“Fora desse mundo” e a liquidez do ser

Peça que teve sua estreia no Festival de Curitiba é um retrato existencialista do sujeito nos tempos atuais

Texto de Jessica Skroch e fotos de Cássia Ferreira

Cada ator transita entre persona e personagem, quem ele é e quem ele interpreta. (Foto: Cássia Ferreira)

Eu fui ao teatro e saí de lá fora desse mundo. Tão fora daqui que eu estava absolutamente dentro de mim.  Bem lá no fundo. Não sabia dizer se tinha entendido tudo ou nada. Segundo o diretor, Kleber Goés, é normal. É uma obra que não tem a obrigação de ser compreendida, mas sentida.

“Fora desse mundo” surgiu a partir de um texto do armênio Arthur Haroyan, idealizador do Grupo Arca de São Paulo, quando viajou às montanhas do Cáucaso, entre a Armênia e a Geórgia. Na busca por histórias novas, encontrou uma pequena aldeia em que seus moradores pareciam estar em outra realidade. “Eles não contam a sua idade, não definem o dia, a noite, não contam semanas, os meses, o ano – não há tempo para eles! ” conta o ator.

Ainda que cause estranheza, diz que não é preciso viajar tão longe para perceber isso, é só olhar ao redor que é possível ver várias coisas fora desse mundo. Para transformar o texto em roteiro dramatúrgico, foi necessária uma adaptação à fragmentação. O diretor explica que em uma sociedade que executa diversas tarefas em múltiplas linguagens, conecta-se à Internet e assiste televisão ao mesmo tempo, cumpre tarefas de forma atribulada e vive tudo muito rápido, fugaz e efêmero, o teatro não poderia assumir um modelo tradicional. Foi necessário estabelecer um diálogo com o mundo moderno. O público poderia editar. Captar algo ou não captar. Seguir e elaborar uma personagem. Embarcar em sensações da forma que quisesse. Nessa peça não há começo, meio e fim estabelecidos. É uma peça de lembranças, relações de amor e ódio, sexo e poder, angústias e felicidades. É sobre o ser humano na sua concepção mais intrínseca e complexa.  

“As cenas são imagéticas e criam a poesia e narrativa através da luz e som”                                                                                                                  Kleber Goés 

As lanternas focam em um personagem a fim de destacar o existencial. (Foto: Cássia Ferreira)

Aleppo e Faixa de Gaza são lugares que promovem a indignação, não se acredita e então se diz “parece de outro mundo” , explica o diretor. Esses lugares são referências para a montagem da peça, no sentido da busca por condições de sobrevivência.

Kleber explica que os 4 elementos, ar, terra, fogo e água aparecem para ilustrar o que é essencial para continuar vivo, mesmo após catástrofes. A atmosfera é de um lugar esquecido com pessoas esquecidas, assim como aqueles em tragédias.  A lama como adereço passa a aridez, além dos sentidos psicológico de essência, natureza do mundo e do ser. O exaustor, ora ligado e ora desligado, aparece como uma possível saída e representa o ar. O fogo está nos corpos em movimento, nas pequenas chances de luz e calor, colocadas em cenas por algumas lanternas manipuladas pelos artistas.  E por fim, a água está, para o diretor, na transpiração e na sua falta, assim como na criação líquida (Bauman que o diga!) e sensorial.

A peça é sobre intimidade. Inventada, reinventada e crua. O íntimo pode ser da personagem ou da persona, misturando a ficção da dramaturgia com a realidade. Os atores tiveram liberdade e autonomia em suas construções. Ser livre é difícil. Kleber não queria mentiras nas performances, queria humanização. Ninguém tinha um personagem pronto e fixo. Eles precisavam ser puros, verdadeiros, o que exigia muita desconstrução.  O grupo devia estar coeso, equilibrado com a mesma energia. O espetáculo fala do nada, o nada criativo que dele surgiria a arte almejada, pelo navegar sobre a não-certeza e o não-lugar. Os atores ficaram 3 meses sem tocar nos textos para uma lapidação dos corpos, um processo árduo e desafiador.

Teatro, dança, mímica e manipulação de objetos. Como se não bastasse desnudar os artistas, a complexidade continua em outras técnicas cênicas. O Diretor de Movimento do grupo, Fábio Parpinelli, baseou-se no estudo do alfabeto do corpo utilizado por Pina Bausch, bailarina referência na dança contemporânea e na dança-teatro. A preparação física buscou formas de expressão corporal únicas e que fugissem do conhecido, elaboradas em conjunto com o grupo. O preparador compilou as sequências (chamadas de partituras corporais, já que não seguem necessariamente o ritmo da música) criadas com os temas amor, ódio, data de nascimento e nome completo dos atores. Além das falas, o íntimo também está nos corpos em cena.

A apresentação provoca angústia. Tudo se passa muito rápido, desconexo, mas no final algum sentido fica: o sentido que cada um elabora. É uma peça existencialista que desencadeia reflexões sobre o que é ser, estar, sentir. Cada personagem tem um pouco de cada um do público. Imersos nesse mundo líquido, onde nada é fixo ou certo, “Fora desse mundo” ainda nos dá uma certa esperança através de caminhos que os personagens encontram em suas vidas. Mesmo na ilógica, na catástrofe e melancolia, no fundo dos cenários de nossas vidas sempre tem uma saída de ar.

Confira a galeria de Cássia Ferreira

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