Do filé ao brócolis: o que aprendi sendo vegetariano por duas semanas

Vegetarianismo não é apenas uma questão de dieta, mas também um estilo de vida que denuncia as diferente formas de maus tratos aos animais e meio ambiente

Por Pedro Macedo

Sempre tive curiosidade em saber como é é ter o estilo de vida de um vegetariano. Eu reconhecia os benefícios que uma alimentação sem carne podia trazer para o organismo. Também acreditava que deveria ser uma vida difícil, com a necessidade de, por exemplo, tomar suplementos alimentares diariamente. Então, para entender os mitos e verdades sobre a dieta, experimentei ficar duas semanas sem carne nas minhas refeições.

A dieta requer dedicação. Prato da primeira refeição vegetariana que comi. Foto: Pedro Macedo.

Estudante da Universidade Federal do Paraná, tive o privilégio de contar com as três refeições servidas no Restaurante Universitário, o RU, da instituição de domingo a domingo.  Em um primeiro momento, optei por não parar de comer laticínios, mas reduzi ao máximo o consumo.

Antes de começar, é sempre bom frisar alguns termos e definições. O vegetarianismo é principalmente uma dieta sem qualquer tipo de carne, seja ela frango, bovina ou frutos do mar. Dentro do vegetarianismo pode-se classificar quatro outros tipos:

a) Ovolactovegetarianismo: dieta sem carne, mas que ainda contém laticínios e ovos;
b) Lactovegetarianismo: dieta com leite e derivados, sem ovos;
c) Ovovegetarianismo: com ovos, mas nenhum derivado de leite;
d) Vegetarianismo estrito: estilo de vida sem consumo de carne, ovos e os derivados de leite.

Há ainda vegetarianos que consomem o leite, ovos e derivados, desde que seja confirmado que o animal não tenha sofrido para produzir tais alimentos. Tem também o veganismo, que vai além da alimentação. Ou seja, os veganos não compram nem utilizam produtos de origem animal, como roupas de couro, produtos de higiene que fazem teste em animais e afins.

Primeira semana

Depois de algum tempo pesquisando sobre o vegetarianismo, começou a minha saga sem carne. A expectativa era grande para saber como meu corpo iria reagir, mas nada demais aconteceu. O primeiro dia foi extremamente normal e nada fora do comum. Imaginem que é como se fosse qualquer outro dia da semana na qual eu comi macarrão ao molho ou esqueci de fazer aquela compra no mercado. A opção vegana era grãos de feijão e estavam saborosas.

 

É importante manter uma alimentação balanceada, seja com ou sem carne, e variar o cardápio com diferentes cores. Foto: Pedro Macedo.

O segundo dia, no entanto, foi a hora de enfrentar meus desafios. A opção vegana no RU era brócolis e couve-flor. Dois vegetais que assombraram minha infância e não me saciavam de jeito nenhum. Porém, eu me forcei a comer, porque eu sabia que se eu não comesse, eu iria passar mal. Talvez aqui tenha se dado o início de um longo aprendizado sobre os vegetais. Eu experimentei todos os tipos de alimentos que eu poderia comer e quanto mais eu consumia, mais acostumado eu ficava. É como se meu paladar infantil estivesse aprendendo os sabores da culinária.

Comendo em intervalos menores

Outra coisa me chamou também me chamou atenção. Eu estava sentindo fome muito mais frequentemente. Eu almoçava e duas horas depois já roncava meu estômago. O mais interessante é o fato da percepção da diferença entre a fome e a famosa gula. Depois de almoçar, eu me sentia satisfeito, mas eu queria comer mais.

Apesar da grande quantidade de arroz e salada que eu colocava, eu ainda sentia fome. Mas não era uma fome normal, era fome de gula. Como se meu estômago estivesse necessitando de uma dose extra de proteína para poder passar horas no processo de digestão. Nos dias em que eu tinha uma refeição carnívora, eu passava muito tempo sem fome. Com a dieta ovolactovegetariana, eu comia, basicamente, de três em três horas, naturalmente.

Outra coisa que senti muita diferença foi na hora de usar o banheiro. Sei que parece grosseiro comentar sobre isso, mas com a alimentação diferenciada, ficou muito mais tranquilo ir ao banheiro fazer as necessidades humanas.

