Futebol Americano feminino se mantém de forma independente em Curitiba

Equipe feminina busca financiamento coletivo para estrear no Campeonato Brasileiro

Por Cássia Ferreira 

Se resistência é a palavra da moda, pode-se dizer que o futebol americano no Brasil segue a tendência desde antes dela se popularizar. Atualmente nem todas as equipes existentes no país participam das competições oficiais. Muitas delas estão em fase de preparação, enquanto outras ainda estão em busca de recursos financeiros. São poucos os times que possuem algum tipo de patrocínio ou apoio, a maioria sobrevive com o dinheiro dos próprios atletas.

As meninas do time Curitiba Silverhawks seguem na cena independente em busca de financiamento para poderem competir no Campeonato Brasileiro. Em 2017 serão 6 equipes femininas competindo, enquanto na liga masculina serão 30. E, desta vez, ambas as competições serão organizadas por dirigentes dos times de maneira independente e não seguirão nenhuma confederação, o que não acontecia nos anos anteriores.

O Curitiba SilverHawks iniciou como Guardian Angels, em 2014, com

Os treinos do Curitiba SilverHawks acontecem no Parque Barigui (FOTO: Arquivo do time)

algumas meninas que acompanhavam os namorados, irmãos e amigos nos treinos. Porém, o time passou por uma fase ruim, com muitas desistências, e por causa do baixo quórum teve que se fundir com o Brown Spiders, equipe masculina, em 2015, para conseguir agregar mais atletas. Contudo, no início de 2017, elas tomaram uma atitude rumo a independência e se desvincularam. Segundo uma das fundadoras e atual presidente do time, Ester Biss Alencar, “alguns objetivos, valores e outras coisas não estavam coincidindo”, o que contribuiu para o processo de independência.

Apesar de perder o uso do campo do Brown Spiders para os treinos de sábado, Ester vê outras oportunidades nesta nova fase, e agora pode buscar apoio de atletas de qualquer time, até mesmo internacionais, para a parte de treinamento tático, como tem acontecido. “Nós temos muito mais apoio agora de outros jogadores e de gente que acredita no futebol americano feminino, independente do time que eles defendem”, aponta ela. Atualmente, quem as acompanha na comissão técnica é o jogador Gustavo Rios, do Paraná HP, dentre outros convidados esporadicamente. Quanto ao local e horário de treino, eles têm acontecido todas as terças e quintas-feiras das 20h às 22h, e nos sábados das 9h às 12h no parque Barigui.

A logo traz a imagem de um falcão associado a uma mulher, mostrando o empoderamento feminino

O nome escolhido para o novo time foi inspirado numa “curitibanice”. Curitiba Silverhawks faz referência a uma das linhas de ônibus mais utilizadas na cidade, o ligeirinho Inter 2, conhecido como “Falcão Prateado”. A atleta e vice-presidente do time, Amanda Ramos, justifica a escolha: “é um ônibus que muitas de nós pegamos para ir aos treinose para fazer as próprias atividades do dia a dia”. Ela ainda conta que a logo, além do falcão, agregou o rosto de uma mulher para expressar melhor a imagem do time e a força feminina. A identidade visual da marca e das redes sociais são de autoria de um amigo da equipe, Vinícius Biss.

Rumo ao Brasileiro

Campanha “strongwoman”

O time estima um custo de cerca de 40 mil reais para participar do campeonato Brasileiro. Como a equipe não tem nenhum tipo de patrocínio ou apoio financeiro, todo investimento parte das próprias atletas. Elas contribuem com uma mensalidade de R$ 30,00 para manutenção das atividades e treinos, porém ainda é insuficiente para a participação no campeonato. Assim, o financiamento coletivo, chamado “crowdfounding”, está servindo de auxílio principal para angariar recursos. Enquanto isso, outras ações foram surgindo, como pedir dinheiro no sinaleiro, distribuição de flyers, venda de rifas e uniformes do time, e algumas parcerias, como por exemplo com uma hamburgueria de Curitiba durante a exibição do Super Bowl, onde o lanche que leva o nome do time tem uma parte do valor revertido para elas. As meninas também apostam em campanhas nas redes sociais para atrair mais colaboradores ao crowdfounding. E para colaborar basta acessar o link a seguir e escolher o valor da cota e a “recompensa”, que pode incluir desde agradecimentos públicos na página até ingressos para os jogos ou camisetas: https://www.kickante.com.br/campanhas/curitiba-silverhawks-no-campeonato-brasileiro

O investimento em equipamentos pode ser mais um obstáculo para a formação da equipe completa, visto que inicialmente é necessário cerca de mil reais para aquisição de sholder-pad (proteção de ombro), chuteira, capacete e uniforme. Mas, de acorda com a Ester, as dificuldades não as abalam. As meninas têm treinado forte, e vem se empenhando para garantir um bom desempenho nas competições.

Campanha “strongwoman”

Mulheres Fortes

Uma das campanhas no Facebook do time se chama “#strongwoman” e reforça o caráter de valorização e empoderamento das mulheres do time. Além de interagir com o público e mostrar a realidade de mulheres das mais diversas profissões, perfis e idades, mostra a forma como elas se relacionam com o futebol americano, que segundo Amanda Ramos “é um esporte que permite todos os tipos de pessoas desde que tenha determinação e força de vontade”.

Amanda tem 24 anos e além de atleta e vice-presidente do time também acumula as funções de treinadora e árbitra. Aliás, ela foi a primeira árbitra mulher do país. Ela pratica o esporte há 6 anos, e fora de campo é engenheira de automação e controle e mestranda em sistemas de energia, na UTFPR. Para ela, o futebol americano é um esporte que une força e estratégia, além de proporcionar uma relação de amizade e troca entre as meninas. “A relação que eu tenho com as meninas ali é fundamental para fugir um pouco do meu dia a dia, que é predominantemente masculino”, conta. Ela também luta pela igualdade de gênero e diz que jogar futebol americano faz parte disso. “Posso mostrar para todo mundo que mulher pode jogar o que quiser e fazer o que quiser”, diz.

As meninas do Curitiba Silverhawks estão treinando com foco para primeira participação no campeonato brasileiro (FOTO: Arquivo do time)

Cada uma das meninas vem com um perfil diferente. Valéria Ribeiro, 25, é publicitária e uma das veteranas do time, ela procurou o futebol americano a cerca de 2 anos com objetivo de fazer alguma atividade física e deu preferência para um esporte de contato. Hoje, se sente cada vez mais motivada em continuar, mesmo que os treinos não sendo fáceis e exigindo uma dedicação não só física como mental. “A gente se sente conectado com a equipe. Às vezes não consigo entender por que tantas meninas entram e saem do time, existe algo muito especial no futebol americano que não vi em outros esportes”, conta a atleta.

Constantemente as meninas quebram as barreiras dos estereótipos que ainda existem relacionados a brutalidade do esporte e a ideia de fragilidade feminina, principalmente para aquelas meninas com estatura menor. “Olha meu padrão físico, eu sou alta e magrela, e eu jogo mesmo, não perco para as outras por causa disso”, ressalta Ester. Trata-se de um jogo puramente estratégico, diferente dos outros esportes coletivos. Ela considera um momento bom para quebrar barreiras preconceituosas. “As mulheres estão se empoderando muito mais, a gente está vindo com força nesse aspecto”, diz.

Campanha “strongwoman”

Ester é envolvida com o futebol americano desde os 11 anos por influência do irmão que, na época, jogava. Hoje, nos próprios treinos,ela tem a companhia de mais uma mulher da família, a mãe Márcia, 49, que também integra a equipe. Não há um critério específico para entrar no time, é um esporte democrático. Qualquer mulher que se interesse em jogar pode se candidatar. “A gente precisa de todos os tipos físicos, porque cada posição exige uma capacidade física diferente”, aponta Ester.

Ester é a headcoach do time, ou seja, a treinadora principal, e prepara os treinos pensando não só nos fundamentos técnicos do esporte como também na preparação física das atletas. “Eu assumi como headcoach do time por uma questão de necessidade, na época eu era a pessoa mais preparada para isso e com mais experiência, conhecimento e também uma função específica da área de educação física”, afirma. Ela também conta que é uma função de muita responsabilidade, mas se sente honrada por esta representação e diz ser um mérito de todo time que a fez crescer e se aperfeiçoar no cargo. Ester é estudante de educação física, na UFPR, e apesar de ter feito essa escolha independe do esporte que pratica hoje, idealiza um futuro profissional atrelado ao futebol americano, mas é realista ao perceber uma possibilidade ainda distante no Brasil. “Esta perspectiva no Brasil não cabe muito, porque a gente não tem profissionalização em nenhum aspecto. Pouquíssimos são os coachs dos times masculino que recebem alguma remuneração”, diz.

Try-outs

Atualmente, 38 meninas treinam esporadicamente com a equipe, mas a média por treino é de 25 atletas. Um time completo é formado por 53 jogadores, mas com 30 pessoas já é possível participar das competições. Por isso, o time abriu mais uma seleção: o próximo try-out acontecerá no dia 06 de maio, às 9h, no parque Barigui, e será o último antes do Campeonato Brasileiro. Para quem tem interesse em entrar para o time, é só comparecer no dia e horário para a peneira.

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