Entre pó de giz e folhas de caderno, homofobia ainda deixa sua marca

1-gume1vthn5-s4cazy3julw
De acordo com a Secretária de Gênero, Relações Étnicos Raciais e Direitos LGBT da APP — Sindicato, Elizamara Goulart, a escola reflete o que a sociedade pensa, por isso é preciso desconstruir preconceitos constantemente (Foto: Maria Fernanda Mileski)

Crimes de homofobia continuam a acontecer em diversos espaços sociais. Em junho, dois professores foram assassinados após deixarem o colégio onde trabalhavam na cidade de Santaluz, na Bahia. Casos como este demonstram a violência enfrentada diariamente por homossexuais, transexuais, transgêneros e travestis, que também encontra espaço no ambiente escolar. De acordo com a Pesquisa “Juventude na escola, sentidos e buscas: por que frequentam?”, realizada pelo Ministério da Educação e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, a homofobia é um dos principais tipos de preconceito nas instituições de ensino.

A pesquisa realizada em 2013 ainda revela que 19,3% dos alunos não gostariam de ter como colega de classe um homossexual, transexual, transgênero ou travesti. Por motivações como esta que os casos de homofobia acontecem. A maioria são comentários feitos no espaço escolar, piadas e exclusões nas aulas, mas também existem relatos de agressão física e estupro corretivo, dentro do colégio e nos arredores.

Em 14 municípios da região metropolitana de Curitiba quem recebe as denúncias é o Departamento da Diversidade do Núcleo Regional de Educação da Área Metropolitana Norte. Técnico pedagógico do departamento, Syllas Moreira conta que os casos aparecem para eles via Ministério Público. “Desde que assumi a pasta em abril, já atendi 7 casos”, relata. “Até o momento eu tenho observado a homofobia mais velada, mas com toda a certeza houve caso de agressão física”.

Segundo Syllas, as atitudes homofóbicas normalmente envolvem professores e alunos, no entanto, entre professores também é comum. “Geralmente acontece daqueles professores mais machistas fazerem piadas com aqueles homossexuais”, conta. Uma das explicações para estes casos está nas características da sociedade, que ainda tem dificuldade em compreender a identidade de gênero. Nesse sentido a escola é um espaço onde acontece o enfrentamento.

Interferências no desempenho escolar

Para a vítima de homofobia, a violência pode desencadear uma série de consequências e interferir no seu desempenho escolar. Normalmente o aluno reduz seu índice de rendimento, perde o interesse, falta às aulas e começa a tirar notas baixas. Os professores não percebem estes fatores como sinais de violência que o adolescente esteja sofrendo. “Eles não conseguem compreender que as causas da queda do rendimento escolar podem estar ligadas a outras questões. Isso se refere à própria cultura de sala de aula”, declara Syllas.

Para estes alunos e diante de denúncias, os funcionários do Departamento da Diversidade no Núcleo Regional de Educação vão até a escola para fazer o atendimento. Uma conversa é feita com o estudante, para saber o que realmente o colocou na condição de vulnerabilidade, proporcionando acolhimento e buscando o resgate da confiança deste aluno para com a escola. Na maioria dos casos a equipe retorna mais vezes à instituição de ensino, para a orientação e combate aos preconceitos.

O problema maior que envolve os casos de homofobia acontece em relação aos alunos que sofrem violência. Estes estudantes, muitas vezes, não fazem denúncia por não serem assumidos na família, e com medo da exposição, sofrem calados. Este fator levanta a possibilidade de que possam existir mais casos de homofobia do que os registrados, e que permanecem silenciados.

Escola: espaço de opressão ou de discussão?

Diversos trabalhos são realizados para proporcionar o enfrentamento dos preconceitos e combate à homofobia na escola. Materiais são disponibilizados no site do “Dia a Dia Educação” e os núcleos fazem acompanhamento nas instituições. Além disso, outra ação é promovida pela APP — Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Paraná: são os cursos de formação sobre gênero, sexualidade e relações étnico-raciais para professores e servidores públicos de todo o estado.

Mesmo com o incentivo, algumas escolas ainda resistem em discutir o assunto. Aquelas que o fazem sofrem ataque violento por parte dos grupos conservadores. É o que relata a Secretária de Gênero, Relações Étnicos Raciais e Direitos LGBT da APP — Sindicato, Elizamara Goulart. Ela conta que professores chegam a ser ameaçados por tratar do tema na escola. Nestes casos o sindicato intervém, pois é um dever constitucional. “Proibir que se discuta não vai impedir que aconteça na escola. Debater significa possibilidade de falar sobre o assunto”, diz.

Discutir os direitos LGBT não somente combate a homofobia presente no contexto escolar, mas também fortalece o sujeito na escola, tanto estudantes quanto educadores. Segundo Elizamara, muitos estudantes pedem ajuda do sindicato ou abrem o debate eles mesmos. “Temos uma geração contestadora”, defende. “A questão fundamental é o conhecimento, reconhecer a agressão, como os sujeitos pensam, para que possa ter a ação pedagógica correta”, finaliza.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *