FICBIC 2016: A política e a poesia não são demais para o Cinema Novo

Terra em Transe (1967), o famoso filme de Glauber Rocha, foi um marco para o Cinema Novo, uma vez que resumia em apenas uma obra todas as características do período: a tentativa quase barroca de representar todas as mazelas sociais do país fazendo uso da estética como ferramenta. Na película, Paulo Martins é um jornalista e ghost-writer de políticos em Eldorado, capital do país de mesmo nome.

O desejo do protagonista em conciliar sua veia artística e poética com a política, objeto pelo qual também tem interesse, acaba o levando a assessorar Felipe Vieira, um candidato a governador sem uma postura populista, que acaba sendo vítima de um golpe que lhe tira do poder. Neste ínterim, Paulo conhece sua namorada Sara, que reivindica pontualmente para que o jornalista não se entregue à luta armada – e, em contradição, resume toda a estética do Cinema Novo produzido até então em apenas uma fala: “a política e a poesia são demais para um só homem”.

O drama dirigido por Luís Sérgio Person, São Paulo, Sociedade Anônima (1965), foi um dos precursores da análise crítica em relação à classe média nos grandes eixos urbanos (Foto: Divulgação)
O drama dirigido por Luís Sérgio Person, São Paulo, Sociedade Anônima (1965), foi um dos precursores da análise crítica em relação à classe média nos grandes eixos urbanos (Foto: Divulgação)

É neste contexto que o novo documentário de Eryk Rocha, Cinema Novo (2016) tenta se inserir. Exibido nesta edição do Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, o FICBIC 2016, o filme lotou a sala de cinema no Espaço Itaú de Cinema nas duas sessões em que foi exibido. Longe do circuito comercial, assim como já propõe o festival (e o próprio Cinema Novo, objeto do documentário), a obra cinematográfica de Rocha estreou nacionalmente no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro no último mês, e foi premiado com o Olho de Ouro, em Cannes, na categoria de Melhor Documentário. Não é pouco para um cinema que começou com uma “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

O documentário faz um recorte de maneira orgânica em vários filmes produzidos durante o período do Cinema Novo, intercalando com falas dos principais produtores da época: Leon Hirszman, ‘Cacá’ Diegues, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Gustavo Dahl, Luis Sérgio Person, Pedro de Andrade, Walter Lima Jr., dentre outros. “A gente gostava não só do que fazia, mas também do que o outro estava fazendo”, comenta Leon Hirszman em certa parte do documentário.

Foi muito deste espírito de coletividade que fez com que a ideologia do Cinema Novo fosse propagada de maneira a perdurar por tanto tempo no cinema de engajamento crítico brasileiro. Com matizes da nouvelle vague francesa e do neorrealismo italiano, os produtores que, em grande maioria, também eram críticos culturais, produziam filmes com ampla carga de crítica social: desde o personagem pelo seu destino fadado a se submeter às demandas da empresa em que trabalha, em São Paulo, Sociedade Anônima (1967), de Luís Sérgio Person, até o retrato feito por Arnaldo Jabor sobre os artistas circenses em caravanas pelos subúrbios do Rio de Janeiro, n’O Circo (1965).

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O panorama da produção cinematográfica da época muito se deve ao período – é essencial lembrar que a maior parte dos filmes foram produzidos em uma época que antecedeu ao golpe militar de 1964 e, principalmente, antes do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 68, que instituiria uma mordaça ideológica em todos os meios de produção artística, incluindo o cinema. Num cenário em que os investimentos de políticas públicas em cultura se tornaram escassos, a criatividade e o uso imagético foram os principais recursos dos cineastas para que produzissem um cinema efetivamente crítico.

Paralelamente à atual situação política do país, que sofre uma crise político-econômica intensa, é certo afirmar que estamos à beira de um colapso de investimentos culturais que muito se assemelha ao do período de produção do cinema engajado criticamente que foi o Cinema Novo.  “Esse filme é fruto de um diálogo entre gerações – desse entendimento da memória não como uma força do passado: hermética, cristalizada e idealizada, mas da memória como construção do futuro”, comentou o cineasta Eryk Rocha no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É uma faísca de esperança que nasce da poesia crítica do Cinema Novo.

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