Futebol amador mostra a verdadeira paixão por jogar bola

Mesmo com a falta de investimento e as precárias condições dos estádios, o amador contínua revelando novos jogadores com potencia

Pedro Macedo

O futebol amador ainda é discriminado em relação aos campeonatos profissionais, principalmente quando falamos sobre as condições de trabalho do times. Mas, mesmo com todos os problemas, podemos observar que a paixão pela arte de jogar bola continua mexendo com o coração de muita gente. É no futebol amador, antigo futebol de várzea, que muitos dos astros que vemos em grandes times são descobertos. Está no imaginário social que existe muito craque escondido nos pequenos times regionais. Sendo assim, com toda a ignorância de alguém que não entende muito sobre o assunto, resolvi assistir um jogo de futebol amador e observar a relação dos jogadores com o esporte, existe muito potencial e pouco investimento.

No último sábado (13), em um dia  seco e ensolarado, o Sociedade Esportiva Bangu enfrentou o Novo Grêmio Ipiranga pela 4º rodada da Copa de Futebol Amador de Curitiba – popularmente chamada de Copinha. Os times se enfrentaram no estádio XV de Agosto, bairro do Boqueirão, em Curitiba, próximo ao Terminal Carmo. Através de jogadas estratégicas e um pênalti cobrado pelo time do Ipiranga, o tenso e cansativo jogo terminou empatado em 2×2. A Copinha é organizada pela Federação Paranaense de Futebol (FPF) e ocorre sempre no primeiro semestre do ano. No segundo semestre, acontece a Suburbana, tradicional campeonato de futebol amador, também organizado pela FPF.

A partida do Bangu (de vermelho) contra o Ipiranga (de verde) foi marcada por jogadas de ataque pelas laterais. O primeiro gol veio aos 10 minutos do primeiro tempo. FOTO: PEDRO MACEDO

 

Apesar da simplicidade do estádio, havia uma cabine especial para a imprensa. Localizada em cima do banco de reserva do lado inferior do campo, o local possuía cadeiras, mesas e uma tomada, o necessário para que um jornalista pudesse fazer o seu trabalho. Dividi espaço com Vinicius do Prado e Arthur Henrique Schiochet, ambos alunos de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e jornalistas do Do rico ao pobre –  veículo de comunicação, criado pelo jornalista Rafael Buiar com o objetivo de fornecer informações sobre futebol profissional e amador em uma linguagem acessível para todas as pessoas.

Formado por 12 integrantes, o grupo entende que os meios de comunicação hegemônicos dão espaço para as equipes de grande escalão do futebol profissional, visando exclusivamente os lucros da transmissão. A página cobre os jogos de futebol amador que acontecem em Curitiba como forma de dar mais visibilidade à modalidade. Eles produzem textos, fotos e vídeos, disponibilizando  todo na página do Facebook, que conta com mais de 8 mil curtidas, e no site.

O principal público alvo são as comunidades. “A gente tem o pessoal que conhece nosso trabalho e que tem relação com o time”, conta Arthur. Naquele dia, outros dois integrantes do grupo estavam no bairro de Santa Felicidade, zona noroeste de Curitiba, cobrindo o jogo Uberlândia Esporte Clube contra Shabureya Futebol Clube, que terminou 6×2 para o Uberlândia.

Ao contrário dos jogos profissionais, os amadores contam com uma tímida torcida espalhada pelo campo, sendo que a maioria são membros das famílias dos jogadores que vieram assistir o jogo. Enquanto alguns levaram cadeira de praia e coolers com latas de cerveja, outros se acomodavam nas mesas do bar do estádio. Algumas pessoas se agarravam às grades laterais que cercam o campo, utilizando um grande poste derrubado no chão lamacento de arquibancada. Havia também árvores enormes ao redor dos muros do estádio, impedindo que a bola saísse do campo e fosse parar na rua. Enquanto o jogo corria, os jogadores dentro do gramado gritavam uns com os outros. Na várzea é possível escutar tudo que falam dentro do campo, desde os técnicos alertando o time para que eles recuem com a formação até os xingos soltados pelos jogadores nervosos no meio da partida.

