Dono de hamburgueria curitibana já trabalhou como mergulhador e técnico naval em mais de 40 países

O carioca transformou uma oportunidade de emprego em sua carreira profissional na indústria offshore, mas decidiu fazer uma pausa para cuidar daquilo que sentia falta viajando pelo mundo: sua família e amigos

Por Mariana Toy

Jorge Eduardo dos Santos Barbosa, conhecido como Marujo, se formou em Engenharia Elétrica na Escola Técnica Federal do Rio de Janeiro e passou 38 anos trabalhando em navios como mergulhador offshore (afastado da costa) e como técnico elétrico, de equipamentos navais e de lançamentos de oleodutos. Agora, aos 59 anos de idade, possui o restaurante e hamburgueria, Marujo’s Burguer, onde compartilha as histórias que viveu ao passar por mais de 40 países.

Sua primeira experiência internacional, trabalhando como técnico cooperante em Moçambique, colaborou para que conseguisse seu primeiro emprego na indústria naval e petrolífera. Jorge trabalhou em empresas por cerca de 25 anos, até que se desligou totalmente delas para trabalhar como freelancer (profissional autônomo). Há 2 anos, sentiu que era hora de focar na família e construir amizades duradouras, por isso desembarcou pela última vez e abriu seu estabelecimento gastronômico em Curitiba.

(Foto: acervo pessoal)

 

Como e quando começou seu interesse por mergulho?

Em 1980, eu trabalhava na área de engenharia da General Electric, uma multinacional americana de serviços e tecnologia no Rio de Janeiro. Surgiu, no Jornal do Brasil, o anúncio de uma oportunidade de emprego na República Popular de Moçambique, respondi o anúncio e fui aceito. No início de 1981, me mudei para Moçambique, onde permaneci por dois anos. O país precisava de cooperantes técnicos, porque estava destruído desde que se tornou independente de Portugal. Essa foi a minha primeira experiência internacional e valeu muito para a minha carreira. Ao fim do nosso contrato de dois anos, retornei ao Brasil, mandei currículos em busca de emprego e fui chamado para uma empresa francesa recém instalada no país, a Compagnie Maritime D’expertises (Comex), atual Subsea 7, uma empresa exclusivamente de mergulho. Como já tinha experiência internacional, o que não era comum na década de 80, fui aceito prontamente e, assim, entrei na área do mergulho profundo e na indústria do offshore. Assim, me profissionalizei na área do mergulho, mas devido aos grandes riscos do mergulho profundo, migrei para a área técnica. Depois de 5 anos como mergulhador offshore, passei a trabalhar como técnico, na superfície, e mergulhava somente para testar equipamentos, não mais para executar um trabalho lá embaixo. Passei um bom tempo no Brasil, nessa empresa de mergulho que foi crescendo e se unindo a empresas maiores até se tornar a Subsea 7, uma das maiores empresas de mergulho no mundo. Durante esse período, sempre trabalhei com carteira assinada pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Em 2006, saí dessa empresa porque tive uma oportunidade de trabalhar no Egito. Desde então, me desliguei totalmente de empresas brasileiras e passei a trabalhar como freelancer.

Como funciona a busca de trabalhos como freelancer?

O mundo do petróleo tem várias agências de mão de obra espalhadas pelo mundo, a grande maioria delas concentradas em Aberdeen, na Escócia. Algumas são virtuais e outras são, de fato, empresas físicas. Nós procuramos essas empresas pela internet e nos cadastramos dentro da nossa área de atuação. Quando as grandes empresas têm um projeto em outro país, onde não possuem sede, elas procuram as agências, que vão em seus bancos de dados e mandam e-mail para as pessoas que cumprem os requisitos exigidos para o cargo. Enviamos o currículo e os melhores são selecionados e enviados para as empresas, que escolhem quem querem contratar. Só então descobrimos qual será o valor do day rate, que é a taxa recebida por dia de trabalho, e a empresa ou a agência nos envia a passagem via internet. As empresas acreditam naquilo que está no currículo sem realizar entrevistas, nós assinamos os contratos e o pagamento cai na nossa conta no dia certo, tudo sem conhecermos os contratantes pessoalmente. É uma grande relação de confiança.

Quanto recebe, em média, um mergulhador offshore iniciante?

Já faz alguns anos que eu não trabalho como mergulhador, então não posso dizer com certeza, mas um técnico pode receber cerca de 450 libras por dia (cerca de R$1890,00), variando de acordo com a experiência e função.

