HPV, o vírus silencioso

O vírus possui mais de 200 variações, saiba como se prevenir

Por Janyne Leonardi

Colaboração de Giovanna Fantinato

No fim de agosto, a Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba ampliou a faixa etária permitida para receber a vacinação contra o HPV (Papilomavírus humano, em português) através do SUS por tempo indeterminado, tornando possível que homens e mulheres até 26 anos de idade possam ter uma proteção a mais para um vírus que na maioria das vezes é inofensivo, mas que pode causar diferentes tipos de câncer. Para entender qual a ação da vacina e quais as expressões da doença no corpo humano, o Jornal Comunicação conversou com a ginecologista Cibele Feroldi Maffini.

O Vírus

O HPV é considerado um vírus DNA, ou seja, ele se infiltra no código genético e o altera para afetar o sistema imunológico. Isso significa que ele não é transmissível geneticamente.

O vírus se aloja próximo ao colo do útero feminino e em regiões do pênis e do escroto masculino. A Organização Mundial da Saúde estima que 600 milhões de pessoas no mundo possuem HPV, e que 80% da população, em alguma altura da vida, irá contrair o vírus. Mas isso não significa que o portador irá desenvolver verrugas, câncer ou qualquer sintoma, em alguns casos ele não se manifesta de forma alguma. Por isso é sempre importante prestar atenção nas mudanças corporais para estar ciente da existência de uma forma mais agressiva do vírus no corpo.

Para identificar se o paciente possui o HPV, existe o exame PCR DNA-HPV. “Entretanto, esse exame é extremamente caro e não há no SUS. Ele é voltado para situações muito específicas”, explica Maffini. De acordo com ela, não é tão importante saber se há ou não o vírus, e sim se ele está se manifestando de alguma forma prejudicial no corpo. Para isso, o exame de papanicolau (nas mulheres) e penioscopia (nos homens) é suficiente. A doutora ressalta, ainda, a importância de realizar esses exames ginecológicos no mínimo uma vez ao ano.

Contágio e transmissão

O HPV é considerado uma doença sexualmente transmissível, pois a principal forma de contágio é através de relações sexuais. O diferencial desse vírus é que  o risco não ocorre somente durante a penetração. A troca de fluídos e o simples contato entre as regiões íntimas podem causar a transmissão.

Existem algumas outras formas de transmissão, raras, mas ainda assim existentes. Elas ocorrem quando o vírus é transmitido durante o parto ou no vaso sanitário. Se a mulher grávida possui algumas forma de HPV mais agressiva – histórico de câncer causado pelo vírus – ela deve avisar a(o) obstetra para que precauções sejam feitas no parto. A doutora ainda afirma sobre um perigo para as crianças: “O vaso sanitário é muito alto para as crianças e elas acabam correndo mais risco de entrar em contato com o vírus quando precisam se mover pelo assento para alcançar o chão”, explica. “Ao utilizar banheiros públicos, é preciso tomar cuidado com isso”.

Homens

Embora ele se manifeste com mais dificuldade, a população masculina não está livre do vírus. “O HPV encontra no homem um ambiente mais difícil de se alojar, porque a mucosa é menor. Na mulher, a zona de transformação e o colo do útero são ideais para o vírus, então ele se mantém ativo por mais tempo”, ressalta Maffini. Por causa disso, muitas vezes o homem não sabe que está com o vírus, que continua ativo por cerca de seis meses a partir da data de contágio, e pode transmiti-lo por meio de relações sexuais. Além disso, o HPV nos homens também pode causar câncer no pênis, ânus ou garganta em suas formas mais agressivas.

Formas de HPV

Até hoje foram descobertos mais de 200 tipos de HPV. Deles, cerca de quarenta causam lesões e infecções. “Os tipos virais do HPV são como raças de cachorro, cada um tem uma personalidade. Alguns são mais agressivos e podem evoluir para o câncer, outros são geneticamente menos agressivos e causam verrugas. Outros simplesmente não causam nada”, ilustra a ginecologista.

Os tipos 16 e 18 são os mais conhecidos causadores de câncer, responsáveis por 70% dessas lesões. Além deles, os tipos 31, 33 e 45 também são considerados agressivos. Os tipos 6 e 11 são os mais populares causadores das verrugas genitais, mas não são capazes de causar lesões mais graves.

Proteção

Para a doutora Maffini, existem três graus de proteção. “A primeira é a vacina. A segunda, a utilização de camisinha durante qualquer tipo de relação sexual”. Esta é considerada uma proteção secundária pois garante apenas 70% de proteção contra o vírus. “A terceira proteção é realizar exames ginecológicos e urológicos com frequência, evitar cigarro, multiplicidade de parceiros, uso de anticoncepcional por mais de oito anos e gravidez muito jovem”, completa.

Vacina

Existem dois tipos de vacina contra o HPV, a bivalente e a quadrivalente. A vacina bivalente previne os vírus tipo 16 e 18, os principais causadores de câncer. A vacina quadrivalente protege, além dos tipos 16 e 18, os vírus tipo 6 e 11, que causam, principalmente, verrugas no corpo.

A vacina contra o HPV age criando uma reação ao vírus que tenta entrar no corpo. Ela detecta e produz anticorpos com mais rapidez, antes que o vírus infeccione a célula. A doutora recomenda que a pessoa ainda não tenha vida sexual ativa e espere até tomar, no mínimo, a segunda dose da vacina para passar a ter relações sexuais. “Quando o vírus já está no corpo, a vacina não tem tanta eficácia”, salienta a doutora Maffini. Isso explica porque a faixa etária para a vacina gratuita é voltada para meninas de nove a quatorze anos e meninos de onze a quatorze anos. Mesmo assim, a vacina é recomendada para todos que tiverem acesso a ela.

Postos de Saúde

As doses da vacina contra o HPV são gratuitas para uma parcela da população brasileira. O SUS atende meninos de 11 a 14 anos e meninas de 9 a 14 anos, pessoas que receberam transplante de órgãos e medula óssea e pacientes com câncer de 9 a 26 anos para receber a versão quadrivalente da vacina. A medida do governo visa diminuir os índices de câncer de colo de útero, o quarto maior causador de morte de mulheres, assim como prevenir as verrugas genitais e melhorar os índices de saúde pública.

Para realizar a vacina, basta encaminhar-se a um posto de saúde com o cartão do SUS, a carteira de vacinação, comprovante de residência e documento de identidade com foto.

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