sofria com um câncer no pulmão, lutava contra o rápido decaimento de sua qualidade de vida e acabou optando pelo suicídio assistido, recebendo total apoio dos médicos e familiares. “Isso não só possibilitou que ela parasse de sofrer, como também me proporcionou a chance de conversar com ela pela última vez e poder me despedir como eu realmente gostaria”, relata Mariel.

“Não há sentido em continuar vivendo se isso significa que terá que sofrer e sentir dores, às vezes, insuportáveis. É uma filosofia que representa algo que a Suíça defende” afirma Ursula Renggli (foto Creative Commons)

Segundo o Artigo 56º do Código de Ética da Associação Médica Brasileira, “O médico tem o dever de tudo fazer para aliviar o sofrimento do seu doente, jamais chegará, porém, ao excesso, de contribuir, pela ação ou pelo conselho, para antecipar a morte de seu paciente”. Apesar de precisarem seguir o Código e serem formados para sempre fazer o possível para salvarem as pessoas, os médicos lidam com nascimentos, mortes e sofrimentos causados por doenças constantemente, por isso sabem que, às vezes, encerrar a vida é um alívio. É preciso haver empatia para compreender que não é uma desistência da vida, mas, sim, o último desejo para encerrar a vida com paz e dignidade.

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