É possível separar a obra do artista?

Escândalos no meio cinematográfico envolvendo atores, diretores e produtores retoma a discussão sobre o tema

Por Camille Alves

O produtor Harvey Weinstein, que produziu mais de 300 filmes, foi acusado de assédio sexual por diversas atrizes e funcionárias (Foto: Alexander Koerner/Getty)

 

Harvey Weinstein é a segunda pessoa mais citada em discursos de agradecimento em premiações do cinema, atrás apenas de Steven Spielberg. Seu poder em Hollywood é materializado em mais de 80 estatuetas do Oscar. Recentemente¹, uma série de denúncias de assédio sexual fizeram com que um dos homens mais poderosos do cinema fosse demitido de sua própria produtora – The Weinstein Company – e expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. No entanto, os mais de trezentos filmes produzidos por ele continuam por aí e não podem ser ignorados. Dentre eles estão Lion, O Lado Bom da Vida, O Jogo da Imitação, O Discurso do Rei e clássicos como Pulp Fiction e Kill Bill.

Confesso que desses cinco títulos que citei, assisti a apenas dois – O Lado Bom da Vida e O Jogo da Imitação. Infelizmente gostei de ambos. Digo “infelizmente” porque, como boa repetidora de filmes que sou, gostaria de vê-los novamente. Agora não sei se sou capaz. Seria possível assistir a um filme ou série sem pensar que talvez aquela atriz tenha sido abusada para conseguir o papel? Seria possível ter prazer em assistir a algo produzido por um assediador que ameaça destruir a carreira de mulheres para simplesmente satisfazer seus desejos e exercer seu poder?

Acredito que não. Acredito que seja impossível separar completamente a obra de seu artista. Apesar de um filme, por exemplo, ser feito por mais de uma pessoa, ele contém um pouco de cada um que colaborou para sua criação. Principalmente dos atores e os diretores, que podem ser considerados a alma do filme. Se o diretor é um abusador, seu machismo provavelmente vai estar presente em algum aspecto, seja de forma explícita em uma cena, seja escondida nos bastidores. O fato é que, no processo de construção de uma obra, o artista usa tudo o que ele possui: suas opiniões, experiências passadas, crenças, ideais. Desta forma, a obra reflete a essência de seu criador.

Mas será que deixar de assistir a esses filmes e séries faz alguma diferença? Há quem diga que não é necessário boicotá-los completamente, pois se baixado pela internet nenhum lucro será gerado e o artista não ganhará aquele dinheiro². Outros afirmam que a vida pessoal do autor deve se manter separada da obra e que, portanto, é válido continuar consumindo sua arte. Essas pessoas entendem que mesmo uma pessoa de caráter ruim pode ser capaz de criar algo incrível e que, por isso, basta separar um do outro e seguir a vida. É claro que o legado de Woody Allen no cinema ou de Isaac Asimov³ na literatura não pode ser simplesmente ignorado. No entanto, a qualidade artística de suas obras não devem servir para encobrir denúncias de assédio.

A questão é mais profunda do que apenas dinheiro ou fama. A discussão não se restringe ao trabalho desses artistas ou a quanto eles lucram ou deixam de lucrar. É um debate sobre vidas, sobre histórias reais de pessoas reais que foram feridas e marcadas para sempre pelas atitudes desses artistas. Talvez deixar de consumir essas obras não faça seus autores menos ricos ou menos famosos, mas significa deixar de propagar seus ideais. É deixar de espalhar a cultura do estupro, que banaliza o assédio sexual e culpabiliza a vítima. Não dar respaldo para essas obras pode até não causar um grande impacto na indústria da arte como um todo, mas é um pequeno gesto que representa uma mudança nessa cultura. É mostrar que um assediador não sairá impune e que o assédio não será esquecido só porque se trata de um artista talentoso .

Nunca fui muito ligada no mundo do cinema, por isso costumo ver poucos filmes. Eu até tinha uma lista mental de títulos aos quais eu precisava assistir, principalmente aos clássicos, já que sempre fui considerada a estranha que nunca viu Harry Potter, O Rei Leão ou Pulp Fiction, por exemplo. A este último, pretendo nunca assistir, pois se antes eu me cobrava a ver mais filmes, hoje estou disposta a boicotar toda e qualquer obra produzida, dirigida ou estrelada por abusadores. E quer saber de uma coisa? Não sentirei nenhuma falta. Até hoje consegui sobreviver sem ter visto Kill Bill4, e isso não faz de mim uma pessoa alienada ou menos culta. Afinal, cultura não se resume apenas ao que é considerado clássico ou erudito. Existem outros filmes para serem vistos e outras formas de arte para serem apreciadas.

Pode soar radical, mas o fato é que podemos encontrar outras formas de nos entreter. Não apenas em outros campos da arte, como a música ou a literatura, mas dentro do próprio audiovisual, buscando filmes e séries diferentes, de outros diretores ou produtores, descobrindo coisas novas. O que nós não podemos é continuar banalizando o assédio sexual. Ao assistirmos a um filme que você sabe que foi dirigido/produzido/estrelado por um assediador, nós somos condescendentes com seus atos. Uma vez conscientes desses casos, é impossível simplesmente ignorá-los e continuar consumindo cinema como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra. Demorou décadas para que as vítimas tivessem a coragem de quebrar o silêncio comprado por seus agressores e denunciá-los, e esse sofrimento não deve ser menosprezado. Nosso prazer é menos importante que a dor das vítimas de abuso sexual.

Notas:
1 . Uma matéria publicada pelo jornal The New York Times no dia 05/10/2017 revelou diversos casos de assédio por parte do produtor Harvey Weinstein. Outros casos envolvendo grandes nomes do cinema como Kevin Spacey e Sylvester Stallone também surgiram após as denúncias contra Weinstein.
2. Diversos atores e diretores recebem parte da bilheteria do filme ao serem creditados como produtor do filme. Nesses casos, o cachê do ator é reduzido, mas o lucro final costuma ser maior.
3. Isaac Asimov é um dos principais nomes da literatura de ficção científica. O escritor era conhecido por abusar mulheres em conferências literárias.
4. Kill Bill, assim como todos os demais filmes do diretor Quentin Tarantino, teve distribuição/produção de alguma das empresas de Harvey Weinstein.

SalvarSalvar

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *