Elas querem chegar lá: a longa caminhada em direção às condições de igualdade de gênero no futebol brasileiro

Apesar de ainda existir muita desigualdade no meio futebolístico, mulheres como a italiana Patrizia Panico dão esperança às que buscam avançar no esporte

Por Raisa Toledo

 

No dia 17 de março de deste ano foi noticiado que a Itália teria, pela primeira vez, uma mulher comandando um time de futebol masculino. Uma das seleções mais vitoriosas do esporte teve seu time sub-16 treinado pela ex-jogadora da seleção italiana Patrizia Panico. Mesmo que por apenas dois jogos, substituindo o técnico em dias em que ele esteve ausente, a estreia de Patricia foi um avanço positivo para as mulheres do meio.

No Brasil, o cenário não é tão animador. Se nos últimos anos a seleção feminina conquistou mais visibilidade com a cinco vezes melhor do mundo Marta e com o desempenho nas Olimpíadas de 2016, a desigualdade em relação ao futebol masculino ainda é profundamente marcada, em todas as áreas.

Dos 650 árbitros registrados no site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), entre árbitros, assistentes e assessores, 67 são mulheres, pouco mais de 10%. Em levantamento da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) do ano passado, constatou-se que a média do salário de uma jogadora das semifinais do Campeonato Brasileiro Feminino é de R$1.880. Mas são poucas as atletas que chegam a clubes profissionais das divisões nacionais da CBF, que também não são muito numerosos, somando 32 contra 128 masculinos. No Paraná, há 36 times profissionais masculinos, e dois femininos. Apenas 1.624 jogadoras tem contrato ativo, de acordo com a CBF.

 

A luta pela profissionalização

Profissionalizar o futebol feminino no Brasil é necessário de várias maneiras. Para a treinadora Luiza Montingelli, ela passa pela questão do registro em carteiras, mas também pela profissionalização do trabalho como um todo. Muitas vezes, pessoas não formadas na área acabam dando treinos para as atletas por amor ao esporte. “Tem o lado positivo disso, mas eu e outros profissionais da área estamos, de certa forma, perdendo mercado, sendo nivelados por baixo”, afirma.

Na área trabalhista, não são muitos os clubes que tem condições de registrar suas atletas como jogadoras profissionais. São realizados contratos de formação iniciais, ou registros como funcionárias de empresas patrocinadoras. Muitas têm que trabalhar em outras áreas para complementar a renda. Luiza, que trabalhou na categoria de base masculina do Paraná Clube e comandou times femininos infantis na escola do Atlético, julga ser difícil imaginar um clube se profissionalizando para ser exclusivamente feminino.

Os que existem atualmente têm o suporte de times masculinos maiores, que entram com sua estrutura de marketing, patrocinadores, recursos e um nome construído. Um exemplo é o clube Foz Cataratas, único paranaense a disputar o Campeonato Brasileiro Feminino, que fechou parceria com o Coritiba no início deste ano.

 

Principais desafios

Entre as principais dificuldades que acompanham o processo de crescimento da valorização e popularização do futebol feminino está o preconceito, elencado por Luiza como a  principal barreira a ser transposta. A técnica viu seus subordinados homens serem promovidos em seu lugar, e já escutou várias vezes que “o futebol feminino não existe, o jogo é muito ruim, as meninas são muito masculinas”. Muitas vezes, a situação se reverte: “A partir do momento em que a pessoa vê o nosso time jogar, vê a gente que tem um trabalho dedicado mesmo, fala ‘poxa, elas sabem jogar mesmo, jogam que nem homem!’. Mas não jogam que nem homem, jogam que nem mulher!”, esclarece.

Ao contrário de esportes como o vôlei, basquete, handebol e arremesso de peso, nos quais foram propostas adaptações às diferenças físicas e biológicas entre os sexos, no futebol não existem modificações de medidas de campo, tempo ou tamanho de trave. Aliado ao fato de que não existe uma estrutura de escolas em que meninas possam jogar desde a infância, começando o treinamento frequentemente na adolescência e chegando com um atraso de desenvolvimento motor de cerca de dez anos em relação aos homens, essa é uma dificuldade encontrada exclusivamente pelas jogadoras.

