Fernanda Montenegro por ela mesma

Abertura da 26ª edição do Festival de Curitiba ocorreu na terça-feira (28), no Guairão

Por Anna Sens

Começa a tocar Novos Baianos – eu não marco toca, eu viro toca, eu viro moita -, dando início à festa de abertura do Festival de Curitiba, que chega a 26ª edição sem apoio da Prefeitura, mas prometendo um espetáculo. Em 2016, o público atravessou a rua num tapete vermelho, chegando a um festerê na antiga sede de pós-graduação da PUC-PR, após o espetáculo de Maria Bethânia. Desta vez, a apresentadora, Guta Stresser (diria que é nossa eterna Bebel), em um vestido dourado, convida os espectadores para subirem ao palco. “Ocupa Guaíra” é o mote, bem-casado com o clima político que se instaura na cultura. Subimos, e a festa ocorre lá mesmo, com neon, MPB, espumante, petiscos. É uma festa de teatro que ocorre no teatro e os convidados, produtores, atores e artistas se esbanjam pra lá e pra cá.

Antes disso, o mesmo público que curte a festa, aplaude em pé o que acabou de acontecer no palco. São os dois balcões e a plateia, e não vejo uma pessoa sentada. Fernanda Montenegro diz que está com as pernas bambas. E que nunca apresentou esta peça específica para tantas pessoas. Ela alfineta a falta de subsídios designados à cultura. É ovacionada e sai.

E bem antes disso, às 20h30, começa a cerimônia. Fala secretário disso, daquilo e daquele outro. O prefeito, Rafael Greca, não ganhou direito à fala. Não o vejo nos bancos, a propósito. A umas cinco cadeiras de onde estou, vejo Ney Leprevost, que travou o segundo turno contra Greca. Ah, a política…

Depois, já passando das 21h, o Teatro Guaíra está inquieto. Ninguém sabe, mas Fernanda Montenegro solicitou dez minutos entre a solenidade e a peça para se concentrar na fala. Foi mais tempo que isso. O espetáculo é fechado para convidados. A mesma Fernanda só aceitou participar da abertura caso pudesse apresentar a mesma peça nesta quarta (29), gratuitamente, a estudantes de teatro, no Teatro Bom Jesus. O público grita um ou outro “Fora, Richa”, e até me surpreendi que não saiu um “Fernanda, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”, tão entusiasta e sem propósito estava a plateia enquanto esperava. Mas ela mesma se cala ao perceber que talvez aquilo faça parte do show. O silêncio faz. A espera. O teatro tem sua própria aura. Eu, sozinha em pensamentos, me emociono mesmo antes de a peça começar, só por estar ali. A arte tem dessas coisas. Ela não exige que falem ou protestem por ela. Faz por si só. E, quando Fernanda entra no palco, é êxtase. Ficamos bobos ao saber que uma das atrizes brasileiras mais reconhecidas mundo afora está logo ali, tão humana quanto nós. Toca ópera italiana, porque Nelson escrevia ouvindo ópera italiana.

Não é uma peça tradicional. Tanto que Fernanda não entra em palco já na personagem. É uma leitura de Nelson Rodrigues por ele mesmo, crônicas de Nelson, o anjo pornográfico, reunidas primeiro por sua filha, Sonia Rodrigues, e depois organizadas por Fernanda Montenegro, ela mesma, para dar tom à leitura dramática. Mas Fernanda entra no palco como Fernanda, o que talvez cause abstratos sentimentos ao público, como dito, tão inquieto.

Fernanda Montenegro é categórica: diz que não importa se Nelson era de direita, esquerda ou centro. O que importa é sua obra. Causa incômodo: o artista pode ser neutro? “Eu sou uma mulher de teatro, e não uma mulher de política, ativista”, diz. A mim, teatro sempre foi sinônimo de protesto. Ela explica que Nelson Rodrigues, quando vivo, foi perseguido inúmeras vezes por sua posição política ‘reacionária’. Há a história de que ele apoiou militares. Que era contra a democracia. Que passaram a rechaçá-lo por isso. Pois bem. Na leitura do texto, quando política é citada, essas premissas são humanizadas e até fazem mais sentido que quando ditas preto no branco. Mas ainda me questiono se a arte necessita da isenção.

Qual é o papel do artista na política dada sua visibilidade? Ele precisa ter um papel? Quais as diferenças entre o artista e sua obra?

Quando começa a leitura, que se segue por cinquenta minutos, aproximadamente, temos Nelson criança, crescendo, chorando e todo um panorama sobre sua vida. No texto, há o causo da fama com Vestido de Noiva e do ostracismo com Álbum de Família. Há a morte de seu irmão. Há clássicos: “toda unanimidade é burra”. Há falácias sobre casamento, divórcio e mulher, adequadas a um homem que nasceu em 1912 – mas que doem um pouco de ouvir em 2017. Há sexo. É Nelson Rodrigues, afinal de contas.

A plateia age em conjunto na obrigação de rir. Pois dizem que Nelson era uma comédia que só ele. E por ser Nelson, temos que rir. Não entendo o riso logo após frases como “a classe média ou mata ou se mata” e “meu conselho aos jovens é que envelheçam”. São críticas duras e calcadas em ironia, das mais finas. Pra quê rir, quando é denso?

Se respeitássemos o amor, não seríamos tão solitários, diz Nelson na voz de Fernanda. É verdade. Tento decorar as frases marcantes na minha cabeça, que viaja na mesma velocidade que uma crônica emenda na outra. A cereja do bolo é quando Nelson fala sobre Fernanda Montenegro, a chama de “musa sereníssima”, conta toda uma história. E a atuação da mesma é tão impecável que já não sabemos quem é quem.

Minhas ressalvas são só minhas. Vejo a política como necessidade na arte. Aqueles gritos que tomaram o público antes da peça se ausentam durante e depois, ainda bem. É de emocionar quando o texto de Nelson diz que é o-b-r-i-g-a-ç-ã-o do teatro causar desconforto. Ele é mestre na segunda arte. Sabemos. Desconforto. Sentimos. Respeitamos o incômodo.

E, para fechar, todo o discurso sobre isenção e a ideia de neutralidade é o que mais se destaca. Fernanda, ao menos, protesta na entrada e na saída sobre o quanto a cultura está sendo jogada às traças. Ao fim, diz que seguimos lutando. “Sempre há alguém na plateia”. Sim. Continuaremos lutando. Na plateia e no palco. Mas não precisamos nos eximir de opinar.

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