Deep web: a parcela (não tão) obscura da internet

Apesar de ser conhecida por oferecer conteúdos ilícitos e bizarros, a deep web também pode ser benigna e seu acesso é mais fácil do que se imagina

Por Mariana Toy

A internet é considerada um meio essencial e transformador da sociedade. Áreas como comunicação, entretenimento e economia, por exemplo, são incapazes de funcionar sem o auxílio de sites ou programas online. Mesmo sendo muito utilizada, a internet acessada pela maioria das pessoas é apenas uma pequena parcela de todo o espaço virtual existente. Além dela, existe uma parte “mais profunda” da rede conhecida como deep web. Apesar de ser conhecida como uma região obscura e repleta de crimes, conteúdos ilegais e vírus, a deep web apresenta um enorme mar de possibilidades positivas e vantajosas para o público.

Apesar de existirem discordâncias, entre 70 e 75% da internet está localizada na deep web. O número foi apontado pelo engenheiro de dados, Denis Shestakov, numa pesquisa realizada em 2008. Para fácil compreensão, a internet é comparada a um iceberg. A ponta representa a internet utilizada habitualmente e a parte submersa é a internet profunda, tradução literal de deep web. Os conteúdos existentes na deep web não são indexados pelos buscadores. Dessa forma, os sites só podem ser acessados por aqueles que possuem o link exato para direcioná-lo ao endereço. Não é uma realidade muito distante, já que tudo aquilo que não pode ser encontrado em sites de busca, como o Google, é considerado deep web. Então, e-mails do Gmail, mensagens diretas no Twitter e fotos postadas no Facebook e marcadas como privadas são alguns exemplos próximos de conteúdos da deep web.

Acessar a deep web não é ilegal. Existem navegadores específicos que permitem o acesso aos sites “ocultos”, como o The Onion Router (TOR), o Freenet e o I2P, por exemplo. De acordo com pesquisas realizadas pelo repórter do Olhar Digital Online, Leonardo Pereira, para desenvolver uma série de reportagens sobre a deep web, o The Onion Router foi desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisas da Marinha dos EUA, com o objetivo de estudar propostas de pesquisa, design e análise de sistemas anônimos de comunicação. Com o tempo, foi desenvolvida uma segunda versão desse projeto, que foi apelidada de TOR e liberada para o uso não-governamental. Onion, em inglês, significa cebola, e a escolha desse nome remete ao fato de a deep web possuir “camadas” de conteúdos com graus diferentes na facilidade de acesso, sendo que quanto mais profundas as camadas, mais bizarros são os conteúdos. Depois de baixar um desses navegadores, o usuário pode começar a navegar. Um dos sites mais acessados no início é a Hidden Wiki, que possui uma aparência semelhante à conhecida Wikipédia, a enciclopédia livre, e tem um menu inicial com tópicos para navegação.

O principal objetivo da criação da deep web é o anonimato. Cada computador possui um Protocolo de Internet (IP) único, que é sua identificação em uma rede local ou pública, e é o meio utilizado para a comunicação entre as máquinas. Enquanto na internet comum, ao acessar um site, o IP do computador é registrado assim que se conecta a um servidor, na deep web, uma rede de computadores cria uma ponte criptografada até o site, por isso é possível identificar a última máquina dessa ponte, mas não o usuário que acessou do primeiro computador. Pode haver troca de informações sem rastreamento, o que não ocorre na web utilizada no dia-a-dia, já que, nesta, tudo o que é acessado pode ser monitorado. Assim, a parcela anônima da internet é utilizada, também, por militares, jornalistas e policiais, além dos criminosos.

Na deep web, tanto o usuário quando o conteúdo acessado permanecem anônimos.

Na deep web, a maioria dos sites são em inglês, portanto é importante entender a língua caso queira acessá-la. Ademais, os layouts das páginas são bastante simples, considerando que o que mais importa é o material veiculado e não a aparência. Apesar de realmente possuir os conteúdos mais populares quando se fala de deep web, como pornografia infantil, necrofilia e canibalismo, ela também oferece inúmeros livros, músicas, filmes, jogos e artigos científicos para download grátis. É comum, também, que correspondentes internacionais se comuniquem com suas redações por meio da deep web quando estão em países como Irã, China e Coreia do Norte, onde o uso da internet convencional é controlado e limitado pelo governo, principalmente quando se trata de censurar jornalistas estrangeiros.

No Brasil, acessar a deep web é simples, permitido pela lei e, às vezes, até essencial. Tudo depende do conteúdo procurado ou veiculado. As recomendações feitas para o acesso são básicas: não converse com ninguém, cuidado com o que baixa e não clique em links suspeitos nem por curiosidade, eles podem não apresentar vírus, mas a deep web é aberta a todo tipo de conteúdo, então é possível que se entre em um território bastante desconfortável. O lado obscuro da internet pode ser bem aproveitado, tudo que existe na parcela tradicional, existe de forma mais extrema na parcela oculta, seja para o bem ou para o mal. Fica nas mãos do usuário saber utilizar as vantagens benignas desse recurso cheio de utilidades.

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