Espaços alternativos retomam o cinema como meio de expressão

Mostras e cineclubes promovem debates e experiências diferenciadas de cinemas de shoppings

Por Natalie Campos

Os arredores da Praça Generoso Marques pararam: não houve quem não interrompesse seu caminho para dar uma espiadinha no Cine ao Ar Livre, evento promovido pelo Sesc Paço da Liberdade no final de abril. Mais de cem pessoas se reuniram em cadeiras e bordas de canteiros para assistir a produções curitibanas: Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba e Circular, de Fábio Allon, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Adriano Esturilho e Diego Florentino; além de 13 vídeos musicais.

Iniciativas como a do Sesc preenchem uma lacuna do cenário cultural curitibano. A cidade, que já teve mais de 15 cinemas de rua, hoje conta somente com a Cinemateca, no bairro São Francisco, e com o Cine Guarani, no Portão Cultural, espaço da Fundação Cultural de Curitiba que se localiza em frente ao Terminal Portão. Mostras e cineclubes também tentam se consolidar em um cenário que, mundialmente, apresenta-se negativo.

O cineasta e professor de Cinema na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Fernando Severo, destaca que a falta de segurança nas ruas e as mudanças no padrão de consumo de filmes contribuem para isso. “O DVD já tirou parte desse público. Agora, o video on demand, o Netflix, mais ainda. Quem vai ao cinema hoje em dia vai como um programa social, e não só pelo filme”, observa Severo.

Cinemas alternativos mantêm viva a cinefilia

No espaço de transição enfrentado pelos cinemas curitibanos, os cineclubes cumprem o papel de manter viva a cinefilia. Severo destaca que os cinemas de rua foram muito importantes na formação de quem hoje produz cinema. “O cinema não é só uma arte, é um meio de expressão”, conclui.

Os cinéfilos, entusiastas da sétima arte, são o principal público dos espaços alternativos, que trilham seus caminhos na capital. Além das mostras universitárias esporádicas, Curitiba conta com 24 exibições cinematográficas em atividade regular, das quais 13 propõem debates. São os chamados cineclubes, como reportado por Prentici Rosa da Silva, dono do único espaço especializado em divulgar a agenda das mostras alternativas da cidade, o blog Cinema em Curitiba.

O Cine FAP, por exemplo, tem exibições nas segundas-feiras às 19h. Lucas Jeison e Pedro Favaro, dois dos mais de oito programadores das sessões, relatam a intenção de sair do óbvio. “Procuramos fugir do que está passando agora no cinema comercial ou do filme do momento na discussão universitária”, afirma Favaro.

As exibições gratuitas já atraíram públicos diversos, mas hoje comparecem principalmente estudantes universitários. Giovanni Comodo é frequentador assíduo do cineclube, a ponto de entrar nas discussões e já ter programado filmes, condizendo com a proposta do cinema. “A ideia do cineclube é que o público esteja à frente do processo”, relata Jeison.

A que o curitibano assiste?

Alguns temas fazem o gosto do curitibano. Em seu blog, Silva observa que as exibições relacionadas às questões LGBT e ao universo feminino chamam mais atenção, assim como filmes de certas nacionalidades. Pouco exibidos em cinemas comerciais do país, os filmes japoneses e poloneses reúnem comunidades de imigrantes e seus descendentes, que compõem parcela representativa da população curitibana. A mostra do Cine FAP que reuniu mais espectadores foi sobre cinema japonês contemporâneo.

Mas mesmo com os cineclubes, um aspecto do cinema de rua se perde. “O cinema de rua proporciona a quem está passando parar e entrar no mesmo momento, experimentar”, destaca Silva. Isabela Mottolo comprova: “Vi o cinema a caminho de casa, chamei meu namorado e fomos”, afirma a estudante de Biomedicina na UFPR, que assistiu às exibições do Cine ao Ar Livre no mês passado.

Outro projeto que procura retomar a dinâmica dos cinemas de rua é o Cine Passeio, projeto iniciado na gestão do ex-prefeito Gustavo Fruet, que consiste em transformar o antigo quartel da Rua Riachuelo em um complexo com salas de cinema e outros espaços de convivência. Previstas para o final de 2017, as salas Ritz e Luz homenageiam saudosamente o que já foi a era de ouro dos cinemas curitibanos — tempo sem perspectiva de voltar.

Para mais informações sobre os cinemas alternativos de Curitiba: +

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2 thoughts on “Espaços alternativos retomam o cinema como meio de expressão

  1. Reportagem ótima, pois inspira outras cidades a terem cinemas. Também mostra que não são necessárias grandes estruturas para ter cinema em uma cidade., basta ter iniciativa e criatividade. A população só agradece com iniciativas como estas, pois aumenta a cultura da cidade. Reportagem excelente.

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