É possível um atleta ser presidente do Brasil?

Não basta a política ter virado um “Fla-Flu”: o Brasil conta com os próprios jogadores como figuras do campo político

Por Osmar Filho

No dia 28/03, a versão online da revista Lance! publicou uma pesquisa que mostrou que o atual técnico da seleção brasileira – Adenor Leonardo Bachi, o Tite – conseguiria abocanhar 14,8% dos votos para a próxima eleição presidencial do Brasil, no ano que vem.

Os possíveis eleitores foram entrevistados na semana anterior à da vitória sobre o Paraguai pelo placar de 3×0, em jogo realizado em São Paulo. A partida garantiu o passaporte da seleção “Canarinho” para a Copa do Mundo na Rússia.

Se o treinador realmente quiser candidatar-se, é melhor fazer isso logo. A votação acontece em 18 meses, e outras pesquisas de intenção de voto já acontecem com os futuros candidatos. Em avaliação recente da CNT (Confederação Nacional do Transporte), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com 16,6%, seguido pelo deputado Jair Bolsonaro (6,5%) e por Aécio Neves (2,2%). O número de nulos, brancos e indecisos chega a notáveis 70%.

Se a pesquisa do Instituto Paraná apresentada na Lance! fosse seguida à risca, Adenor teria quase a mesma quantidade de eleitores que Lula. O ex-jogador do SER Caxias teria chance de entrar na lista de esportistas aposentados que conseguem um cargo na política, como o pugilista Acelino ‘Popó’ Freitas (ex-Deputado Federal da Bahia – PRB) e o atacante do Vasco da Gama Romário (senador pelo PSB-RJ).

O caso mais recente e relevante é o do empresário Alexandre Kalil, que foi presidente do Atlético-MG por seis anos e no momento é prefeito da cidade de  Belo Horizonte. Alexandre derrotou João Leite no segundo turno com cerca de 53% dos votos. O adversário também teve uma carreira no futebol nos anos 80, atuando como goleiro.

O prefeito se elegeu pelo pequeno PHS e conseguiu agregar uma visão positiva do eleitorado ao indicar que o outro candidato representava a “velha política”, utilizando-se do slogan “Acabou coxinha, acabou mortadela, o papo agora é quibe”, em referência à sua descendência árabe. Além disso, alfinetou o futebol de João Leite, opinando que ele era “um goleiro meia-boca”.

O jogador de futebol como alternativa de voto

Romário foi eleito senador do Rio de Janeiro, e antes, em 2010, deputado federal do mesmo estado, angariando a sexta colocação na eleição fluminense. O ex-futebolista continua como o maior exemplo de atleta na política e sua aprovação só cresce ao longo dos anos. Como uma pessoa sem articulações políticas pode ganhar num cenário tão temível?

Segundo o historiador e professor formado na Universidade Católica Dom Bosco, Ivo Marcos, os atletas “por serem elementos populares que sempre se encontram na mídia, tem um veículo fácil de propagandear o seu nome, as suas ações e suas ideias”. Desta maneira, são projetados pela mídia, facilitando na obtenção dos votos. O quadro ainda fica maior pela dimensão do esporte no Brasil, sobretudo o futebol, que é de longe o mais popular, explica o professor.

A Constituição Brasileira admite que qualquer pessoa se eleja para uma função política, desde que seja brasileira, alfabetizada e possua certa idade, variando de cargo a cargo. Além disso, obviamente, o indivíduo deve estar de acordo com lei – o que impugnou uma das diversas candidaturas de Marcelinho Carioca a vereador de São Paulo por crime ambiental. Na última eleição, o ídolo do Corinthians não ganhou, ficando em 83º lugar com seus quase 13 mil votos.

Embora ambos tenham personalidades (explosivas) parecidas, o caso de Marcelinho difere do de Romário em alguns aspectos. O corintiano não teve uma passagem tão marcante quanto a do ‘baixinho’ pela seleção brasileira, não apareceu na mídia com seus mil gols e ainda é visto como ídolo do ‘Timão’, o que pode gerar rejeição de voto por parte de torcedores rivais.

O torcer e a política

Formado pela UFPR e Doutorando em História pela Universidad Autonoma de Barcelona, Daniel Ferreira é um estudioso do futebol e explica a nomenclatura do “torcer” e a construção histórica do torcedor brasileiro. “O “torcer” brasileiro remete a um estado de catarse, que se percebe comum em outros lugares do mundo para vivenciar o futebol”, diz.

Entretanto, Daniel acredita que isso está mudando, pois “as tradicionais formas de “torcer” vêm dando lugar, cada vez mais, a uma relação mais frágil entre público e clube. O torcedor se torna mais um simpático admirador de um determinado clube do que um fiel militante disposto a “matar e morrer” pelas suas cores.

Respondendo à pergunta…

Não é impossível. Para Ivo “não é tão fácil como se eleger vereador ou deputado, mas é possível”. Mesmo reconhecendo as candidaturas anteriores, o historiador explica que para as eleições para presidente ou governador “o candidato tem que ser extremamente articulado com os conchaves políticos”.

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