Em resposta ao Baleia Azul, jogo busca viralizar o bem

Em contraposição ao desafio do suicídio, dois jovens de São Paulo criaram um projeto de valorização da vida através das redes sociais

Por Rebeca Bembem

O jogo Baleia Rosa é um desafio virtual que busca valorizar a vida através de pequenas ações diárias: ele se contrapõe ao desafio da Baleia Azul, que ficou conhecido nos últimos meses por propor o suicídio como conquista final. A Baleia Rosa nasceu após dois jovens de São Paulo decidirem usar a internet para espalhar o bem.

Os desafios são postados diariamente na página do Facebook e no site do projeto e os participantes são incentivados a compartilharem fotos de suas experiências nas redes sociais usando a hashtag #baleiarosa. As tarefas incluem sair de casa de pijama, ler para si mesmo uma lista de qualidades próprias, ligar para os avós, fazer carinho em alguém, cantar alto no chuveiro e muitas outras.

O aplicativo da Baleia Rosa já tem mais de 50 mil downloads na Play Store, e ainda não está disponível para IOS.

A ideia surgiu durante um típico happy hour em abril deste ano, enquanto Ana Paula Hoppe, marketóloga de 30 anos e Rafael Tiltscher, designer gráfico de 28, conversavam sobre o desafio da Baleia Azul. Ao verem a lista de tarefas desse jogo, Ana e Rafael decidiram criar um desafio que fosse o oposto, para provar que a internet pode ser usada para espalhar coisas boas na mesma velocidade e proporção.

Em questão de horas eles montaram a lista das 50 tarefas e decidiram que elas seriam postadas todos os dias nas redes sociais. Por conta da profissão dos criadores, o site e a página no Facebook vieram do dia para a noite. Uma semana mais tarde, a Baleia Rosa já fazia sucesso e um programador procurou a equipe com um aplicativo pronto, pois acreditava na causa e queria ajudar. Segundo Ana, muitas pessoas vieram depois dele.

Segundo Ana, o projeto não recebe patrocínio algum. “Tudo o que fazemos é com o nosso dinheiro e a ajuda desses seres humanos especiais”, afirma. Ela conta que a dupla não imaginava que a Baleia Rosa teria tanta repercussão: “Pensamos tarefas em que os participantes precisariam mandar mensagens privadas na página, achando que teríamos uns 400 participantes [risos]. Tivemos que rever”, ela conta.

De acordo com dados do Facebook, mais de um milhão de pessoas já se envolveram no projeto. Hoje, a Baleia Rosa tem mais de 10 voluntários, de vários lugares do Brasil, que ajudam a responder as muitas mensagens que a equipe recebe. “Muitas pessoas dizem que o dia delas tem melhorado, que está sendo muito bom ler nossas frases todos os dias para lembrar das pequenas coisas da vida. Está sendo realmente gratificante”, conta Ana.  

Os desafios já passaram dos 50, mas a equipe não tem previsão para encerrar as atividades.

Relatos

A professora e estudante de pedagogia Tainara Subtil, de 20 anos, está participando do desafio da Baleia Rosa com um grupo de meninas adolescentes que aconselha, da Igreja Batista Nacional do Cajuru, em Curitiba. Elas têm cumprido os desafios diários e, aos sábados, quando se reúnem, fazem uma tarefa juntas. Tainara conta que o primeiro desafio, que sugeria escrever no braço de alguém o quanto você a amava, foi bem marcante para o grupo: “Não demos orientação de em quantas pessoas você poderia escrever, mas foi lindo, pois todas escreveram em todas. Voltamos para casa com o braço todo escrito, mas a sensação boa no coração ficou”, lembra.

Segundo Tainara, realizar as tarefas da Baleia Rosa em grupo tem sido muito bom, pois, para ela, todos têm questões interiores a superar todos os dias. “Os desafios da Baleia Rosa trabalham muito com autoestima, amor próprio, amor ao próximo e bem-estar, o que atende as necessidades do nosso grupo no momento”, ressalta. Para ela, as pessoas não dedicam mais tanto tempo ao outro, e isso precisa mudar: “Todo mundo, por mais independente que seja, precisa do outro ali. Todo mundo precisa saber que é amado e admirado por alguém”, afirma.

Para Dianne Estefany, estudante de publicidade de 18 anos de Joaçaba (SC), a Baleia Rosa também trouxe bons resultados. Dianne conheceu o desafio através de colegas da faculdade e, desde então acompanha as postagens da página e cumpre as tarefas que consegue. Para ela, são coisas simples que fazem a diferença. “Ás vezes eu me sinto realmente deprimida”, ela diz, “e ver que tem gente que se importa com o que você sente, mesmo não te conhecendo, é muito bom. Já faz eu me sentir melhor”.

Uma tarefa que Dianne diz ter gostado muito foi a 48, que consistia em escrever frases motivacionais e espalhar por vários lugares. “Eu fiz desenhos de animais sorrindo em post it  e escrevi: ‘sorria!’. Colei em algumas carteiras na faculdade, no meu celular, dei para uma amiga. Até tem um que está na porta da minha casa”, conta. Dianne relata que se sente melhor participando do desafio e que acredita que o objetivo dele seja esse, mas também o de fazer outras pessoas se sentirem bem também. Por isso, ela sempre compartilha as tarefas com uma amiga e com seu namorado.

Para jogar a Baleia Rosa, é só realizar as tarefas na sequência numérica e, se quiser, compartilhar fotos nas redes sociais, sem a necessidade de esperar por um mentor (foto: Tainara Subtil / Arquivo pessoal)

Importância

De acordo com a psicóloga Ana Eduarda Shemany Nunes, ações como o jogo da Baleia Rosa são muito positivas para a sociedade, pois promovem a valorização da vida. No entanto, Ana ressalta que é necessário olhar individualmente para cada pessoa que passa por dificuldades emocionais. “Uma pessoa que pensa em suicídio está em extrema vulnerabilidade, pois acredita que tirar a própria vida é a única saída para seus problemas”, ela diz.

Segundo Ana, é necessário que essas pessoas recebam ajuda psicológica, muitas vezes associada a medicamentos. “O psicólogo ainda é visto com um pouco de preconceito, um ‘médico de loucos’. Porém, se uma pessoa está em dificuldade e não sabe como resolvê-la, a terapia pode ajudar”, completa.

Para saber mais sobre o Desafio da Baleia Rosa, acesse:

Onde procurar ajuda?

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): atende voluntariamente e sob sigilo pessoas que precisam conversar – por telefone (141), por e-mail, chat ou Skype, 24 horas por dia, todos os dias.
  • Atendimento psicológico gratuito nas universidades de Curitiba:

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