Escritores que se fazem autores

O financiamento coletivo como alternativa para a publicação de livros no Brasil

Por Raisa Toledo

Palestra sobre o funcionamento do financiamento coletivo na Social Media Week São Paulo. (Foto: Vanessa Bencz/Acervo Pessoal)

O financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding, é um mecanismo de viabilização econômica de projetos e tem despontado como uma tendência no setor literário. Muitos escritores, principalmente os mais jovens, a têm escolhido como caminho para a publicação de suas obras. O processo parece simples, mas é também trabalhoso e tem vantagens e desvantagens que dividem opiniões.  Tudo fica concentrado na mão do realizador, desde a produção do livro até a divulgação, passando pela administração de questões financeiras e a produção e envio das recompensas para os financiadores.

Para participar, o interessado deve se inscrever na plataforma digital de financiamento coletivo de sua escolha, gravar um vídeo de apresentação de seu projeto, definir uma meta de arrecadação e estipular um prazo para cumpri-la. A partir disso, conta com as doações de pessoas, que contribuem financeiramente para a concretização dos planos do usuário da plataforma. Os colaboradores recebem recompensas confeccionadas pelos donos dos projetos de acordo com o valor doado, normalmente canecas, camisetas ou um exemplar do produto financiado.

O sucesso depende diretamente da capacidade de mobilização dos colaboradores em potencial e é uma ilusão pensar em colocar o projeto na rede como sinônimo do aparecimento de apoiadores. Isso exige o trabalho determinado dos escritores. Como coloca Vanessa Bencz, curadora da plataforma Catarse, “mais importante do que ter popularidade é entender a dinâmica de uma campanha de financiamento coletivo”. Ter afinidade com a plataforma e um planejamento são cruciais para o processo. Para projetos de orçamento considerado baixo, até 6 mil reais, ela afirma ser possível trabalhar com uma rede de colaboradores pequena, mas engajada, ou seja, interessada de alguma forma na realização. Nos orçamentos mais altos, a popularidade se faz necessária, além de ter muito claro o propósito do trabalho e saber como impactar os possíveis apoiadores.

Ricardo Kuica é quadrinista, e é um exemplo de autor que utilizou financiamento coletivo. O financiamento da HQ “Nada Complicado” foi concluído em agosto de 2016 através do Catarse e hoje exemplares dos quadrinhos encontram-se a venda em pontos como a Gibiteca de Curitiba, além serem divulgados pelo autor em suas redes sociais. Kuica conta que sabendo da dificuldade de conseguir publicar por uma editora, decidiu pelo crowdfunding depois de conhecer pessoas que tinham sido bem sucedidas nessa empreitada.

Ele classifica a plataforma escolhida como confiável, e pensa em realizar outros projetos em um futuro próximo: “Tenho outras narrativas em questão, outras ideias. Agora será ‘Kuica Catártico 365’, tipo o nome de uma campanha. Vou utilizar o prazo de um ano e construir um site com meus seguidores e apoiadores, bem como os que irei conseguindo ao longo da jornada. Publicando no ‘Face’ e na rede vou transformando meu trabalho e evoluindo”. Diante da menção às dificuldades a que pode estar sujeito ao longo do processo, o quadrinista é prático: “Pode ser que eu me dê mal, correrei o risco. Acredito que vai dar boa. Sou paciente e não tenho pressa com minhas ideias”.

“Nada Complicado” de Ricardo Kuica é uma narrativa metalinguística sobre o processo de produção de quadrinhos (Foto: Ricardo Kuica)

Crowdfunding é o novo mercado editorial?

Rogério Pereira, escritor e atual diretor da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), não considera que o crowdfunding seja necessariamente o futuro da produção literária independente, mas uma ótima possibilidade dentro de outras. Entre elas, aponta as editoras independentes, que realizam pequenas tiragens de livros; as publicações por conta própria, para autores que dispõem de recursos; os ebooks; e mesmo leis de incentivo, como a Lei Rouanet ou o Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura (Profice). O que definiria o caminho a ser seguido seria o perfil do escritor, sua natureza de trabalho, os objetivos comerciais e  quanto tempo estaria disposto a esperar pela publicação de seu livro.

Levando em consideração a desigualdade entre o mercado editorial tradicional e o independente, e o quase monopólio que as grandes editoras detém sobre as vendas de livrarias, é difícil acreditar que o financiamento coletivo representa uma competição verdadeira para as grandes editoras: “Para quem trabalha com livros e leitura eu acho bastante animador. Mas acho que não dá para achar que isso vai salvar esse nosso trabalho, porque é sempre muito incerto”, conclui Rogério.

Vantagens

A vantagem mais aparente na realização de um financiamento coletivo é o controle do escritor sobre o processo de produção e publicação, com independência criativa e logística, e sem alterações no conteúdo do livro por parte de editores. Não há a necessidade de se ater a editais ou depender de bancos, e o lucro obtido pelas vendas não se restringe a 10%, valor repassado aos escritores pela maioria das editoras. Outro fator importante é a diminuição da distância entre o realizador e a comunidade apoiadora, e o engajamento de um grupo de pessoas para a viabilização de um projeto em comum no qual acreditam.

O financiamento coletivo acaba sendo, para muitos impacientes, um caminho mais rápido para a publicação de suas obras e, para Rogério, representa também a democratização do mercado editorial, muitas vezes cruel com escritores iniciantes ou pouco conhecidos.

Desvantagens

Rogério também aponta dificuldades que o financiamento coletivo, apesar de facilitar a publicação em si, não dá conta de resolver. A maior delas seria atingir o mercado literário.  “Publicar um livro é só um dos passos, mas é muito importante que essa obra circule. Você não consegue pôr em muitas livrarias, não tem nenhuma grande campanha em prol dela, não tem um fluxo de comércio”, analisa. As exceções seriam os autores capazes de mobilizar grande número de pessoas nas redes sociais, por exemplo, ou com um bom planejamento do processo de venda e divulgação. Outro problema é um contraponto ao controle dos escritores sobre suas obras: a ausência de um filtro, estabelecido nas editoras tradicionais com as leituras críticas de editores e preparadores de texto, e que pode, na visão de Rogério, culminar na publicação de obras com baixa ressonância entre os leitores.

Pensando nas desvantagens que o autor em potencial pode ter ao escolher o financiamento coletivo, também está a desconfiança do público. Apesar de ter crescido em popularidade, o sistema ainda não é amplamente difundido na sociedade, tendo um público de apoiadores restrito e enfrentando certo ceticismo da parte de pessoas que duvidam de sua credibilidade ou do destino que o dinheiro doado teria.

Como contribuir com um projeto?

Basta se cadastrar em uma plataforma de crowdfunding e procurar projetos que tenham a ver com você. Nas palavras da curadora Vanessa Bencz, “ser apoiador é uma experiência recompensadora. Não se trata apenas de receber em casa produtos realizados de forma exclusiva e independente, mas de acompanhar a trajetória de um artista corajoso que faz a diferença”.

 

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