Doar órgãos é salvar e fazer parte da vida de outro

O Setembro Verde é o mês da conscientização sobre a importância da doação de órgãos, um assunto que ainda é encoberto de medos e preconceitos

Por Jessica Skroch

A doação de órgãos ou de tecidos consiste na retirada de partes do corpo de um doador vivo, ou de uma pessoa com morte encefálica comprovada, para outra que necessita de um transplante, com o objetivo de salvar ou melhorar sua vida. Segundo a Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos, a Adote, um doador que perdeu as funções cerebrais de maneira irreversível pode salvar mais de 20 vidas e doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. O doador vivo pode doar  um dos rins, parte do pulmão, parte do fígado ou parte da medula óssea.

Para doar em vida, é necessário ter mais que 18 anos, estar apto a praticar os atos da vida civil, não comprometer a sua saúde e aptidões vitais, e não possuir doenças transmissíveis pelo sangue. O receptor dos órgãos precisa ser parente do doador até o quarto grau ou cônjuge. Fora dessas condições, a doação acontece apenas com autorização judicial.

A doação de órgãos de pessoas falecidas, por sua vez, é realizada após a confirmação do diagnóstico de morte encefálica através de diversos exames feitos por pelo menos 3 médicos diferentes. Vale ressaltar que esses profissionais não fazem parte das centrais de captação e transplante, para garantir a segurança do paciente, da família e da equipe. Após o diagnóstico, as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs) são avisadas pelo hospital em que estava o potencial doador. O próximo passo é a Central de Transplantes estadual avisar a família e pedir a autorização para a doação dos órgãos do ente querido.

Desde 2001, quando a doação presumida (na qual todo brasileiro era considerado doador de órgãos, a menos que se manifestasse contrário em documentos de identidade) parou de vigorar no Brasil, a doação de órgãos sem a autorização dos familiares não pode ocorrer. Esse é um dos principais motivos para que o processo não aconteça. Entre janeiro de junho de 2017, 43% das causas da não concretização de uma doação é pela falta de consentimento da família. A coordenadora da organização de procura de órgãos e tecidos para transplante da Secretaria de Saúde do Paraná, Gláucia Repula, salienta a importância do acompanhamento do poder público a fim de que as famílias aceitem a doação.

A possibilidade da doação de órgãos só é conversada quando a família já está num processo de aceitação da morte. Um profissional especializado explica aos familiares como a doação se dá e como acontece do início ao fim. Gláucia explica que esse é um trabalho muito cuidadoso.“A família que perde alguém está sofrendo muito, por isso temos que ajudar. Na maior parte das vezes quando a pessoa manifesta a vontade de doação, a família doa. É importante deixar os familiares avisados sempre, pois as pessoas dependem da doação para continuarem vivendo”, orienta a coordenadora. Ela ainda avalia que, pela própria experiência, a doação também pode ajudar no luto, isso porque já escutou relatos sobre ser gratificante saber que um pedacinho daquela pessoa ficou em alguém que precisava.

Após a autorização da família, a Central de Transplantes seleciona o próximo receptor compatível de acordo com o tipo sanguíneo, lugar na lista e gravidade. O órgão sempre será ofertado para o receptor que esteja em local mais próximo, dentro do estado. O médico responsável deve aceitar ou não a escolha e relatar os motivos. Nas últimas etapas do processo, a central organiza toda a logística do transporte dos órgãos e das equipes especializadas. Dependendo do caso (doação de coração e pulmões), o transporte deverá ser feito mais rápido, para que os órgãos  se preservam em até 4 ou 6 horas fora do corpo. Em algumas circunstâncias, pode acontecer que as Forças Aéreas Brasileiras sejam acionadas para o transporte, quando os órgãos vão de uma região mais longe que o destino.

A marca da campanha “Doação de Órgãos. Fale sobre isso” procura incentivar a discussão pública sobre o assunto (Foto: Divulgação Secretaria de Saúde do Paraná).

A doação começa pela conversa

O Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo. De acordo com o Ministério da Saúde, 95% das cirurgias são realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS também oferece toda a assistência ao paciente transplantado, desde os exames preparatórios da cirurgia até os medicamentos pós-transplantes. A família do doador não arca com nenhum custo. Até junho deste ano, 19.637 órgãos e tecidos já foram doados, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). O Paraná é o segundo no ranking de maior quantidade de doadores por milhão de população (34,3 pessoas), atrás apenas de Santa Catarina, que conta com 37 doadores por milhão de população (dado do Registro Brasileiro de Transplantes da ABTO).

A Secretaria de Saúde do Paraná começou a campanha “Doação de Órgãos: fale sobre isso”, em 2015, com o objetivo de trazer o debate para o cotidiano. Dagmar Bail é responsável pela campanha na secretaria estadual e explica que é difícil colocar em pauta um tema que remete à dor, à morte, e que é rodeado de paradigmas e preconceitos. O seu trabalho foi consolidar a marca com o apoio de empresas, sociedades e instituições que atribuíssem a ideia aos seus produtos. Um exemplo são as caixas de leite da marca Frimesa que possui o logotipo da campanha de doação de órgãos. Dagmar explica que a campanha pretende fazer o que o próprio nome diz “falar”. “A intenção é conversar, mesmo que seja para dizer que não quer. Existe um alto índice de doações que poderiam ter sido feitas, mas que a família desconhecia a vontade do ente porque nunca conversaram sobre isso”.

Ainda que pela legislação não seja obrigatório deixar um documento escrito com o desejo de doar, existem algumas alternativas para conscientizar às famílias. Victoria Petter adquiriu o Cartão do Doador, uma iniciativa do Banco de Olhos de Sorocaba (BOS), para mostrar a vontade ainda em vida de se tornar uma doadora.  Ela  conta que depois de ver o pai lutar contra um câncer,  conhecer histórias de várias pessoas que estavam em tratamento no mesmo hospital e acompanhar esperas por órgãos e doações de sangue diariamente, sentiu que a doação era “praticamente obrigatória”. O Cartão do Doador pode ser feito de qualquer lugar do Brasil e pela Internet. Outro programa parecido é o projeto “Doar é Legal” do Poder Judiciário, que também gera uma certidão para expressar a intenção de doar e que pode ser feita pelo site.

Às vezes se descobre a necessidade de um tratamento num exame de rotina. Foi o caso de Ademir Camilo, que descobriu uma infecção renal e tratou por 5 anos, até necessitar de um transplante. Foi um processo rápido. Ademir logo conseguiu um primo que era compatível e em 40 dias já estava transplantado. “Tudo foi muito rápido, porque eu não tinha muito tempo. Não sei se eu estaria vivo se não fosse pelo meu primo. A gente se emociona toda vez que falamos sobre isso”, conta.

Com Ana Turmann, de 56 anos, foi diferente. Ela sabe como é esperar por um órgão. Perdeu um rim quando tinha 28 anos, e outro quando tinha 36. Na primeira vez, ficou 5 meses na fila até conseguir um rim de pessoa falecida. Para conseguir o transplante do segundo órgão, ficou um ano e três meses fazendo hemodiálise todos os dias. Como o seu tipo sanguíneo não é fácil de encontrar, o B positivo, não conseguiu achar um doador rapidamente até que a cunhada se prontificou e o órgão provou ser compatível. “Ela é minha irmã de rim”, brinca.  Pelo tempo que aguardou o transplante, Ana ressalta a importância dessa ação. “Já avisei a família que é pra doar tudo o que der! Eu sei a dificuldade de passar por isso. Na minha família todos são doadores, porque eles viram meu sofrimento atrás de um órgão”.

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