Evaldo Mocarzel: do jornal ao cinema

Evaldo Mocarzel é um homem de duas “paixões siamesas”: cinema e teatro. Formado pela Universidade Federal Fluminense em Cinema e Jornalismo, Evaldo se destaca como documentarista com obras como À Margem do Concreto, Do Luto à Luta e Quebradeiras. No teatro, já viu peças que escreveu subirem ao palco e está prestes a estrear como diretor: em Fome de notícias, peça que estreia em setembro, se “exorciza” de 30 anos de jornalismo, de repórter à editor do caderno de cultura do Estadão, entrevistou diversas personalidades, “de Guattari a Caetano e Tom Jobim”. Além do cinema e do teatro, Evaldo se dedica ao mestrado e dá aulas. Ao Jornal Comunicação, fala de dramaturgia, cinema, teatro e jornalismo.

“O jornalismo é uma maravilhosa escola de vida, mas também um antro de razão cínica.”

 

Jornal Co:::unicação: Você fala que é um jornalista acidental e um documentarista acidental. O que quer dizer com isso?

 

Evaldo Mocarzel: Desde os 13 anos, quando vi Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, e Antígona, de Sófocles (a peça na Sala Cecília Meirelles, no Rio, assim como o filme do mestre sueco), tive a certeza das minhas grandes paixões na vida, paixões siamesas, diga-se de passagem: o cinema e o teatro. Fiz vestibular para cinema na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, onde me formei, depois fui fazer cursos, na sua maioria de cinema e dramaturgia, mas também de filosofia.

O nefasto Governo Collor acabou com a Embrafilme e com toda a infra-estrutura do cinema brasileiro. Migrei então para o jornalismo, atividade à qual me dediquei por quase trinta anos. Fui editor do Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo durante oito anos, mas as minhas duas paixões siamesas jamais me abandonaram. Fiz um curta de ficção e acabei enveredando pelo documentário desde 2000. Hoje estou com projetos de longa-metragem de ficção, embora continue fazendo documentários, e também estou escrevendo peças de teatro. Em breve também vou dirigir uma peça, embora não fosse a minha intenção: como dizia o mestre francês Robert Bresson, a vida é feita de acasos e de predestinações.

 

Co:::unicação: Como você começou a se envolver com cinema? O interesse surgiu quando você era editor de cultura?

 

Evaldo Mocarzel: Desde criança, amo o cinema. O cinema é uma maravilhosa maneira de conhecer o mundo, além de ser um espaço de evasão para os nossos sonhos, um espaço de reflexão, de ver o mundo através dos olhos de outras pessoas.

 

Co:::unicação: Você é um ficcionista, como isso esteve presente na sua produção jornalística e nos documentários?

 

Evaldo Mocarzel: Fui repórter, coordenador da área de cultura da sucursal Rio da Agência Estado, chefe de reportagem, editor do Caderno 2 do Estadão, editei contos de autores como Milton Hatoum, enfim, na minha cobertura jornalística a ficção sempre esteve presente como tema das edições.

Sempre pensei o documentário como uma espécie de ficção, de representação do “real”, em que todo procedimento estético tem desdobramento ético imediato, um terreno fascinante, mas também pantanoso e muito perigoso, pois estamos lidando com pessoas reais que existem independentemente dos filmes que estamos realizando. Temos uma responsabilidade ética sobre essas pessoas.

 

Co:::unicação: Sobre sua peça Fome de Notícias, você diz ser uma maneira de exorcizar 30 anos de jornalismo. Por quê?

 

Evaldo Mocarzel: Foi sim uma tentativa de exorcizar trinta anos de jornalismo que decantaram nos meus nervos. O jornalismo é uma maravilhosa escola de vida, mas também um antro de razão cínica. Tem muitas possibilidades fascinantes, mas também efeitos colaterais traumáticos. Procurei colocar essa ambivalência na peça, sobre um casal que exorciza o próprio vazio existencial vampirizando as tragédias cotidianas da mídia. É uma espécie de reality show expressionista. A peça Fome de Notícia estreia em setembro no Centro Cultural São Paulo com direção do jovem encenador Maurício Perussi.

 

Co:::unicação: Você entrevistou várias pessoas, personalidades importantes da cultura. Qual é a maior preocupação na hora de fazer uma entrevista?

 

Evaldo Mocarzel: Entrevistar alguém é sempre um exercício de alteridade, ou seja, é tentar ver o mundo através do olhar e da vivência de outra pessoa. Entrevistei muita gente no jornalismo: filósofos, músicos, artistas, políticos. Foi uma tremenda escola de vida, com toda certeza.

 

Co:::unicação: Em documentários, também existe a necessidade de entrevistas. Qual a diferença entre entrevista jornalística e a do documentário?

 

Evaldo Mocarzel: A entrevista é uma faca de dois gumes no documentário, pois pode funcionar como um celeiro de histórias, mas também ficamos à mercê das

“verdades” e “mentiras” dos nossos entrevistados. E é um recurso muito banalizado no documentário brasileiro e mundial nas últimas décadas. Documentário não é jornalismo e digo isso com a experiência de quem trabalhou cerca de 30 anos no jornalismo e vem fazendo documentários há 13. O cinema é uma linguagem de fragmentos, uma linguagem metonímica por excelência, em que precisamos buscar o todo numa pequena parte, num fragmento. Um documentário é sempre um recorte profundo do mundo em que vivemos, enquanto que em reportagens precisamos tentar dar voz a todos os envolvidos, sobretudo em temas polêmicos. Por mais que o cinema documentário tenha dialogado com muita proximidade com o jornalismo, como no chamado “cinema direto”, são linguagens muito diferentes que apontam caminhos linguísticos muito distintos.

 

Co:::unicação: Quais são os projetos futuros?

 

Evaldo Mocarzel: Estou fazendo uma série de documentários sobre a vitalidade e a efervescência do teatro paulistano contemporâneo. Aprendi muito como dramaturgo documentando o dia-a-dia de trabalho dos grupos de teatro de São

Paulo. Exibi recentemente um novo documentário no É Tudo Verdade!, Antártica, um documentário muito sensorial sobre uma expedição de geólogos no continente gelado chefiada por Arthur Ayres. Estou finalizando um novo documentário, sobre diversidade sexual, Dizer e Não Pedir Segredo, que fiz em parceria com o Teatro Kunyn, e também estou finalizando um curta bem experimental, sensorial e poético: A Cicatriz é a Flor, co-dirigido com o grande

dramaturgo e encenador Newton Moreno. Também estou captando para dois projetos de longa de ficção: Mesmo Que Seja Eu, com Marcelo Serrado e Camila Pitanga encabeçando o elenco, e Margarida-Flor, com roteiro do genial dramaturgo Luis Alberto de Abreu, que vai co-dirigir o filme comigo.

Há vários projetos em montagem. Em breve, filmo um novo documentário no Nordeste, São Paulo e Santos: Luis Antonio Gabriela, a partir do premiado e genial espetáculo homônimo dirigido por Nelson Baskerville. No teatro, minha nova peça estreia em setembro no Centro Cultural São Paulo: Fome de Notícia. E, no ano que vem, vou estrear como diretor de teatro em Um Pai – Quebra-cabeça, monólogo com a genial atriz Ana Beatriz Nogueira a partir do livro homônimo de Sibylle Lacan, filha de Jacques Lacan.