 

Com falta de arquibancada, o público se aglomerava ao lado das cercas do campo. Haviam famílias inteiras que se reuniam para ver o jogo e faziam festa durante o intervalo. FOTO: PEDRO MACEDO

 

Falta de investimento

Juliana Santos, estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Tuiuti do Paraná, estava animada com o jogo. Ela torcia para o Bangú, coincidentemente, time em que seu namorado, Diego, camisa 3, joga. Ela veio com a família para assistir a partida, mas conta que não tem costume de assistir outros campeonatos de futebol. A estudante comenta que conhece a página Do rico ao pobre e que acha interessante que a mídia passe a dar mais valor ao futebol amador. “Eu gosto de ver esses jogos porque tem muitos jogadores que tem potencial para jogar em um time maior, mas por falta de oportunidade não conseguiram”, afirma.

 

A assessora administrativa, Aline D., estava no jogo junto com seu marido, ex-treinador de futebol amador. Para ela, o futebol amador consegue proporcionar uma aproximação maior entre a torcida e os jogadores, e defende a persistência dos futebolistas que continuam jogando apesar das condições precárias. “Eu acho que o futebol amador é muito desvalorizado, não tem apoio e é mal visto por alguns”, opina. É certo que os jogadores da várzea sofrem um certo preconceito devido aos baixos salários. Muitos acreditam que, por não ser profissional, os jogadores não recebem nada em troca, mas, de acordo com Vinicius do Prado, existem aqueles que ganham dinheiro por partida jogada.

 

Dentro do futebol amador, a faixa etária dos jogadores varia de time para time. Em alguns ela pode ser de 22 anos, enquanto em outros  pode chegar até os 40. Grande parte dos jogadores também trabalham em outras áreas fora do campo. O problema é que, no profissional, quando um jogador se machuca ele pode ficar um tempo departamento médico recebendo tratamento. No amador, se um jogador se machuca, ele dificilmente vai ter um atendimento médico rápido e ele pode ficar debilitado para trabalhar na segunda feira. No jogo de sábado, não havia uma ambulância no estádio e muito menos algum de tipo de serviço de segurança, como guardas municipais ou vigias, colocando em evidência mais um dos problemas de falta de investimento no amador.

Celeiro de craques

Para Ronaldo Suchevicz, presidente da Sociedade Esportiva Recreativa Bangu, o futebol amador pode não tem o mesmo nível de treinamento que times profissionais, mas são tão habilidosos quanto. Ele trabalha com futebol amador desde 1962, quando tinha 14 anos e era dirigente do clube. Ele afirma que reconhece o trabalho de veículos de comunicação independentes na cobertura de jogos amadores. “Antigamente, quando havia uma mídia forte, o público do futebol amador era muito maior. O que tira o foco do futebol amador é que tem muito jogo maior na televisão, mas o amador continua sendo muito bom”, finaliza. O técnico do Bangu, Marcio Vitor, acredita que a mídia deveria voltar a dar mais visibilidade ao amador. “Aqui é o celeiro de tudo. Pode ter certeza que a maioria que joga em times grandes saíram daqui”.

Já, de acordo com Ivandel da Silva, presidente do Grêmio Recreativo Ipiranga, a principal diferença entre o futebol profissional e o amador, é que no profissional, o atleta recebe de um clube para poder jogar os jogos, enquanto no amador é a paixão do técnico, da equipe e do atleta por futebol que motiva o jogo acontecer. Ele também acredita no potencial que os jogos amadores tem em revelar jovens talentos. “Eu sempre entendi que é do futebol amador de onde sai os atletas, porque você não descobre ninguém por acaso”, argumenta o presidente. A fala apaixonada dos dois senhores de idade, sentados em frente ao campo enquanto observam aflito seus dois times jogarem, mostra o quão importante é a valorização do esporte amador. Apesar das precariedades, o jogo me manteve com os olhos vidrados na partida o tempo todo.

Os campeonatos
No site da Federação Paranaense de Futebol é possível encontrar  mais informações sobre os campeonatos amadores. A Copinha é considerada um treinamento para o campeonato da Suburbana que acontece no próximo semestre. Além disso, a Federação também promove a Taça Paraná, onde os vencedores dos campeonatos regionais disputam a taça contra times do estado todo. No campeonato curitibano, o vencedor da série B também participa da Taça Paraná. Os jogos da Copinha são gratuitos e qualquer um pode assistir. No site da Federação também é possível saber a data das próximas partidas da rodada e os locais dos jogos.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *