Débora Sögur: quem é a estudante que descobriu o desvio de bolsas na UFPR

Ela gosta de contar histórias, não sonha em ser jornalista, mas pretende se formar ainda este ano

Por Camille Alves e Jessica Skroch

Em 2012, Débora passou em Jornalismo na Universidade Federal do Paraná. Sabia que queria Comunicação, mas não qual curso. Fez uma listinha de prós e contras e escolheu Jornalismo, pois era um desejo de criança e porque gostava de historinhas de detetive, estilo Sherlock Holmes. Mas não foi uma escolha por aspirações. Ainda assim, ela já dava pinta de jornalista antes de entrar na faculdade. Débora escrevia para a MTV e para o blog Ideia Fixa desde 2009, quando fazia Ciências Sociais. Os textos eram engraçados, curiosos e, mais importante: lidos. Isso era gratificante. Escrevia muito e bem, gostava de escrever. Adorou o primeiro ano da faculdade.

No segundo ano tudo desandou. Perdeu a habilidade e o prazer pela escrita. Era muito estressante realizar algumas pautas, ir atrás de certas fontes. Não estava mais conseguindo. Quando tentava, já imaginava o editor corrigindo o que não estava bom. Por isso, achou melhor não escrever mais. Débora não podia errar e por medo errava mais. Confirmava a própria falha e concluía: não sou boa nisso. Segundo ela, uma crítica ao texto é uma crítica ao autor. Assim, tornava as críticas pessoais. Passou a não entregar as reportagens do Jornal Comunicação (jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFPR), faltar algumas aulas e não fazer trabalhos. Em maio de 2013 precisou se afastar do curso por um pouco mais de um mês. Quando voltou, não conseguiu acompanhar e reprovou por faltas. Ficou desanimada e com a autoestima baixa. Dessa forma, entrou em estado de inércia. Nada se movia, nem para melhorar, nem para piorar. Débora teve um “piripaque”. E foi aí que o Jornalismo parecia começar a maltratá-la.

Em uma das reuniões do Jornal Comunicação, Débora arrumou confusão. No quebra-pau, até a chamaram de idiota. Apesar de tudo, ela insistiu. Tinha vontade de participar, fazer a diferença e melhorar o jornal. Ao mesmo tempo que ela se ausentava, persistia. Ficou dois anos frequentando algumas aulas e estudando por conta própria. Ela ia para a faculdade e ficava lá o dia todo, na biblioteca. Leu muito, escreveu pouco. Entrou para o Centro Acadêmico de Comunicação Social e ficou bem ocupada em 2014, quando as matrículas daqueles que já tinham passado no vestibular para o curso de Jornalismo foram suspensas. Entrava sem ser convocada nas reuniões do MEC, insistia em melhorias para o seu campus. No segundo semestre do mesmo ano, começou a pesquisa a respeito das irregularidades nas bolsas da UFPR. Ela tentava se afastar da universidade, mas estava sempre lá.

Débora não gosta de jornalismo. Ou ainda não sabe se gosta. “O texto jornalístico é muito chato de escrever e ler”, segundo ela. Adora contar histórias, perceber as pessoas que escutam interessadas e suas reações. Ela acredita que relatos são métodos de cura pelas conexões com as pessoas. Não considera que sua escrita seja boa e nunca acredita nos elogios que recebe. Além de histórias, Débora gosta de apostas, bolões, jogar baralho e fofocar sobre política (principalmente a Lava Jato).

Desistiu da universidade um ano antes. Mesmo detestando o curso, o campus, o currículo e o ambiente da faculdade, Débora tentou novamente o vestibular em 2016 para Jornalismo. E passou. Em meio a sua relação de amor e ódio, ela espera acabar o curso em 2017 e nunca mais trabalhar na área, e nem mais ler o site da Uol. Quer fazer concurso público para o Tribunal de Contas da União (TCU). Mas, bem no fundinho, gostaria de trabalhar em redação. Porém, isso não irá acontecer, porque ela estará ocupada sendo a “mulher mais concursada do Brasil”.

Research

Em 15 de fevereiro de 2017, a Gazeta do Povo publicou uma extensa reportagem detalhando um esquema de fraudes na concessão de bolsas na UFPR. Um desvio de mais de 7 milhões de reais. Débora foi quem descobriu o esquema em 2014. Olhar atento e feeling da jornalista que ela não quer ser. Através do Portal da Transparência, ela percebeu depósitos de valores anormais para alguns bolsistas. Curiosa, decidiu investigar. Não imaginava que fosse algo tão grande quanto realmente era e por isso não deu muita importância ao caso no início.

Em meio à crise de ansiedade e o desencanto pelo jornalismo, muitas coisas aconteceram na vida de Débora. Em abril de 2015, a Gazeta do Povo, junto com outros quatro jornais do país, publicou a série Universidade S.A., em que denunciou algumas irregularidades na concessão de bolsas em convênios na UFPR. Em dezembro, começou a correr o boato de que a Polícia Federal estava investigando fraudes em bolsas também na UFPR. A semelhança não foi mera coincidência. Débora percebeu que nas reportagens publicadas pela Gazeta havia alguns nomes que já tinha visto no portal, mas que passaram batido por ela. Sentiu-se incapaz. Resolveu entregar tudo o que havia descoberto para a Gazeta, mas não conseguiu. Decidiu continuar a apuração sozinha, não porque queria escrever a matéria, mas pelo interesse em desvendar aquele mistério.

Aprovada pela segunda vez no vestibular, em 2016, Débora quis mudar sua relação com a universidade e decidiu se dedicar à vida acadêmica. Águas passadas. No entanto, a apuração ficou de lado. Quando retomou as pesquisas, no final do ano, teve algumas surpresas. O TCU fez uma auditoria nas contas da Universidade e a Operação PDH da Polícia Federal, que investigava mais fraudes em bolsas, foi deflagrada no Rio Grande do Sul. Isso fez com que Débora quisesse apressar a publicação da matéria. A loba solitária se viu desesperada e sem saída. Já havia apurado tudo o que podia. Foi quando finalmente procurou o jornal Gazeta do Povo.

Débora diz que a produção da reportagem demorou muito mais por uma questão de não saber como ou onde publicá-la do que pela apuração em si. Ao contrário da maioria dos jornalistas, ela não vê dificuldade em ler mais de 300 páginas de despachos da Polícia Federal, selecionar nomes, estabelecer conexões entre as pessoas, ir até elas e conversar. No outro lado da moeda, a estudante simplesmente não consegue pegar tudo isso e “bater no liquidificador” para criar um texto.

A amante de histórias ficou muito tempo pensando em como contar a descoberta da melhor maneira. Junto com os jornalistas Kátia Brembatti e Raphael Marchiori, da Gazeta do Povo, Débora participou da construção da reportagem. A Operação Research da Polícia Federal – que investiga as irregularidades nas bolsas da UFPR – foi deflagrada no dia 15 de fevereiro. A matéria foi publicada às pressas no mesmo dia, para a decepção de Débora. Carta repetida, mais uma vez seus planos não saíram como o esperado. Mesmo assim, ela foi até uma banca comprar o jornal do dia para enviar à um amigo de Brasília guardar como recordação. Para a sua surpresa, os jornais já estavam esgotados. Se toda essa experiência a fez reacreditar no jornalismo? Não. Ela se mantém realista – e pessimista. Diz que as pessoas fantasiam muito sobre sua descoberta: “Na minha vida nada mudou”.

 

A estudante fez várias entrevistas para confirmar os desvios (Foto: Juliana Firmino)

Débora conta como foi apurar todos os fatos que geraram um dossiê de mais de 200 páginas (Foto: Juliana Firmino)

A estudante passa a maior parte dos dias na faculdade, estudando e trabalhando (Foto por: Juliana Firmino)

O caso rendeu uma reportagem original assinada por Débora (Foto: Juliana Firmino)

    Alguns dos documentos que provaram os esquemas de desvio foram retirados do portal da transparência da universidade (Foto: Juliana Firmino)

 

Sala no prédio Dom Pedro II da Reitoria UFPR onde passavam todos os documentos que liberavam o dinheiro do desvio (Foto: Juliana Firmino)

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