Curitiba nua e crua: uma tarde de fotografia na cidade

E como a loucura cotidiana nos impede de enxergar aquilo de mais bonito que está diante dos nossos olhos

Por Gabriel Muxfeldt

O trabalho que deu origem a esta série fotográfica surgiu em sala de aula, como uma proposta de atividade acadêmica. A ideia seria fazer um ensaio de cinco fotografias sobre um determinado tema, aquele que lhe parecesse mais pertinente. O caos do final do semestre, provas e trabalhos acumulados, além de outras ocupações extra-acadêmicas, são alguns dos fatores que levaram-me a chegar, de uma forma apressada e um tanto quanto inconsciente, no tema da “invisibilidade” social – explicarei o porquê das aspas mais adiante.

A proposta inicial da atividade seria a construção de um site, ou outra plataforma digital, para abrigar os ensaios dos cinco componentes de cada equipe. Como sempre, acabei deixando tudo para a última hora e o resultado foi a formação de uma dupla (que concordou em trabalhar com esse tema). Na tarde da última segunda-feira (27) saí para fotografar.

Do período das 13h às 17h30 percorri a pé, desde o Juvevê, todo o centro da cidade, fotografando pessoas aleatórias. No início, com a tendência de retratar aqueles tipicamente classificados como marginalizados (os desabrigados, catadores de recicláveis ou flanelinhas), percebi que tal análise não fazia tanto sentido assim. Essas pessoas são postas em situação de invisibilidade corriqueiramente, o que em tese, já as colocaria em alguma forma de evidência, ainda que não providenciando o apoio social necessário. Muitas delas são tratadas com desrespeito, preconceito, desumanidade e indiferença, mas o que tornaria uma pessoa de fato invisível aos olhos alheios? Não que não seja necessário lutar, também, pelos direitos destes, mas a análise vai por outro eixo.

Mudei, então, o foco da abordagem. Refletindo sobre o que poderia estar passando na cabeça daquela ou de outra pessoa, de onde elas vêm, qual sua família, trabalho, gosto musical ou qualquer outro aspecto da vida humana que às diz respeito, comecei a retratar pessoas com o objetivo de levar o espectador a refletir sobre tais questões.

Estamos no tempo da instantaneidade, em que as mensagens, informações, transações econômicas e quase tudo o que envolve a vida cotidiana, corre em bancos de dados, algoritmos e às pressas. Vivemos acelerados, estressados e ansiosos. Neste contexto, a impaciência, a insensatez e a indiferença ganham espaço. Não temos mais tempo para refletir, analisar ou pensar sozinho, sem que haja uma interrupção ou desvio de atenção. Não paramos mais para pensar em como a vida do outro se conecta com a nossa.

Nos camuflamos em nossas bolhas digitais e sociais e quase nunca escapamos dela. Mesmo com tantas vidas expostas nas redes, nos tornamos invisíveis a todos os outros na mesma medida em que não notamos sua presença no mundo, e vice-versa. É assim que nos tornamos tão isolados, assim como a falsa sensação da interconexão nos leva a acreditar em um mundo de interesse mútuo e vivacidade.

Cada ser humano é dotado de alegrias e tristezas, ambições e conquistas, medos e incertezas, sonhos e felicidades, boas e más recordações, que acabam sendo confinados no fundo do baú da memória de cada um. Portanto, as fotos que se seguem exprimem a vontade de levar o leitor a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida humana, de como ele se coloca no mundo e se relaciona com seus semelhantes. As imagens não possuem legendas para não direcionar o olhar ou o pensamento do observador. Seus títulos são uma reprodução da síntese mais simples a que seu significado pôde ser reduzido.

Higienização
Mais um cigarro
Amor de pai
De sol a sol
Reflexão
Caricaturas
Trabalho
Tranquilidade
Apelo
Alegria
A causa
Dignidade
À espera
Refeição
Anonimato
Uma cerveja antes do almoço
Pose
Próxima entrega
PLÁ

 

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