Da conversa à superação do luto

Grupo se reúne na UFPR semanalmente para falar sobre as perdas familiares
De acordo com os participantes, dar as mãos tem um significado: por uma mão se doa energia e por outra se recebe (Foto: Vinicius Fin Valginhak).

Por João Cubas e Vinicius Fin Valginhak

A morte é algo que não podemos modificar, mas podemos modificar nosso modo de pensar e atuar diante dela”. A frase faz parte da Oração da Serenidade, que é feita a cada início de encontro dos “Amigos Solidários na Dor do Luto”, um grupo que se reúne uma vez por semana, no Prédio Histórico da UFPR, para trazer à tona as memórias daqueles que já se foram.

Os encontros acontecem às segundas-feiras, e são organizados por pessoas da comunidade. A aposentada Zelinda de Bona é coordenadora do projeto desde 2001. Há 23 anos, seu neto faleceu em um acidente de carro. Desde então, ela e um grupo de cerca de 20 pessoas se dispõe a falar e ouvir de suas dores. “Todos nós temos essa necessidade de colocar a tristeza para fora. Nosso maior milagre é essa escuta, essa humildade”, reconhece.

A partir de 2010, um grupo de estudantes de psicologia e as professoras Maria Virginia Cremasco e Joanneliese de Lucas Freitas – que estudam o tema- se juntaram ao projeto. Passaram a orientar pesquisas acadêmicas sobre o luto e dar suporte individualizado às pessoas que frequentam os encontros,  quando necessário.

A solidariedade é o que une os participantes. Maria Virgínia explica que, numa roda de conversa, cada integrante se apresenta e reconta a sua história, do jeito e no tempo que preferir. “É um contar que se repete, que se altera a cada semana. Neste desgaste das palavras, acaba acontecendo algo diferente e a interpretação da dor se modifica”. A partir disso, os outros integrantes podem dialogar e contribuir com suas experiências.

Entre os participantes, estão jovens, adultos e idosos, mas principalmente mães. De acordo com Maria Virginia, são elas que permanecem mais tempo no grupo e voltam sempre para ajudar quem passou pelo mesmo problema. O luto de uma mãe nunca cessa, e episódios como aniversários ou julgamento de criminosos (quando a morte é violenta) provocam recaídas. É aí que surge o papel do grupo, de amparar. Algo parecido aconteceu com Zelinda. Depois de dez anos de relacionamento, seu companheiro faleceu ano passado. “Eu passei muito mal e essas pessoas me carregaram no colo”, desabafa.

Pelos “Amigos Solidários na Dor do Luto” já passaram mais de 1200 pessoas. O sucesso da dinâmica foi tanto que outros grupos similares foram criados no bairro Mercês, em São José dos Pinhais, e até em outros estados. Apesar da presença da oração no início do encontro, o grupo não é religioso e aceita qualquer um que se disponha a dividir seu sentimento com os demais, sem inscrição prévia.

Os participantes revelam que nas reuniões podem conversar livremente sobre suas perdas, pois muitas vezes os amigos e parentes não conseguem ouví-los depois de um certo tempo (Foto: Vinicius Fin Valginhak).

Só vai entender quem viveu, e isso é normal

A professora do curso de Psicologia da UFPR, Joanneliese de Lucas Freitas, explica que, no primeiro momento após a perda do ente querido, as pessoas estão encontrando suas defesas. Só depois de algum tempo conseguem conversar sobre a dor ou pensar sobre ela. “Falar sobre a morte é um tabu. Por isso, é importante ter este espaço para reflexão e ressignificação deste sentimento”.

Tanto os participantes quanto as professoras afirmam que só pode entender o luto quem o viveu. “Há o senso comum em se pensar que as pessoas vão voltar à vida como eram antes da perda, porém isso não é verdade. Elas apenas passam a conviver com a saudade”, explica Joanneliese. Ela ainda completa que ficar triste e chorar é normal. A busca deve ser por um olhar de normalidade sobre a dor.

É o que conta a estudante Paola Côrtes, que perdeu a avó em 2012 e o tio oito meses depois. “A gente aprende a conviver com a dor”, sintetiza. Paola busca nos estudos a saída para enfrentar as perdas. Depois de terminar o curso de secretariado na UFPR, ela se prepara para tentar o vestibular de medicina. “Quero ser a médica que a minha avó não teve”.

Já a jornalista Ana Lúcia Superchinski, que perdeu o pai há três meses, encontra em pessoas próximas e na arte um modo de superar essa ausência. Ela tem uma amiga com quem conversa semanalmente, faz terapia e aulas de teatro na Companhia da UFPR. Ana Lúcia participa das reuniões na Santos Andrade desde o início do mês, mas por enquanto, tem-se dedicado à escuta. “Preciso ouvir como as outras pessoas estão superando o luto, pois vejo que aqui encontro exemplos”.

A morte tem uma dimensão devastadora nas pessoas. Porém, falar sobre o tema pode transformar o sentido desses acontecimentos. “Quanto mais espaços para lidar com a morte no nosso cotidiano, é melhor. Quanto mais pudermos socializar e ressignificar nossos sentimentos, melhor poderemos conviver com as perdas”, finaliza Joanneliese.

“A transformação dos dois lados: tanto dos profissionais que estudam o tema, quanto dos participantes, para os quais não há teoria. É isso que torna o grupo tão especial”, ressalta Maria Virginia Cremasco (Foto: Vinicius Fin Valginhak).

Serviço

“Amigos Solidários na Dor do Luto”

Encontros às segundas-feiras, às 14h30 na sala 118 do Prédio Histórico da UFPR, Praça Santos Andrade

Contato:(41) 99910-0879 ou 3252 5016 com Zelinda

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2 thoughts on “Da conversa à superação do luto

  1. Parabéns,pelos estudantes da UFPR, que estiveram no grupo,conversando e querendo saber mais sobre a importância do grupo, de Apólo ao luto…
    A matéria está excelente muito bem elaborado,agradecemos muito, pela divulgação do nosso apoio junto com as pessoas enlutadas.
    A magia do grupo e a acolhida,pois sabemos que não é facil se achegar em um grupo falar dos seus sentimentos e pedir ajuda..
    A dor de cada um e a dor maior. agradeço as mestre do projeto Maria Virginia e Joannelise..pelo apoio e o carinho que tem conosco..Obrigada,estamos lá tds as semanas acolhendo e escutando,essas pessoas, com o maior respeito e solidarieda..
    O que vc falou aqui no grupo fica aqui nestas quatro paredes,temos o maior respeito,pelas pessoas que chegam no nosso grupo…

  2. Agradecemos em nome do Grupo dos Amigos Solidários a entrevista e a divulgação do nosso trabalho junto à comunidade. Pois a dor compartilhada é dor amenizada.

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