Além do mergulho saturado, Jorge trabalhou como ship electrician (elétrico naval), dive tech (técnico dos equipamentos de mergulho, elétrico ou mecânico) e lay tech (técnico de lançamento de oleodutos, cabos e fios). Foto durante trabalho na Noruega (Foto: acervo pessoal)

Quais são as maiores diferenças da indústria offshore no Brasil e no exterior?

No exterior, a manutenção dos equipamentos é muito mais complexa e a fiscalização é bastante rígida. Existem regras no Brasil também, mas as empresas daqui querem gastar o mínimo possível, independente dos milhares de dólares que faturam. Isso gera um equipamento sucateado e até mesmo nas grandes empresas, não existe uma inspeção rigorosa. Lá fora, o equipamento é certificado com frequência, fazemos testes de uso, de horas úteis de cada peça e certificamos por quanto tempo aquele equipamento ainda pode funcionar. O sindicato dos mergulhadores batalha para que haja fiscalização e condições melhores no Brasil, mas infelizmente isso ainda não acontece.

Como você aprendeu a mergulhar?

Nos anos 80, a formação de mão de obra dependia da própria empresa, foi assim que eu fui treinado para o mergulho saturado, que é o mais profundo e complicado. Hoje, existem faculdades que oferecem cursos de mergulho profundo, inclusive em Santos, no litoral de São Paulo.

“Sempre gostei do desafio, da complexidade e do perigo, é o que motiva o ser humano nas grandes descobertas”, afirmou Jorge. Foto durante trabalho na Nigéria. (foto: Arquivo pessoal)

Qual a maior profundidade que você já atingiu mergulhando?

Podemos ir até 300 metros de profundidade, segundo a lei. No Brasil, já usamos artifícios para o mergulhador ir além desse limite e fizemos mergulhos de até 316 metros, mas tivemos uma morte. É uma coisa muito perigosa.

Você acredita que era mais fácil ser mergulhador naquela época do que agora?

É mais difícil ser mergulhador atualmente, mas precisar ou não de formação não é o principal problema. A profissão de mergulhador está diminuindo cada vez mais por causa da alta tecnologia, então foi bom eu ter migrado para a área técnica. Hoje, o pré-sal do Brasil é a 7 km de profundidade, só de lâmina d’água, não há condições de haver mergulho. Há 25 anos, nós fazíamos exploração de petróleo em águas mais rasas, então dependíamos muito dos mergulhadores. Com a evolução tecnológica, a procura por petróleo era feita em lugares cada vez mais profundos, onde os mergulhadores não podiam ter acesso por ultrapassar os 300 metros de profundidade permitidos. O petróleo raso está acabando e, por isso, a profissão de mergulhador offshore está se tornando mais restrita.

Você considera alguma história como a mais marcante da época que trabalhou em navios?

O momento mais marcante foi um incêndio que aconteceu aqui no Brasil, em Macaé, no Rio de Janeiro. Eu trabalhava naquele navio há cerca de 4 anos e estava dormindo quando começou o incêndio na sauna. O lugar estava cheio de fumaça, por isso precisávamos de máscaras e cilindros de ar comprimido para conseguir entrar e apagar o fogo. Mas, quando os cilindros se esvaziaram, não tínhamos como recarregar, porque o local onde estava o compressor de recarregamento também estava cheio de fumaça, então o capitão ordenou que todo mundo saísse do navio. Vários barcos nos levaram até outros navios e, chegando lá, vi um contêiner de mergulho raso, que usa cilindros de ar comprimido e tem compressor de recarregamento. Na mesma hora, peguei alguns cilindros, carreguei o bote e pedi para o capitão do navio que nos socorreu avisar o nosso capitão que eu ficaria fazendo o transbordo, levando os cilindros cheios para o nosso navio e voltando com os vazios para recarregar. Fiz isso durante toda a madrugada e pudemos combater o incêndio. Perdemos muitos equipamentos e máquinas, mas salvamos o navio e continuamos navegando até o Rio de Janeiro, onde ficamos parados por 1 mês para reforma.

Apesar de o trabalho exigir muita dedicação para lidar com o perigo, os trabalhadores tinham tempo para aproveitar o país onde embarcavam. Foto durante trabalho na Noruega.(foto: Arquivo Pessoal)

Dizem que existe uma grande diferença entre viajar a trabalho e viajar a lazer. Quando você viajava a trabalho, tinha tempo de aproveitar o país onde estava?

A gente nunca embarcava de imediato, então sempre dava para aproveitar a cidade durante alguns dias. E, no desembarque, era possível pedir que a empresa nos enviasse a passagem de volta alguns dias depois, aí ficávamos passeando por nossa conta durante esse tempo também.

De todos os países que você visitou, qual é o seu favorito?

Dos mais de 40 países que eu conheci, a Noruega é o mais bonito, sem dúvidas. O que mais me chamou a atenção no quesito choque cultural foi o Egito, porque é um país tipicamente muçulmano, então é muito diferente. Moçambique também me chocou por causa da miséria em que viviam as pessoas logo após a independência, morar nesse país durante uma época de guerrilha me marcou muito.

Por que você decidiu deixar essa profissão?

Foi um conjunto de fatores. Depois de 38 anos viajando, não é que a gente cansa, porque eu não cansei, mas senti falta de criar raízes. Somos cerca de 150 pessoas das mais variadas nacionalidades trabalhando nos navios ao redor do mundo, então aquele cara é meu amigo durante o tempo que nós estamos embarcados, até que ele vai para um país e eu para outro. Aquilo de “tomar um chopp no fim de semana” não existia e, hoje, percebo que passei grande parte da minha vida sem construir laços fortes de amizade. É diferente de alguém que trabalha em uma empresa há anos e sai com os colegas para um happy hour toda semana. Nós fazíamos nosso happy hour ao desembarcar e, depois, cada um voltava para o seu país. Eu sentia a necessidade de criar essas raízes. Tinha também a dificuldade de ficar longe da família. Cheguei a ficar 4 meses sem voltar para casa e sem ver minha esposa e meus filhos pequenos, ela enfrentava todas as responsabilidades sozinha. Já estou no meu quarto casamento e percebi que precisava focar na minha família. Além disso, estávamos no meio de uma crise do petróleo, que causou uma baixa no trabalho offshore. Eu uni o útil ao agradável. Desembarquei pela última vez no dia 28 de junho de 2015 e, em outubro, já comprei o restaurante.

Mergulho com tubarões na Angola (Foto: acervo pessoal)

E por que decidiu abrir um restaurante?

Eu não podia ficar parado esperando, então procurei algo que me sentia bem fazendo, mas que já estivesse encaminhado, por isso comprei um restaurante que já funcionava. Nós abríamos somente no horário do almoço e nossos clientes eram pessoas do comércio que vinham, ficavam na internet, comiam rápido e voltavam a trabalhar. Eu gosto muito de contar minhas histórias, mas não era com esse público que eu queria compartilhar. Então decidi utilizar o restaurante no período da noite, de forma que pudesse atrair pessoas para dividir minhas aventuras. Pensei em montar a hamburgueria porque era algo em alta e criei hambúrgueres com nomes de países onde trabalhei. Nossas receitas são originais desses países, com molhos e maioneses feitos por nós. Os oito países que compõem o cardápio são: Argentina, Austrália, Brasil, Egito, Estados Unidos, França, Gabão e Havaí.

Por que escolheu vir para Curitiba?

Eu morava no Rio de Janeiro e, de lá, me mudei para São Paulo, onde morava com a minha esposa e filhos pequenos. Minha sogra morava na Barra do Turvo, interior de São Paulo, na divisa com o Paraná. Por questões de segurança, eu e minha esposas decidimos que era melhor ela e as crianças irem morar com a mãe dela, porque eu passava muito tempo trabalhando fora do país. Foi assim que eu conheci Curitiba, porque sempre que precisávamos de um bom posto médico, um supermercado ou shopping, a gente vinha para cá. Quando as crianças cresceram e precisavam de uma escola boa, nos mudamos permanentemente.

E você não sente falta de ficar perto mar?

Sinto, claro que sinto. Uma das minhas filhas está trabalhando comigo no restaurante, aprendendo e dividindo responsabilidades, porque o mercado do petróleo está voltando a aquecer e, ao contrário do que acontece no Brasil, a indústria offshore no exterior valoriza a idade e considera que quanto mais velho, mais experiente é o indivíduo. Então quando o mercado aquecer de novo, se for conveniente, penso em voltar a embarcar uma vez ou outra como freelancer. Até lá, conto minhas histórias na hamburgueria e isso me faz bem enquanto estou longe do mar.

Mar da Suécia (Foto: acervo pessoal)

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