Das antecipacões da ficção cientifica às intencionalidades da ciência

A relação entre ciência e ficção é mútua e tem consequências no mundo real

Por Cássia Ferreira

Você já parou para pensar sobre o impacto da ciência em nossas vidas e quais as perspectivas do uso das tecnologias no futuro? Provavelmente você deve ter lembrado de algum filme de ficção científica (FC), não é mesmo?

Trata-se de uma gama de possibilidades imaginadas sobre as potencialidades de progresso científico e as implicações sobre a vida e a sociedade. E apesar de conceber algo além ou paralelo ao real, são muitas as vezes que a ficção antecipou a ciência.

Podemos citar as viagens espaciais, os computadores, a videoconferência, a comunicação por satélite, o submarino, dentre outros exemplos presentes primeiro na literatura e posteriormente nos filmes sobre novas tecnologias que inspiraram a evolução científica. Mas, sob outro ponto de vista, não seria a ciência uma inspiração para ficção?

Ciência e ficção

O físico e professor da UFPR Júlio Ferreira explica que entre antecipações e inspirações, a relação entre ciência e ficção é mútua e que “a ficção científica nem sempre antecipa para estimular o progresso científico, mas antecipa a ciência para prevenir futuros abomináveis, justamente para que não aconteçam, como em Admirável mundo novo (1932), romance distópico de Aldous Huxley”, comenta.

Para ele, além das provisões, a FC também desperta o interesse pela ciência aplicada. Júlio cita sua própria trajetória profissional a exemplo disso, “começando pela Licenciatura em Física e, posteriormente, no mestrado e no doutorado em Educação, no estudo da relação entre linguagem, discurso e ensino de ciências, com ênfase na ficção científica”.

Júlio Ferreira sustenta que ainda é mais comum vermos a FC antecipando a ciência, e cita como exemplo o filme Interestelar (2014), no que diz respeito aos buracos negros e buracos de minhoca no universo, os quais são intensamente explorados pela ciência.  Para ele o filme antecipou “o que está no plano teórico, sustentado pela Teoria da Relatividade Geral”.

Já o físico formado pela USP, Marcos Paulo Oliveira, que concebe a ciência como “uma forma de ler o mundo”, a ficção científica tem como característica justamente fazer esta ponte, entre o que se tem hoje e o que se almeja ou teme no amanhã. “Ao vislumbrar onde se quer ou se teme chegar, está estabelecida a motivação, iniciada a dúvida, a semente do ceticismo, a intenção da pergunta e o deslumbramento”, explica Marcos.

Frame do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”

Da literatura ao cinema

A FC tem origem como gênero na literatura, tendo como marco o romance “Frankenstein”, de Mary Shelley em 1818. Júlio Ferreira considera que “O romance da autora britânica influenciou e ainda influencia a concepção dramática da relação criador-criatura presente nas obras contemporâneas”.

O que se pode constatar da relação mútua de inspiração entre ficção e realidade é a aplicação de conceitos que fazem sentido na teoria da ciência aplicada, uma vez que os autores são na sua maioria cientistas ou tem uma formação na área das ciências. Podemos citar alguns autores de títulos que posteriormente foram adaptados para filmes, como: Isaac Asimov, autor de “Eu Robô” (1939), que além de escritor era bioquímico; o físico e matemático Arthur C. Clarke, de “2001: Uma Odisseia no espaço” (1968); o cientista H. G. Wells, autor de “Guerra dos Mundos” (1897), o biólogo e cientista Aldous Huxley “Admirável Mundo Novo” (1932), o pesquisador Júlio Verne de “20 mil léguas submarinas” (1870), entre outros.

Alguns exemplos de livros de FC que foram adaptados ao cinema.

Para Marcos é muito importante a aplicação dos conceitos científicos na ficção, pois trazem um senso crítico para obra “A imaginação é o principal motor para se escrever, mais do que o conhecimento. Porém, ao olhar para o potencial dramático sem distinguir aquilo que é informação daquilo que é imaginação, há o perigo do obscurantismo e formas de histerias, principalmente sobre a forma de atuação da ciência e as consequências de uso”, afirma o pesquisador.

A partir daí, não só cinema, desde 1960/70, mas também cientistas e engenheiros do mundo todo que tem se apropriado dessas obras como fontes de inspiração, criando novas hipóteses, possibilidades, e concebendo transformações nas formas de interação com o mundo real. O professor Júlio ainda afirma que “no universo da ficção científica não se dão somente questionamentos a respeito dos conceitos, fenômenos e leis científicas, mas também acerca da própria essência da atividade científica e de seus impactos sociais”. Desta forma, o avanço tecnológico tem como consequência alterações nas relações sociais.

Os riscos dos avanços científicos

Contudo, é importante lembrar, como já disse o sociólogo francês Pierre Levy, que as tecnologias não são determinantes, e sim condicionantes. Por isso, entendemos que por maior potencial que a ciência possa desenvolver em termos de inovações, o uso destas dependerá da intencionalidade da comunidade científica ou de quem as detém. Júlio Ferreira sustenta em termos de apropriações científico-tecnológicas, durante a história surgiram diversos benefícios para a humanidade, como “a eletricidade, a internet, o tratamento do câncer, as energias ‘limpas’, etc.”. Mas, também aponta algumas ressalvas, “assim como temos o advento de armas nucleares, químicas e biológicas, entre outras monstruosidades”.

Marcos Paulo esclarece essa relação, “Toda tecnologia tem um ‘botão vermelho’ de redução de danos, autodestruição ou algo que o valha. Quem não tem esse tipo de controle é justamente o humano”.  Apesar do rumo incerto da chamada tecnociência, a FC propõe experimentações e tem “antecipando algumas dessas possíveis catástrofes, sem que elas aconteçam, de fato”, conclui Júlio.

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