Também é difícil atrair o público e captar recursos. Abrir um estádio para a realização de qualquer jogo custa de 10 a 15 mil reais, com custos de luz, água e segurança. Com a venda de ingressos a 10 reais, por exemplo, cobrir o custo do jogo não seria uma certeza. Os jogos do Campeonato Sul-americano de futebol feminino sub-20 de 2012 foram realizados na Vila Capanema, e eram gratuitos, mas as arquibancadas restaram, majoritariamente, vazias.

Para Helen Anacleto, jornalista esportiva, a raiz desses problemas é cultural: “A gente vive em uma sociedade que é machista, e a prioridade dessa sociedade é garantir os espaços para os homens. A mulher se interessa por esporte desde sempre, a diferença é que agora elas estão começando a galgar espaço”, afirma. Sobre a ausência de cobertura midiática, diretamente ligada aos patrocínios e movimentação de torcida reduzidos em relação ao futebol masculino, Helen reconhece que, mesmo para os campeonatos mais importantes, como os disputados pela seleção feminina,  “a cobertura é mínima”.

 

Estímulo da CBF

A partir de 2019, por determinação da Confederação Brasileira de Futebol, os times masculinos que disputarem a Copa Libertadores da América precisarão, obrigatoriamente, ter um time feminino. Dos que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro esse ano, apenas oito cumprem a medida, que é vista com bons olhos por Luiza, Helen, e também por Verónica Rivero, capitã e zagueira do Foz Cataratas.

A paraguaia joga no Foz há cinco anos. Satisfeita com a recente parceria do time com o Coritiba, Verónica concorda que os grandes clubes desempenham papel importante no estímulo ao futebol feminino, e que a profissionalização é a melhor maneira de trazer ao futebol feminino as mudanças necessárias. “A cada dia é uma luta das pessoas que gostariam que o futebol feminino seja mais igual. É díficil colocar de igual ao masculino, mas pelo menos chegar um pouquinho mais perto, né?”, coloca.

 

Ainda assim, Verónica afirma que, no Brasil, o futebol das mulheres recebe mais reconhecimento que em seu país de origem. O Foz Cataratas desenvolveu sua própria estratégia para atrair gente às arquibancadas. Mulheres de diferentes profissões foram escolhidas para agirem como embaixadoras, divulgando e convidando pessoas para acompanhar os jogos das meninas, chamadas carinhosamente de “poderosas do Foz”. Do lado de fora do estádio, é montado um espaço com food trucks e brinquedos para as crianças que acompanham o público, composto por mulheres e famílias. Segundo a capitã, as meninas, que jogam desde 13 de março o Campeonato Brasileiro, mostram-se felizes com o apoio recebido da cidade, e ansiosas para mostrar que ainda podem ir muito além. “O futebol feminino é de muita qualidade. Têm meninas com muito talento, e por isso acredito que o futebol vai pra frente, que essa geração de agora ainda vai fazer história no Brasil”, conclui.

A união com times masculinos esbarra em obstáculos de logística, como a necessidade de se construir vestiários separados. Mas é muitas vezes o único caminho para a profissionalização de uma equipe feminina. (Foto: Cristian Rizzi)

You May Also Like

One thought on “Elas querem chegar lá: a longa caminhada em direção às condições de igualdade de gênero no futebol brasileiro

  1. Parabéns pela matéria. Minha filha Luíza Montingelli é uma batalhadora dentro do futebol feminino. Dedica-se de corpo, alma e recursos à divulgação, treinamento, acompanhamento e muitas vezes fazendo o papel da família dessas meninas, moças e mulheres que gostam do futebol “para jogar”. É uma pena não ver todo o esforço dela reconhecido por uma classe que simplesmente ignora o trabalho feminino dirigido para o esporte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *