FICBIC 2016: Sonita, uma viagem pela dura realidade da mulher no Oriente Médio

O limite entre duas culturas pode ser tão complexo quanto estreito. É confuso e costuma ser separado por uma discreta linha e um enorme abismo. Enquanto de um lado causa espanto, do outro é visto com naturalidade. E ao tentar confrontar essa barreira, ambos os lados se misturam fazendo um emaranhado de possibilidades e conflitos.

É dessa ideia de confronto e aceitação que nasce o documentário Sonita, da iraniana Rokhsareh Ghaemmaghami, exibido no dia 21 de outubro no Espaço Itaú de Cinemas como parte da programação do Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba. Durante os 90 minutos do filme, o público mergulha em conflitos culturais para acompanhar o dia a dia de Sonita, uma jovem afegã que vive como refugiada com a irmã em Teerã, capital do Irã. Entre aulas numa escola para refugiados e trabalhos caseiros, Sonita sonha em se tornar uma rapper, falar sobre desigualdade social e gritar contra a venda de garotas para os casamentos arranjados.

Em toda a jornada o clima de tensão lembra que a realidade pode ser dura nos mais remotos cantos da Terra. O medo dos conflitos colocaram Sonita longe da família. A vontade de se ver livre dos costumes e viver seus sonhos a fazem retornar. E nesse ambiente hostil, a imagem da avó reforça a dificuldade de se viver naquela região, principalmente para uma mulher. Com os sentimentos anestesiados, a anciã fala sem remorso aparente: “Não importa se eu sou feliz, é a tradição”, ao se referir sobre o seu próprio casamento e o que está sendo arranjado, para que a família consiga juntar dinheiro e o irmão de Sonita possa comprar sua própria esposa.

A ideia de uma jovem de 15 anos cantar rap é tão incômoda para aquela cultura quanto um casamento arranjado entre uma criança e um homem é para a nossa. Sonita mistura tudo. Cria o caos para poder se libertar. Não aceita nem uma nem a outra e busca criar sua própria vida. Vê no rap a chance de demonstrar o que sente.

Rokhsareh coloca a sua câmera (e a si mesma) no centro do conflito. Questiona Sonita e ultrapassa o filtro da direção, assumindo um papel relevante e decisivo na jornada da jovem afegã. Assume riscos e torna-se parte do documentário, dirigindo a si mesma em determinados momentos.

A não linearidade na apresentação de Sonita é um dos grandes méritos da diretora. O público vai conhecendo a protagonista aos poucos. Vê os sonhos serem construídos em páginas de caderno. A montagem do documentário faz com que o público se apegue lenta e continuamente com Sonita, de modo que cada conflito que surge seja mais incômodo. Da mesma forma, cada vitória é mais prazerosa.

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Foto: Divulgação

Ao final do filme, não estranhe caso sinta certo desconforto. As letras duras e diretas da jovem rapper nos levam a uma realidade distante. Ao mesmo tempo são usadas como uma tentativa de fuga. Não como um esquecimento, mas uma fuga rumo à sua própria libertação. As imagens da jovem cantando “Noiva à Venda”, com um código de barras na testa ilustram bem o objetivo do filme: não importa o quão distante algo esteja da nossa realidade, a dor é universal.

Sonita será exibido novamente durante o FICBIC na segunda-feira (24), às 21h, no Espaço Itaú de Cinemas. Para mais informações sobre o Festival e a programação, clique aqui.

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