Da luta ao luto: 29 de abril é um marco na educação paranaense

0

Um ano depois o sentimento é de injustiça, segundo a professora: “Não vou esquecer nunca, lembro muito dos detalhes daquela tarde”. (Foto: Larissa Abrão)

A história do Paraná foi marcada pelo dia 29 de abril de 2015. Enquanto milhares de pessoas protestavam contra o “pacotaço”, a polícia militar reprimia as manifestações com violência. O cenário caótico se instaurou na frente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), onde muitos professores estaduais lutavam para garantir seus direitos, dentre eles a professora de história Angela Alves Machado, do Colégio Estadual Professora Luiza Ross, na profissão há 21 anos. Em depoimento ao Jornal Comunicação ela conta como foi a experiência de viver este dia.

(…) Depoimento ao Jornal Comunicação

Minha primeira lembrança desse dia é o cenário de guerra: bomba, helicópteros sobrevoando, destruindo o acampamento que tinha na praça, cachorro, a roupa da choque intimidante toda preta. Os policiais com capacete, batendo no escudo com todo aquele barulho, aquela agitação.

Eu, professora de história, achava que isso em pleno 2015, num estado democrático de direito, jamais aconteceria. Pensava que tinha ficado na história do Brasil, no passado, na ditadura militar. Ficávamos perguntando “nossa, por que tudo isso? Será que eles estão achando que somos tão perigosos assim?”. O nosso sentimento, dos professores, era que ele (governador Beto Richa) estava nos tratando como criminosos.

No começo, eu estava perto da grade, que contornava o Palácio Iguaçu e a ALEP. Quando estávamos ali, conversávamos com os policiais, falávamos para eles que a previdência era deles também, estávamos só lutando pelos nossos direitos, sabíamos que eles estavam cumprindo ordens e que não precisavam usar violência.

Quando a grade foi rompida, eu estava numa situação que tinha que ir para frente mesmo. Pulei por cima da grade, passei por duas barreiras, na terceira os policiais me pegaram pelo braço, comigo esperneando pedindo para que me soltassem, para que não me machucassem, porque eu não sabia se eles iam me prender ou se iam me bater, e me levaram para o lado do palácio.

Acho que foi o ponto alto, com muita bomba, tiro e gás. Os policiais me deixaram ali, vi que eles não estavam mais me dando atenção e voltei para a rotatória da frente da prefeitura, que era onde o caminhão do sindicato estava. Nisso, os manifestantes resistiram, cantavam “ei polícia vai prender o Beto Richa” e “sem violência”.

Entrei na estação tubo e fiquei por um bom tempo. Foi onde vi as cenas mais chocantes. Vi eles batendo nas pessoas, atirando no rosto. Sentia bastante o efeito do gás, porque o tubo é uma estufa, mas em compensação eu não era atingida por balas nem estilhaços de bomba.

A polícia começou a avançar as barreiras, foram ganhando espaço e os manifestantes foram para mais perto da rotatória. Inclusive nos momentos finais com muitas bombas, porque eles queriam que os manifestantes saíssem da praça.

Continuei ali, só eu e um menino do ensino médio. Não o conhecia, mas o meu vinagre tinha acabado e ele me emprestou o dele. Em alguns momentos pensamos que íamos desmaiar de tanto gás. Os policiais queriam afastar uns meninos, que segundo eles eram black blocs, pois estavam com a camisa cobrindo parte do rosto. Eram tantas bombas de gás lacrimogêneo que chegava a balançar o tubo.

Quando chegaram policiais com armas na mão, eu e o menino estávamos ajoelhados no chão, indefesos. Eu disse “sou professora, mãe de três filhos, estou desarmada”, pensei que eles iam bater com a arma na minha cabeça. Com o menino foi ainda mais agressivo, foram direto no pescoço dele e colocaram a cabeça no chão direto. Falei “ele é meu aluno”, mas nos pegaram pelos braços e não vi mais o menino depois daquela hora, muito menos sei o seu nome. Comigo, passaram por trás do caminhão de choque e me soltaram do outro lado. Eles me mandaram correr.

Eu já tinha percebido que a imprensa toda estava ali, imaginei “agora eles não vão atirar nas minhas costas, aqui na frente das câmeras”. Foi quando fui na frente da tropa de choque e ajoelhei, pedi para que eles parassem com violência, que já tínhamos recuado. Provavelmente os policiais não me ouviram, a impressão é que eles estavam tão nervosos com aquela situação que não estavam ouvindo nada.

O efeito era de justamente mostrar pra eles que eu era uma professora indefesa, que não estava armada, não era Black bloc. Eu fiz questão de dizer “não sou da CUT, não sou do PT, só sou uma professora sindicalizada, não sou massa de manobra do sindicato”. Fui lá porque estava me sentindo ameaçada, os meus direitos estavam sendo votados dentro da ALEP e não podíamos ver o que os deputados faziam. Se é a casa do povo, por que não posso olhar nos olhos dos deputados e ver o que está sendo votado?

Saí de casa achando que novamente iríamos entrar na assembleia como entramos fevereiro, que dormiríamos lá, não a violência que teve. Era o meu futuro e dos meus filhos que estava em jogo, eu tinha que estar lá. Aquelas fotos mostram que eu estava querendo demonstrar para eles que sou mãe, cidadã, uma professora em busca dos meus direitos, não para levar bomba, tiro, gás e cacetada de quem quer que seja.

Quando encerrou a sessão e noticiaram que tinha sido confiscada a nossa previdência, fomos embora com a sensação de derrota por um lado, mas que lutamos até o final. Isso me motivou e me motiva sempre a ir pra rua lutar pelos meus direitos. É o que eu falo para os meus alunos e filhos “a gente tem sempre que lutar pelo que queremos, pelos nossos direitos, pelo que achamos justo”. Eu nunca ia me sentir bem se não estivesse lutando por tudo isso.

Derrotados por um lado, mas por outro, comigo mesma, eu saí feliz por achar que eles não me dobraram. Eu fui até o final. O que eu pude fazer, eu fiz. Essa foi a sensação.

Os dias seguintes

Um ano depois, as feridas não cicatrizaram. Foi muito marcante. O sentimento de injustiça pelo que aconteceu, pelo uso desproporcional do aparato militar que eles tinham, por ter sido confiscado algo que era direito nosso e pela justiça militar ter arquivado o processo dizendo que não houve excessos. O Fernando Francischini, que era secretário de segurança, foi para Brasília como deputado e para ele nada aconteceu, com o Beto Richa e os comandantes também não, e nós que pagamos a conta. Sem contar que todo o gasto que eles tiveram para fazer aquela operação militar, saiu do bolso do contribuinte. São vários sentimentos de injustiça: pelo acontecido, pela democracia, queríamos o diálogo e tivemos bomba.

O dia 29 de abril vai ser lembrado como um dia de luto na história da educação do Paraná. Lembrar de quem é Beto Richa, do secretário de segurança, dos deputados do camburão, não sei se por muitos anos. Vimos como as pessoas já esqueceram do Álvaro Dias (em 1988), já reelegeram ele. Eu espero que o governador pague na história, nas urnas ena justiça tudo o que ele fez para os servidores do Paraná.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *