Elogios e sorrisos em uma Curitiba de cara amarrada

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A artista de rua recebeu o elogio com um largo sorriso na rosto.
(foto: Nathaly Susin)

Curitiba conta com quase 2 milhões de habitantes. Destes, em média 140 mil pessoas transitam pelo calçadão da rua XV de Novembro diariamente. Pelo menos 2/3 desse número tem o costume de andar de ‘cara fechada’, a passos largos, evitando interrupções. A capital paranaense é conhecida nacionalmente por ser uma cidade de conterrâneos pouco adeptos ao diálogo com a vizinhança e caracterizados por um provincianismo típico de uma cidade com raros dias de sol. Neste ambiente hostil, travamos uma luta diária de criar um senso de comunidade, embora sob quedas e tropeços. Esse senso, segundo o sociólogo Raymond Williams é, nos dias de hoje, outro nome do paraíso perdido – mas a que esperamos ansiosamente retornar, e assim buscamos febrilmente os caminhos que podem levar-nos até lá.

Manauara vivendo em Curitiba há exatos dez anos, tenho experiência própria com o estilo de vida da metrópole paranaense. Tive pouco contato com meus vizinhos nessa década – os mais chegados, apenas diziam um tímido “bom dia” no elevador e logo voltavam a seus afazeres. Num dia desses, conversando com outro manauara, chegamos à conclusão de que o curitibano sempre tem muitos ‘afazeres’. Se são reais ou imaginários, fica a dúvida. Logo me acostumei a este estilo de vida e até mesmo passei a adotá-lo. Na saída do condomínio, apenas uma breve saudação ao porteiro. No ambiente de casa, rápidas conversas com minha mãe. Com a diarista, apenas o básico – o que fazer, o que comprar, o que arrumar. Na dúvida, fale sobre o clima instável.

Desta maneira as relações se tornaram quase que automáticas. Nada de intimidade sob uma liquidez profunda, como diria o filósofo Zygmunt Bauman. Foi aí que resolvi travar a experiência de quebrar este paradigma. Conhecer melhor a Maria, minha nova diarista, que resolveu se demitir do emprego no condomínio pois não concordava com a política sindical de ter de usar um avental verde – nada mais justo. Foi só assim que ela começou a ter mais confiança em mim para falar de assuntos que normalmente não falaria. Conversar com o seu José, porteiro do meu prédio que há cerca de dez anos trabalha na vizinhança, porém diz mal reconhecer alguns dos moradores. Um fato que guardamos em comum. E, por que não elogiar o novo vestido florido da minha mãe, que ela vai usar para ir à igreja nos domingos e receber um obrigado caloroso dela logo em seguida?

Nesse período, recebi um feedback muito positivo. É como se as pessoas que convivem diariamente comigo jamais estivessem esperando por essa reação. Sempre tão ocupado com uma nova pauta na cabeça, indo às ruas fazer entrevistas com deus e o mundo, acabei deixando de lado alguns personagens essenciais na minha vida. “O que aconteceu para você ficar assim, do nada?”, foi o que me perguntou a babá da minha sobrinha. Logo, me dei de cara com uma pessoa individualista: o típico “curitibano de afazeres”. Foi aí que resolvi ir além: andar pelas ruas com uma placa na qual se lia ‘Receba um elogio’. “Se não consigo elogiar as pessoas que moram comigo, por que não treinar com desconhecidos?”, pensei.

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Duas horas de experiência transitando pelo calçadão da XV de novembro. A caminhada da praça Osório à praça de Bolso do Ciclista foi suficiente para ter um panorama de como elogiar é mais difícil do que parece.
(foto: Nathaly Susin)

Árdua tarefa. Mais árdua até do que imaginei. Os primeiros minutos na praça Osório foram desoladores. As pessoas olhavam para a placa e viravam a cara. Percebi que tinha de fazer algo por conta própria. Por que não oferecer um elogio? “Moça, você quer receber um elogio?”. Recebi um sorriso tímido. Imagino que aquela menina receba cantadas diariamente, mas ninguém realmente a perguntou se ela queria um elogio. Foi assim com pelo menos quatro meninas – elas olhavam e sorriam, mas sem responder se queriam ou não.

Isso me fez refletir sobre o quão machista e patriarcal ainda é a nossa sociedade. Tentei elogiar três senhores com a mesma abordagem. Ambos disseram um ávido ‘não’ na minha cara. Elogiar pessoas do mesmo sexo ainda é um tanto complicado numa sociedade heteronormativa.
Logo, fui me acostumando à ideia de elogiar indivíduos estranhos, mas apenas aqueles que pareciam abertos a receber um elogio e um diálogo.

Acabei conhecendo uma musicista peruana. Elogiei o trabalho artístico dela na rua e, de quebra, levei um sorriso extremamente simpático para casa. Resolvi elogiar o gari que limpava a calçada e fui cumprimentado com um abraço, como se ambos os nossos trabalhos naquela tarde tivessem valido a pena. O padre que distribuía mensagens sobre salvação na rua acabou conversando comigo sobre quão difícil é fazer um trabalho na rua, logo depois que elogiei sua atitude. A mãe que não tem vergonha de amamentar em público me deixou acariciar seu filho sem nenhum pudor enquanto o carregava no colo e falei que o gesto dela é bonito e difícil de encontrar ultimamente.

O adolescente que fica sentado nos bancos do calçadão com os amigos foi um dos únicos homens que me pediu um elogio – e acabei ganhando um abraço e um sorriso, como se fôssemos camaradas de outras quebradas. A haitiana com tranças no cabelo e um sorriso de dar inveja ficou um pouco tímida a princípio, mas suas amigas não hesitaram quando a questionei se poderíamos tirar uma foto porque tinha achado as suas tranças lindas.
No fim das contas, elogiei bastante gente ao longo do calçadão e recebi vários sorrisos e simpatia em troca. Porém, apenas duas pessoas vieram me pedir um elogio, o que não achei estranho num universo de indivíduos que estão mais preocupados em atravessar o calçadão a todo custo sem parar para ninguém.

Todo o resto tinha aquela cara amarrada. Difícil barreira de se conter. Imaginei quantas vezes andei de cara amarrada a passos largos pelo calçadão da XV – inúmeras. Péssimo hábito. É difícil elogiar alguém que anda de cara fechada porque a aparência é o primeiro obstáculo que se tem na arte do elogio. Imagino que aquele paraíso perdido, do qual Williams citava sobre comunidade, deveria ser repleto de elogios e, consequentemente, sorrisos. Uma coisa não vive sem a outra. Se ao menos soubéssemos o quanto custa o sorriso de um elogio, jamais andaríamos de cara fechada. Ficou a lição.

 

Confira a galeria de imagens da experiência:

Cada pessoa reagiu de maneira diferente, mas a espontaneidade do sorriso ao receber um elogio foi o mais marcante.

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