Reação dos meus amigos

O mais legal era a reação das pessoas ao ver que eu não estava comendo carne. Todo mundo com quem eu conversava ficava totalmente interessada em saber o processo e como eu tava me sentindo. Numa dessas conversas, uma amiga comentou falando que durante o mês em que ela deixou de comer carne, ela se sentia muito mais energética e menos cansada. Eu fiquei refletindo sobre aquilo. No final do dia foi quando eu comecei a perceber essa diferença.

Eu havia saído 7 horas da manhã de casa e chegado somente às 19 horas. Quase 12 horas fora de casa. E eu fiquei o dia todo animado e com energia. Só senti cansaço quando cheguei em casa. Não que ser vegetariano te transforme em um super herói, mas sabe aquele sono que você sente depois de almoçar? Eu simplesmente não senti. A primeira semana foi marcada de aprendizados e de percepções diferentes sobre como meu corpo estava agindo.

Da primeira para a segunda semana não senti muita diferença. Entendo perfeitamente que o seu corpo começa a sentir diferenças mais extremas depois de muito tempo sem carne. Mas na segunda semana, a carne não me fazia falta. Mas eu tinha medo da tentação.

Quem disse que vegetariano não pode ir em rodízio?

No dia 7 de outubro, minha amiga me convidou para seu aniversário em um rodízio de pizza e massas. Eu resolvi aceitar para não fazer a desfeita. Chegando ao local, das primeiras pizzas que chegaram, todas tinham carne. Minha amiga chamou a garçonete de lado e perguntou o que eu poderia comer, sendo que eu era vegetariano. Me deparei com uma expressão de choque e surpresa da funcionária que, imediatamente, falou para que eu não me preocupasse e que ela traria pizzas sem carne. Deu certo.

A noite inteira eu fui servido, de certa forma como um lorde, por pizzas com brócolis, palmito, diferentes tipos de queijos e outros alimentos sem carne. Além disso, eu virei atração na mesa, já que todo mundo perguntava como era ser vegetariano.

O que eu percebi naquela noite é que grande parte das pessoas, principalmente jovens, entendem a importância do vegetarianismo e do veganismo, mas elas não têm coragem. Todo mundo repete o mesmo discurso de que queria poder ajudar de alguma forma, mas que não consegue parar de comer carne.

Passei a enxergar a carne como uma droga que as pessoas querem largar mas não conseguem. Foi bem chocante e interessante perceber o tanto de pessoas que se importam com essa pauta, mas têm receio de não aguentar. Mas sabe, eu também tinha medo. Achei que se eu fosse no rodízio eu iria passar muita vontade, mas nem tanto. Naquela noite eu não senti nenhuma falta de carne.

Além do mais, foi bem interessante ver que existem lugares que se importam com essa pauta e conseguem atender as demandas diferentes dos clientes. Talvez o lugar não fosse ideal para veganos, mas andando pelo centro de Curitiba, você consegue achar cada vez mais restaurantes que servem comida vegana, como o Semente de Girassol.

Afinal, devo parar de comer carne?

Quando acabaram as duas semanas, eu voltei a comer carne. E preciso assumir que gostei. Mas a sensação que tive foi de recaída. Dois dias depois de voltar a comer carne, eu voltei a me sentir mais cansado e menos enérgico, e ainda apareceu uma quantidade enorme de espinhas na minha testa. Eu não posso provar cientificamente, mas levando em conta a experiência vivida, é muito engraçado como todos esses problemas apareceram logo depois de eu voltar a comer carne.

Mas o mais importante é a questão ética por trás de tudo isso. O mais importante é a forma como estamos criando um mercado de maus tratos aos animais.  Eu acredito que poderíamos consumir carne tranquilamente se as condições desses lugares onde os animais são colocados em cativeiro fossem, ao mínimo, mais aceitáveis.

Agora, eu penso em talvez me tornar vegetariano e passar a compor o time de pessoas que se alimentam de pão de alho nos churrascos de família. Mas até a decisão ser definitiva, pretendo diminuir o consumo de carne. Você pode gostar de carne, mas não deixe de discutir esses assuntos e nem de repensar na situação de onde sua comida veio. Comer um filé mignon pode ser muito bom, mas você já tentou brócolis grelhado?

 

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