Formigamento no cérebro pode gerar novo tipo de prazer

O recente fenômeno identificado como ASMR abriu discussão na comunidade médica e  está ganhando cada vez mais força na internet

Por Gustavo Queiroz

Edição de Luiza Pollo

Uma pessoa falando em tom baixo e contínuo. O som de cabelo sendo cortado, de roupas sendo dobradas, de batidas frequentes em uma superfície lisa ou de lápis riscando papel. Pode parecer estranho, mas, para algumas pessoas, situações cotidianas como estas são estímulos para o desencadeamento de reações cerebrais conhecidas como ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response) ou, em tradução livre, Resposta Meridiana Sensorial Autônoma.

 

O canal ASMRequest tem mais de 400 mil inscritos. Imagem: ASMRequest

 

A blogueira e Relações Públicas Juliana Tamietti não entendia do que se tratava quando, em situações corriqueiras, sentia um “formigamento prazeroso” no cérebro, próximo à região da nuca. “Sabe quando alguém passa os dedos bem devagar e de leve na sua pele, fazendo um carinho e dando uma sensação muito boa? É como se fosse essa sensação, mas dentro do cérebro, e não na pele ou superficialmente”, descreve.

Também conhecida como Euforia Induzida, ela é um fenômeno recente, de pesquisa ainda incompleta, mas que está ganhando cada vez mais força com movimentos online e vídeos publicados no Youtube. Apresentada pela primeira vez à comunidade científica na conferência da Sociedade das Sensações, em 2012, a ASMR já tem dia internacional – 9 de abril –, documentário – “Braingasm”, da canadense Lindsay Ragone – e aplicativos para Windows Phone.

 

Triggers e sensações

Os estímulos possíveis são inúmeros e os efeitos podem ser desencadeados quando se recebe um favor ou uma atenção especial. O estudante universitário Vinicius Torresan conta que tinha reações mais frequentemente na infância. “Eu sentia quando alguém fazia alguma coisa pra mim, prestava algum serviço, se dispunha a fazer algo. Mesmo em momentos mais óbvios, como cortar cabelo. O tempo de duração das reações dependia da atividade”.

Os efeitos são identificados como “massagens”, “explosões” ou “bolhas” no cérebro, que podem descer para a espinha e membros. Em um fórum de discussão, um participante identificado como BEAN 487 conta que as reações são como um “brilho prateado através da cabeça. É quase um orgasmo, mas não tem nada de sexual nisso”. Segundo  uma publicação em um fórum de discussão online de um dos precursores da pesquisa em ASMR, o etnobotânico Torsten Wiedemann,  o hormônio dopamina – ligado ao prazer gerado pelo sexo – seria um bloqueador destas reações. Isso sugere a distinção entre o prazer gerado pela ASMR do prazer sexual.

Existem diversos canais no Youtube dispostos a produzir triggers, ou “gatilhos” aos que vivenciam a ASMR. Conhecidos como whisperers (“sussuradores”), os vídeos costumam ser de longa duração. E as visualizações não são poucas. Os canais mais conhecidos atingem números expressivos de seguidores, como o mais conhecido e acessado, GentleWhispering, com mais de 1 milhão de inscritos.

 

Hipóteses médicas

Ainda é rara a pesquisa sobre o assunto. Nem mesmo a revista britânica Medical Hypoteses – famosa pela publicação de hipóteses para os mais diversos casos médicos de pouco estudo –apresentou artigos sobre ASMR.

O neurologista Milton Moreira entende que o que está em jogo é a percepção de cada indivíduo em relação aos estímulos, ou seja, a cognição. “Tudo depende da pesquisa realizada, mas o que está sendo cogitado são estímulos cognitivos”, pondera.

O que mais intriga a comunidade científica são os efeitos que a ASMR pode trazer no tratamento da insônia, estresse, dor de cabeça, depressão, ansiedade e pânico. Para Juliana, os vídeos auxiliam contra a insônia, porque proporcionam um relaxamento instantâneo. Ela conta que, graças aos vídeos, consegue dormir mais facilmente à noite. “Esta sensação além de prazerosa é muito relaxante e dá sono na mesma hora. É como se te preparasse para dormir. O ASMR te desliga do mundo, limpa a sua mente”.

Torsten Wiedemann garante, em publicação no fórum, que existe a liberação de serotonina durante a reação. A serotonina está ligada ao bem estar e ao controle do sono, o que explicaria a intensa sensação de cansaço e de relaxamento.

As hipóteses levantadas pela pesquisa também aceitam a endorfina, secretada pela glândula pineal, como responsável pelos efeitos. Ligada ao controle do estresse e da ansiedade, a endorfina é, inclusive, considerada um analgésico natural. Tanto a endorfina quanto a serotonina são secretadas no corpo de qualquer ser humano. A diferença é que, na ASMR, é possível sentir o efeito direto destas substâncias.

Não existem números sobre a quantidade de pessoas que sentem os efeitos da ASMR. O que se sabe é que se tem pouca informação sobre o assunto, e muitos sentem estas reações sem ter ideia do que se trata. “Eu achei que acontecesse só comigo. Nunca parei para pensar o que poderia ser e que outras pessoas também sentissem” diz Vinícius Torresan. “Eu adoraria se todas as pessoas pudessem sentir, porque é uma sensação realmente muito boa” conclui Juliana Tamietti.

 

Euforia, Frissone Sinestesia

Apesar da pouca pesquisa que se tem sobre o tema, é possível estabelecer comparações da ASMR com outros fenômenos cerebrais já conhecidos. Sabe aquela música especial que arrepia os pelos todas as vezes que toca? Ou o sentimento de nostalgia? Isso pode, muitas vezes, ser identificado como frisson ou euforia. Outro fenômeno estudado é a sinestesia, relacionada à confusão de sentidos. Para um sinesteta, determinadas notas musicais, ou mesmo números, podem remeter a alguma cor específica; cheiros podem lembrar sons; sabores lembram temperaturas e assim por diante. Pelo que se sabe, contudo, as reações da ASMR são muito mais fortes e perceptíveis.

 

Hipnose

De acordo com o especialista em hipnose Cícero Schmid, a ASMR pode estar relacionada à hipnose, que seria todo e qualquer tipo de alteração no estado de consciência. Os estímulos são captados pelos nervos e enviados ao cerebelo, que os processa e encaminha ao hipotálamo – responsável pelas emoções e memória do organismo. Este, por sua vez, manda estas informações ao córtex, que analisa logicamente e emite uma resposta. Quando o córtex é inibido através de estímulo interno ou externo, o organismo passa a ser comandado pelo hipotálamo e é obrigado a reagir de acordo com as suas respostas desprovidas de razão.

“Este é o momento que pode existir uma alteração no estado de consciência. Algumas pessoas possuem uma sensibilidade apurada a determinados estímulos, podendo ocasionar numa auto-hipnose”, explica o especialista. As reações da ASMR, assim, devem ocorrer no hipotálamo, no momento em que o córtex cerebral é inibido pelo estímulo externo. “Isto gera um relaxamento profundo, capaz de alterar o estado de consciência de uma pessoa, esteja ela acordada ou dormindo”, pondera Schmid.

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