Estudantes daltônicos contam a experiência de conviver com o daltonismo em cursos como Design e Artes Visuais

Eles mostram que são capazes de trabalhar com diferenciação de cores, transformando um empecilho em fator de criatividade

Por Mariana Toy

 

Cerca de 5% da população mundial possui daltonismo, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM). A deficiência na percepção visual impede o reconhecimento e a diferenciação de determinadas cores, sendo verde e vermelho as cores mais confundidas pelos portadores da anomalia. Apesar disso, algumas pessoas daltônicas lidam diretamente com cores na faculdade ou em suas profissões, e encontram maneiras de contornar esse obstáculo.

Existem tipos e graus de daltonismo, que alteram a percepção de cores de formas diferentes (imagem: MegaCurioso)

O daltonismo pode ter origem na complicação de doenças como diabetes, leucemia e anemia falciforme, por exemplo, mas é um distúrbio majoritariamente adquirido por herança genética. A alteração visual atinge mais homens do que mulheres, porque é uma doença recessiva relacionada ao cromossomo X. Isso significa que, para o daltonismo se manifestar no indivíduo, é preciso haver anomalia em todos os cromossomos X presentes em seu corpo. Este foi o caso de Rachel Rebske Hoppe, estudante de Design da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que nasceu com daltonismo, mas só descobriu durante o primeiro ano do Ensino Médio.

Rachel faz parte dos 0,5% de mulheres daltônicas no mundo, segundo o livro “Color Vision: From genes to perception”, produzido por 35 especialistas em genética, oftalmologia e outros aspectos relacionados à visão e ao daltonismo. Ela contou que tem matérias da faculdade – como Processo e Produção Gráfica, Teoria da Cor e Ilustração 1 e 2 – que trabalham muito com diferenciação de cores no Design, mas isso não fez com que ela desistisse de fazer o curso que desejava. “Cheguei a olhar as disciplinas do curso sabendo que teria que lidar muito com cores, mas, quando decidi fazer Design, foi amor mesmo, não conseguiria fazer outro curso”, afirma.

A estudante costumava pedir ajuda para distinguir cores nos trabalhos da faculdade, mas logo percebeu que precisava gostar daquilo que produzia, pois só assim conseguiria defender sua própria ideia. Então passou a confiar mais em suas produções e encontrou alternativas para trabalhar com cores sem precisar da ajuda de terceiros, como o círculo cromático, por exemplo. O Adobe Color CC é um exemplo de programa online que auxilia esse trabalho de forma gratuita. Agora, Rachel vê o daltonismo como um aliado na definição de sua identidade de criação.

O designer Miguel Neiva criou o ColorAdd, um sistema de identificação de cores, baseado em símbolos gráficos, para ajudar daltônicos (imagem: ColorAdd)

Leonardo Rak, estudante de Artes Visuais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirmou que também procura utilizar o daltonismo a seu favor, buscando diferentes perspectivas para suas proposições artísticas. “No que se refere às cores, trabalho de forma sensorial, utilizo a sensibilidade estética para desenvolver minhas composições artísticas”, disse. Leonardo contou que sempre recebe orientação dos professores, mas que seu curso é bastante flexível quando se trata da produção, o que permite maior liberdade para a criação: “alcançar a cor ‘exata’, no sentido de que ela corresponda fielmente à natureza, não é um objetivo ou uma preocupação pra mim”.

Segundo o estudante, não é necessário haver tratamento alternativo por parte dos professores para o bom funcionamento da disciplina, porque o daltonismo não influencia a parte teórica da matéria e não prejudica negativamente a parte prática. Rak acredita que, para aguçar sua sensibilidade no que diz respeito às cores, é preciso prática, produção e não estagnação. Dessa forma, também é possível aumentar seu portfólio, fator que conta muito para a contratação no mercado de trabalho da área.

O estudante de Design de Produto da UFPR, Lucas Padilha, disse que também não precisou de tratamento diferenciado dos professores, tanto que não chegou a mencionar que tinha daltonismo. Ele descobriu a anormalidade em sua visão durante a pré-escola, quando pintava os desenhos com as cores erradas. O futuro designer contou que, quando estava decidindo a faculdade que gostaria de fazer, foi questionado sobre como lidaria com um curso que é tão visual, mas que isso não chegou a atrapalhar seu trabalho. “Tem cores que eu ainda confundo, mas acho que dá uma originalidade ao projeto e, com o tempo, você acaba memorizando o que combina e é aceito”, falou.

O teste de Ishihara ajuda a perceber a existência de uma anomalia na percepção das cores, por isso, alguns oftalmologistas realizam a checagem da visão com ajuda dessas imagens (foto: UPO Oftalmologia)

Os cursos que exigem criatividade não são os únicos que trabalham com cores. Tiago Pereira Lemes é daltônico e trabalha como professor de física nos colégios Marista, Elite e Stella Maris, em Curitiba. Ele usa gráficos nas aulas e enfrenta dificuldades para prepará-las. “Muito do que vem da internet é colorido e quase ninguém se preocupa com os daltônicos”, contou. O professor afirmou que, no exterior, as pessoas são mais conscientes e a acessibilidade é mais aplicada. No Japão, por exemplo, um ex-professor da Universidade de Tóquio chamado Shinobu Ishihara criou um teste que possibilita identificar o daltonismo, sem substituir o diagnóstico de um especialista. Já nos Estados Unidos, a empresa EnChroma desenvolveu um óculos que promete corrigir a visão dos daltônicos, dando cor à vida dessas pessoas.

Tiago acredita que o Brasil precisa se tornar mais acessível e a população mais compreensiva e inclusiva, para que os daltônicos possam ter as mesmas oportunidades que pessoas com visão normal. “Quando alguém briga com um daltônico por trocar cores, a culpa é de quem forneceu o emprego e não deu as condições necessárias. Às vezes, trocar um botão verde ou vermelho por um azul já muda tudo”, afirmou o professor. Para aqueles que não possuem daltonismo, resta o site Colblindor, que oferece a possibilidade de fazer upload de suas próprias fotos para entender a forma como os daltônicos enxergam as imagens.

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