Greca já não é o mesmo

Como mostram as redes sociais do prefeito, o candidato e o político eleito não seguem mais a mesma linha de retórica

Por Raisa Toledo

Rafael Greca (PMN), prefeito de Curitiba, responde pessoalmente a muitos dos comentários feitos em sua página no Facebook, não recuando diante dos esculachos e agradecendo os elogios. Ao seguir sua linha do tempo, é possível perceber que muitas coisas mudaram desde a época da campanha que o elegeu até agora, com a implementação de medidas polêmicas e a alegada falta de dinheiro no caixa da prefeitura.

Durante a campanha, no ano passado, o principal argumento de Greca era seu preparo. Ele foi prefeito da cidade de 1993 a 1997, e fez desta experiência uma propaganda a seu favor. A frase “se está difícil, deixa que eu faço”, endereçada ao hoje ex-prefeito Gustavo Fruet (PDT), deu o tom de grande parte de seu discurso na época.

Além de declarações polêmicas, como as de que  não governaria com a bunda e que teria vomitado ao sentir cheiro de pobre em seu carro, ele também afirmava ser capaz de contornar as dificuldades de orçamento da cidade. Disse, em entrevista ao jornal Metro, que provaria que a arrecadação de Curitiba vinha crescendo, apontando as alegações de falta de dinheiro de Fruet como “desculpas esfarrapadas”.

Hoje, Greca quer aprovar em regime de urgência na Câmara Municipal de Curitiba seu Plano de Recuperação de Curitiba, que visa, entre outras medidas, a diminuição das horas-aula de professores e o não cumprimento dos planos de carreira dos servidores municipais. Isso não deixou os internautas felizes. Nos posts em que defende a aprovação do pacote, é visível o número de reclamações nos comentários.

Segundo Greca, o déficit nos cofres da prefeitura é de R$ 411 milhões, o que ele quer solucionar com o Plano. Também pela suposta falta de dinheiro, o prefeito adiou a 35ª Oficina de Música de Curitiba, que devia ocorrer em janeiro, o que despertou reações negativas logo em seus primeiros dias de mandato e protestos de músicos e artistas. “Eu não posso contrapor a saúde à música. Enquanto houver dor em espaço público não atendido, não pode haver música”, afirmou, durante uma coletiva de imprensa, em referência à falta de medicamentos básicos nos postos de saúde e às condições gerais da rede pública de saúde, que prometeu em campanha resolver dentro de 180 dias.

Para Bruno Dallari, linguista especializado em análise de falas e como repercutem no espaço público, a mudança de discurso de Rafael Greca evidencia a mudança de posicionamento da população em geral a respeito dele, principalmente em comentários que pedem que ele pare de reclamar sobre a falta de dinheiro e solucione os problemas, como afirmou que faria em sua campanha. “Significa que não basta se eleger com qualquer discurso, como se não fizesse diferença depois que se elegeu, mas que o eleitor e o cidadão permanecem atentos e não são indulgentes com aqueles que eles elegeram, muito pelo contrário, se sentem até mais no direito de cobrar”, explica Bruno.

O Plano de Recuperação de Curitiba não foi a única decisão impopular do prefeito. De início, a Balada Protegida, que tem como objetivo patrulhar áreas de vida noturna intensa da cidade, como a Rua Vicente Machado e a Trajano Reis, também encontrou muito opositores, principalmente entre os jovens frequentadores de casas noturnas e bares nessas regiões.

Em parceria com a Polícia Militar (PM) e a Guarda Municipal (GM), foram realizadas revistas, apreensão de pequenas quantidades de drogas e teste do bafômetro em jovens que estavam nas calçadas, como “ação de conscientização”. Há um número de jovens que criticam o projeto nos posts a respeito, mas também muitos internautas que chamam atenção para o patrulhamento da região central em comparação com a ausência deste trabalho na periferia de Curitiba

Outro acontecimento que movimentou a página do prefeito foi seu anúncio de que estava voltando de Buenos Aires, onde ele e a mulher, Margarita Sansone, haviam passado o aniversário dela. Poucos dias antes, uma enchente deixou muitas ruas da capital debaixo d’água, e choveram comentários criticando a ausência do prefeito, que pacientemente rebateu vários deles, defendendo-se.

Dallari avalia que a presença de Rafael Greca nas redes sociais e sua interação com a população podem gerar uma repercussão positiva, a princípio, por passar uma ideia de disponibilidade em ouvir os cidadãos e receber seus questionamentos. A longo prazo, no entanto, considera que o mais importante é que as respostas sejam consideradas confiáveis e relevantes, para que não seja considerada mais uma ferramenta de marketing, o que indicaria o vazio da administração. “A participação nas redes sociais não é um instrumento decisivo, como se acredita atualmente. Não é o meio de veiculação, mas a consistência da mensagem que, no final das contas, define o grau de estima da população por um governante”, aponta.

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