Ombudsman: Discutindo o conservadorismo

Antes do resto: é realmente uma honra participar de novo deste projeto. Formado na UFPR, também tive meus dias neste mesmo jornal laboratório. Na época, era só impresso e quase não rodava. Bom saber que vocês têm essa chance de testar a mão antes de ir para o mercado.

Antes do eu resta ainda: não me arrogo nenhuma sabedoria especial sobre o tema. Participo aqui apenas como um jornalista mais velho, que já teve mais tempo de apurar, de escrever e de pensar. O que vou fazer aqui são, no máximo, dicas. Temas para pensar. Se tanto.

E vamos ao dia. Ou no caso, a uma matéria específica. E nesta primeira semana, escolhi falar de uma matéria sobre política. Não por cobrir política, nem por me interessar muito pelo tema, mas porque a matéria é interessante, tanto no que tem de mérito quanto no que levanta de discussão.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Falo do texto sobre o conservadorismo no Parlamento e suas possíveis implicações sobre os direitos humanos. Pauta mais do que relevante que vem sendo aventada pelos veículos mais importantes do país, e que ainda vai dar muito samba. Basta ver o editorial “Submissão” da Folha de São Paulo neste domingo que passou.

O principal mérito da matéria, me parece, está na escolha da pauta. Na percepção de que aí existe um problema. Na intenção de discutir algo que afeta a comunidade universitária (como fica claro no texto) mas que extrapola essa fronteira. Falar da vida de vocês, de política e da vida social como um todo. Não é pouco. E não é fácil.

Não é fácil principalmente porque o tema é extenso. Basta ver tudo que se menciona num texto nem assim tão grande: a constituição do Parlamento; a formação das comissões de direitos humanos; a implicação disso nas discussões de direitos humanos; a mídia e sua influência política; a democracia; a história do entrevistado com direitos humanos; o caso específico ocorrido na UFPR; e haveria muito mais, evidentemente.

Mas assim como a boa escolha da pauta é um mérito, a seleção de um enfoque é igualmente importante. Um dos riscos de trabalhar com temas amplos é se perder em seus vários aspectos sem se aprofundar em nenhum. Por isso, uma dica seria sempre escolher uma pergunta, uma única pergunta, a ser respondida por cada texto.

Neste caso, por exemplo, me parece que a pergunta poderia ser: sendo que existe um aumento do conservadorismo no Parlamento (segundo o Diap), isso tem consequências para as votações relativas aos direitos humanos? Ou, por outra: Por que os conservadores (e seria preciso explicar quem são eles) são contra certas pautas que tem a ver com direitos humanos (e seria preciso explicar porque elas são importantes)?

No fundo, a vontade de falar de tudo ao mesmo tempo é compreensível: o mundo parece inteiro um enigma e queremos abraça-lo em uma foto. Mas imagens específicas ajudam mais a construir o quebra-cabeças. E quanto mais essa peça estiver burilada, melhor.

Vou insistir sempre na questão da profundidade. Que exige não só esse recorte como uma seleção de fontes e um conhecimento acumulado. O próprio departamento de Ciência Política da UFPR, por meio de seus professores, teria muito a contribuir com essa discussão: levantamentos sobre o Congresso, sobre votações, sobre temas que esperam votação. Dados, sempre dados, de preferência a opiniões. E opiniões, de preferência, com a maior qualificação possível.

Quanto ao acúmulo de informações, vem com o tempo. Nesse caso, inclui leituras sobre como funciona o Congresso. Sobre conservadorismo também. Às vezes, usamos essas palavras livremente, e só com o tempo vamos sabendo o que elas querem dizer especificamente. Fica aqui a dica: ler sobre o conservadorismo como ideologia, sobre Burke, por exemplo.

Claro, vocês estão começando a carreira, ou nem isso, ainda estão na fase pré-carreira. Não se trata, portanto, de uma crítica. Mas de uma leitura de alguém mais velho que pode ver algo que talvez passe batido para quem está começando.

Vocês começaram bem: discussões sobre política com temas de alta relevância e a preocupação mais do que elogiável com os direitos humanos. Como levar isso adiante? Respondo em uma palavra: aprofundamento.

 

Rogerio Waldrigues Galindo é jornalista formado pela UFPR e trabalha na Gazeta do Povo como repórter e colunista.

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