Em briga de marido e mulher é obrigação meter a colher

A violência física, psicológica, sexual e até moral, na maioria das vezes é cometida por pessoas em quem a vítima confia

Por Anelize Visin

São incontáveis os casos em que a frase “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” é usada como desculpa para justificar atos de violência doméstica. E não somente envolvendo casais comuns. Recententemente no programa Big Brother Brasil, a máxima foi dita pelo participante Marcos Harter durante o conflito com Emily Araújo. Depois do episódio, a Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu inquérito e concluiu violência, o que resultou na expulsão do participante do programa.

Pesquisas realizadas no Brasil demonstram ser cada vez menor a aceitação da falácia popular, que coloca a violência como assunto de natureza privada, que cabe apenas ao casal resolver. Uma pesquisa IBOPE, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão em 2004, revelou que 66% dos entrevistados concordavam com o velho ditado: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Em contrapartida, no ano de 2011, uma pesquisa da DataSenado constatou que 81% dos entrevistados afirmaram que, se presenciassem um ato de agressão contra uma mulher, denunciariam, enquanto 15% afirmaram o contrário.

Mesmo com o pequeno avanço de pensamento na sociedade, esse é um assunto que precisa ser discutido. A frase em questão é um motor para generalização e naturalização da violência. Uma questão cultural que só reforça a sociedade machista e os relacionamentos abusivos, entendidos como aqueles em que um tem poder sobre o outro. É o desejo de controlar o parceiro das mais diversas formas. E é importante entender que a violência não é só física, mas também sexual, psicológica, patrimonial e até moral.

Ele não bate, mas não deixa a mulher sair sozinha ou  usar a roupa que deseja. Ele não bate, mas não deixa ela ter amigos homens e a faz parecer e se sentir louca. Isso é um relacionamento abusivo.

Em diversos casos de violência, as mulheres não se dão conta de que estão em um relacionamento tóxico, ou só percebem quando as atitudes do homem partem para um nível mais agressivo. Nenhuma pessoa está em uma relação ruim porque quer. Muitas vezes, ela não tem condições psicológicas ou até financeiras para abandonar o agressor. Portanto, não existe “mulher que gosta de apanhar”, existe mulher machucada e humilhada demais, que não tem coragem de denunciar ou não encontra forças para sair dessa situação.

Esses parâmetros são resultados da sociedade machista e patriarcal em que estamos inseridos. Como consequência de uma relação de poder historicamente construída, a mulher é ensinada a se sentir inferior e ser submissa. Isso é perceptível com a romantização do abuso em filmes e músicas, quando a mulher que insiste em um relacionamento é colocada como desesperada. Em contrapartida, o homem nessa posição é um apaixonado sofrendo de amor.

Essa é uma demonstração de que a sociedade justifica crimes passionais, em que o homem mata uma mulher por não aceitar o fim de um relacionamento ou é condescendente com a violência. Esse é o caso de Marcos e Emily. As brigas chegaram até o limite da agressividade, até que alguma atitude fosse tomada pela produção do programa.

Ao conhecer alguém que está em um relacionamento abusivo, oferecer ajuda e não deixar a pessoa se sentir sozinha é essencial. Avisar amigos e familiares, fugir de convenções sociais que só protegem o agressor e, principalmente, não julgar ou culpabilizar a vítima são as coisas mais básicas que podem ser feitas. É preciso deixar claro que abuso não é normal e não é culpa da vítima.

Casais em relacionamentos saudáveis não se agridem fisicamente e não se machucam psicologicamente. Ser bem tratada e reconhecida como parte do relacionamento não é questão de sorte ao encontrar o homem certo, mas é algo fundamental na relação. Portanto, em brigas de marido e mulher, a família, os amigos, o Estado e a sociedade têm o dever de interferir. Combater a violência contra a mulher precisa ser de interesse e responsabilidade de todos.

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